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Como o cinema de Bernardo Bertolucci questionou o fascismo

Diretor italiano, morto em 26 de novembro de 2018, tratou da ideologia que tanto seduziu o cidadão comum de seu país em filmes como 'O conformista' e '1900'

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“Comunistas são como gatinhos (...) eles brincam com seus sentimentos humanos. O comunismo é uma doença, que pode destruir o mundo”, diz o personagem em “1900”, enquanto segura um gato de verdade. Em seguida, o homem demonstra o que deve ser feito com o gato “comunista” em nome “de todos os outros gatos”. O grupo que o acompanha conclui a cena entoando um conhecido cântico fascista.

 

O filme é uma das obras mais conhecidas do cineasta italiano Bernardo Bertolucci. Ele morreu em Roma em 26 de novembro de 2018, aos 77 anos. Há muitos anos enfrentava um câncer e estava há quase uma década em uma cadeira de rodas.

Bertolucci realizou seus primeiros trabalhos de diretor como parte de uma safra italiana que mesclava questionamentos políticos a influências da nouvelle vague francesa. Em 1972, lançou sua obra mais conhecida, “O último tango em Paris”, controverso na época e mais tarde, por uma cena em que Marlon Brando estupra Maria Schneider. Foi proibido em vários países, incluindo a própria Itália, onde só seria liberado em 1987.

Também em 1987, Bertolucci chegaria aos cinemas com seu filme mais celebrado pela indústria, “O último imperador”. Entre os muitos prêmios que levou em diversos países, estão o número recorde de nove Oscars. Entre eles, o de Melhor Filme e Melhor Diretor. Foi a primeira produção estrangeira realizada na China que contou com apoio do governo desde 1949, ano em que os comunistas tomaram o poder.

Em anos recentes, Bertolucci se viu amplamente repudiado depois que circulou a notícia de que partes da polêmica cena de “O último tango em Paris” foram decididas sem o conhecimento prévio da atriz Maria Schneider. Então com 19 anos, Schneider relatou posteriormente, nos anos 2000, que se sentiu enganada e humilhada, “chorando lágrimas de verdade” durante a filmagem e afirmando que “me senti um pouco estuprada, por Marlon e por Bertolucci”.

“Vou voltar a filmar em meu país, e voltar a fazer cinema político agora que a Itália está de novo ameaçada pelo fascismo”

Bernardo Bertolucci

Cineasta, em declaração dada por ocasião da primeira eleição de Silvio Berlusconi

Em 2013, dois anos depois da morte de Schneider, o diretor deu uma entrevista em que justificou não ter informado a atriz de antemão “porque queria sua reação como menina, não como atriz. Queria que ela reagisse de forma humilhada”. No mesmo vídeo, ele declarou se sentir culpado pelo sofrimento causado a Schneider, a quem nunca se retratou. Três anos depois, o cineasta manteve a justificativa, acrescentando que a atriz sabia que a cena seria violenta porque a informação constava do roteiro.

A ameaça fascista

Para além da associação quase automática com “O último tango em Paris”, a obra de Bertolucci sempre foi marcada pelas referências políticas, em especial seu horror ao fascismo que tanto seduziu e seduz o cidadão comum de seu país.

Em 1994, quando esteve no Festival de Brasília para uma homenagem ao cineasta italiano Gianni Amico, Bertolucci respondeu ao crítico de cinema brasileiro Luiz Zanin Oricchio sobre o motivo pelo qual deixou de filmar em seu próprio país: “Vou voltar a filmar em meu país, e voltar a fazer cinema político agora que a Itália está de novo ameaçada pelo fascismo”. O diretor se referia à eleição de Silvio Berlusconi para o cargo de premiê pela primeira vez.

Quase 20 anos depois, falando ao jornal britânico The Guardian, em 2013, ele fez o seguinte retrospecto de quase duas décadas de gestões de Berlusconi: “Com seus grandes canais de TV nacionais, ele criou muitos valores subculturais. Ele matou a cultura, de certa maneira. Anestesiou o cérebro dos jovens que cresceram nesses anos. Frequentemente, você pode ver uma ignorância que é tão grande e tão aterrorizante”.

Bertolucci sempre se classificou como comunista. Na mesma entrevista ao Guardian ele declarou que sentia que só haviam sobrado dois comunistas no mundo além dele: o escritor português José Saramago e o historiador britânico Eric Hobsbawm.

‘Antes da revolução’

Um de seus primeiros filmes a lidar com questões de ideologia política foi “Antes da revolução”, em que um jovem militante comunista se divide entre a causa política e a vida de classe média burguesa. Lançado em 1964, faz parte de uma safra italiana influenciada pela nouvelle vague francesa e que, nas palavras da crítica Luana Ciavola, continha um “desejo revolucionário”.

 

Em 2004, Bertolucci afirmou que “Antes da revolução” havia sido realizado sob a forte influência de eventos ocorridos durante o governo do premiê italiano Fernando Tambroni, que contava em sua coalizão com a participação do partido neo-fascista MSI. Tambroni autorizou a realização de um congresso nacional do MSI em Gênova, uma das capitais da resistência italiana contra o fascismo. Protestos contra o evento em várias cidades foram duramente reprimidos pela polícia, inclusive com mortes de manifestantes.

‘O conformista’

Em 1970, Bertolucci lançou “O conformista”, uma de suas obras mais conhecidas, baseada em um romance de Alberto Moravia. Nela, um cidadão comum que quer apenas “ser como todo mundo” se oferece para colaborar com o governo fascista. A missão que recebe é a de assassinar seu ex-professor de filosofia, intelectual de esquerda que vive no exílio. Influenciado por suas sessões de psicanálise, Bertolucci localizou a repressão sexual como chave no surgimento do fascismo.

Para além da camada política, a estrutura narrativa e a estética de “O conformista”, em que cores e enquadramentos têm claro papel na ambientação psicológica, inspirou vários outros diretores na época. “O que sempre me deixou orgulhoso (...) é que Francis Coppola, Martin Scorsese e Steven Spielberg todos me disseram que ‘O conformista’ é sua primeira influência moderna”, afirmou. Coppola inclusive contratou o diretor de fotografia da obra, Vittorio Storaro, para trabalhar com ele em “Apocalipse Now”.

'A estratégia da aranha'

Também lançado em 1970, mas para a televisão, este filme se baseia no conto “Tema do traidor e do herói”, do escritor argentino Jorge Luis Borges. Na história, um homem tenta descobrir a verdade por trás da morte de seu pai, assassinado por fascistas no tempo em que Benito Mussolini liderava a Itália.

“É um filme com uma bela graça cinematográfica, um modo de criar clima e avançar com a trama sem o uso de muita fala”, escreveu o crítico americano Roger Ebert, em resenha da época de lançamento. O estilo e atmosfera do filme foram comparados a outros suspenses políticos da época, como “Os três dias do condor”, de Sydney Pollack, em que um personagem se vê enfrentando poderosos inimigos ocultos.

‘1900’

Nesta produção de época de 1976 (com duração de mais de cinco horas), a intenção de Bertolucci foi de traçar as origens e a evolução do fascismo na sociedade italiana por meio da história de dois amigos de infância: um proprietário de terras, o outro camponês. O arco temporal vai de 1901 até depois do fim da Segunda Guerra. A superprodução contou com um elenco internacional, incluindo os americanos Robert de Niro e Burt Lancaster e o francês Gérard Depardieu.

Embora tenha sido acusado por críticos de “marxista” e “maniqueísta”, o filme também foi elogiado pelo ambicioso panorama histórico que oferece. “Como trabalho de ficção histórica, ‘1900’ tem muito a nos ensinar sobre o passado recente da Itália. A amizade complexa, ambígua, entretanto sempre verossímil, entre o jovem fazendeiro e o camponês bastardo que vira líder socialista dá profundidade dramática e o distingue de um documentário ou mesmo de um filme socialista realista”, escreveu o historiador americano Laird Boswell em uma resenha publicada na revista The American Historical Review.

ESTAVA ERRADO: Em uma das passagens deste texto, o sobrenome Bertolucci foi trocado com o Silvio Berlusconi. O texto foi corrigido às 19h30 de 26 de novembro de 2018.

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