Por que tempo frio não contradiz o aquecimento global

A exemplo do que Donald Trump fez nos EUA, Carlos Bolsonaro voltou a ironizar o fenômeno ao comentar a onda de frio no país. Cientistas explicam por que o fenômeno não desmente o aquecimento da Terra

 

No domingo 7 de julho de 2019, o vereador pelo Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PSC) aproveitou a onda de frio por que passam as regiões Sul e Sudeste do país para voltar a debochar no Twitter da teoria de que a Terra está passando por um processo de aquecimento.

 Não é a primeira vez que Carlos faz um chiste do gênero, e ele também não é o primeiro político a usar essa rede social para professar contra a tese do aquecimento global. Em um tuíte de 21 de novembro de 2018, o presidente americano Donald Trump escreveu:
 

“Onda de frio brutal e estendida poderia quebrar TODOS OS RECORDES — o que teria acontecido com o Aquecimento Global?”, diz o texto.

Em 28 de dezembro de 2017, ele já havia usado o tempo frio como argumento de que o aquecimento global não deve ser levado a sério.

 

“No Leste, podemos ter um Ano Novo MAIS FRIO já registrado. Talvez poderíamos usar um pouco desse bom e velho aquecimento global, para o qual nosso país, mas não outros, ia pagar TRILHÕES DE DÓLARES para se proteger. Agasalhem-se!”, ironizou.

Usar o tempo frio ou a neve para questionar o fenômeno climático global é um expediente antigo, que aparece em declarações de políticos de vários países. Em 2014, em meio a uma onda de frio intenso nos EUA, o senador Ted Cruz comentou: “Está frio. Al Gore me disse que isso não iria acontecer”. Vice-presidente dos país entre 1993 e 2001, durante a gestão Bill Clinton, Gore é um conhecido ativista ambiental e criador do filme “Uma verdade inconveniente”, de 2006, sobre o tema das mudanças climáticas.

No Brasil, diversos posicionamentos de integrantes e apoiadores do governo do presidente Jair Bolsonaro negam o aquecimento global. Além do post mais recente de Carlos, seus filhos se manifestaram usaram as temperaturas baixas pelo menos duas outras vezes para duvidar da tendência climática.

Em 2017, Carlos Bolsonaro escreveu no Twitter: “O aquecimento global proporcionando o dia mais frio do ano no Rio de Janeiro!”. No começo de 2018, o deputado federal reeleito Eduardo Bolsonaro postou um vídeo em que aparece em meio à neve nos EUA sugerindo que o aquecimento global seria uma farsa.

O tempo e o clima

A ciência tem uma explicação simples porque pode fazer muito frio, nevar e gear em um planeta que está aquecendo, traduzida na frase “Tempo não é clima”.

O tempo diz respeito ao comportamento meteorológico local e por um intervalo curto. O clima se refere a um fenômeno de longo prazo, em que há um padrão específico de situação meteorológica ou climática.

André Ferretti, coordenador-geral do Observatório do Clima, exemplificou a pedido do Nexo

Isto é tempo

“Quando esfria localmente, como em Curitiba ou São Paulo, onde às vezes usamos roupa de frio e calor no mesmo dia, essas pequenas mudanças rápidas ou até fora de época não são características do clima, mas do tempo.”

Isto é clima

“Quando você fala ‘Você vai viajar para a Sibéria? O clima lá é frio’, ou ‘O verão no Hemisfério Norte, na Groenlândia, é curtíssimo’. É algo que depende de algumas variáveis, como correntes marítimas, correntes de ar, as estações do ano.”

O especialista ressalta que o termo aquecimento global, explicitamente, se refere a uma média de temperatura de todo o planeta. Como esta média cresceu 1 grau centígrado desde o início da Revolução Industrial (iniciada no fim do século 18), diz-se que o planeta vem ficando mais quente.

A maioria dos cientistas concorda que, a partir da Revolução Industrial, a ação do homem levou a um aumento considerável na concentração de dióxido de carbono na atmosfera em um espaço de tempo muito curto.

O reconhecimento do aquecimento global é quase uma unanimidade na comunidade científica mundial

“Na média, estamos em fase de aquecimento, e quando o planeta aquece ele acaba modificando as correntes marítimas, as correntes de ar; isso pode fazer com que alguns pontos do planeta esfriem”, afirmou o pesquisador do Observatório do Clima. “Sempre citam que alguns cientistas mediram um determinado ponto do planeta em que a temperatura estava diminuindo. Agora, isso é dinâmico, e muda de acordo com os fatores como as correntes de massas de ar, que vão sendo afetadas pela mudança global do clima.”

 

A temperatura média do planeta já aumentou e diminuiu muitas vezes durante seus milhões de anos de existência. Esse tipo de fenômeno é natural e explica, por exemplo, as eras glaciais, quando o termômetro médio do globo caiu.

Recentemente, o cientista americano Peter Gleick, especialista em clima, publicou no Twitter gráficos que mostram arcos temporais de 137 anos, 2.000 anos e 800 mil anos de registros de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Em todos, notam-se variações para cima e para baixo ao longo de quase todo o período medido. Na parte do gráfico que retrata o passado recente, há uma abrupta guinada para cima.

O Acordo de Paris, iniciativa contra o aquecimento global assinada por 194 países em 2015 (e que os Estados Unidos abandonaram sob o governo Trump), propõe que o limite do aumento da temperatura fique entre 1,5ºC e 2ºC até 2100.

A posição dos cientistas

O reconhecimento do aquecimento global é quase uma unanimidade na comunidade científica mundial. “Menos de 1 ou 2% alegam que ele não existe. Outros acham que não é o ser humano que está por trás do aquecimento global. Por outro lado, mais de 95, 96% concordam que está havendo sim uma mudança global do clima e as ações do homem estão por trás disso”, declarou Ferretti.

Em 2009, uma declaração conjunta de 18 associações científicas e agências governamentais americanas reconheceu a mudança climática global como um fato. Esta página lista 200 entidades científicas em todo o mundo que reconhecem a mudança do clima, incluindo a Academia Brasileira de Ciências.

Em 2018, um grupo de cientistas britânicos decidiu intensificar seu ativismo contra o que considera inércia das autoridades diante do problema do aquecimento global. Para os criadores da campanha “Extinction Rebellion”, lançada em outubro de 2018, a situação ambiental é tão dramática que eles estariam “preparados para ir para a prisão” na defesa de suas demandas. A campanha promete “ações repetidas de desobediência civil disruptiva e não-violenta”.

Pequeno glossário

Mudanças climáticas

Termo usado como sinônimo mais abrangente de aquecimento global. A formulação mais genérica daria conta de todo tipo de reação do clima à poluição atmosférica, incluindo ocorrências de queda de temperatura. Para Ferretti, o termo mais correto seria “mudança global do clima, no singular, porque é uma mudança só, uma mudança no padrão global do clima, não um monte de mudanças isoladas”.

Aquecimento global

As emissões de gases do chamado efeito estufa contribuem para aumentar a temperatura média do planeta. O dióxido de carbono é o principal gás estufa, liberado por uma série de atividades humanas. A principal fonte desse tipo de gás é a queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás natural. Em 2016, foi responsável por 78% do carbono enviado para a atmosfera nos Estados Unidos, segundo dados da agência ambiental do governo americano. “O que temos então hoje é mudança do clima, porém, por aquecimento global. O clima está mudando e o planeta esquentando. Temos um aquecimento global causado por uma mudança global do clima”, explicou Ferretti.

Efeito estufa

Em 1895, o químico sueco Svante Arrhenius inaugurou a pesquisa sobre os efeitos dos gases estufa no clima, ao calcular o efeito do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas na temperatura terrestre. As substâncias gasosas absorvem parte dos raios infravermelhos, impedindo que o calor se disperse pelo espaço. Em 1901, o meteorologista sueco Nils Gustaf Ekholm usou pela primeira vez o termo “estufa” para caracterizar esse fenômeno.

Camada de ozônio

Película gasosa que circunda a Terra em altitudes de 15 a 50 quilômetros. Ela é responsável por absorver parte significativa dos raios ultravioletas emitidos pelo Sol em direção ao planeta. Décadas de uso intensivo de gases clorofluorcarbonos (ou CFCs) ocasionaram um rombo na camada de ozônio. Em 1987, o Protocolo de Montreal, acordo internacional assinado por cerca de 150 países, estabeleceu o compromisso da eliminação das emissões de CFC. De acordo com aferições da Nasa, o declínio no uso vem ajudando a diminuir o buraco. Vale lembrar que este é um fenômeno distinto e sem relação com a mudança climática global.

Como se calcula o aquecimento global

Cientistas combinam medidas da atmosfera em terra e em mar para ter um quadro abrangente do comportamento da temperatura global. Os dados são coletados por navios, boias meteorológicas e satélites.

As informações de cada dia são comparadas com a média registrada durante 30 anos, em cada estação. Pesquisadores computam as diferenças em relação à média para montar um panorama mais aberto e constatar se a temperatura ali aumenta ou diminui.

Quatro bancos de dados principais são usados no estudo da temperatura global:

  • HadCRUT4 Medição produzida por dois institutos britânicos, o Serviço Nacional de Meteorologia do Reino Unido e a unidade de pesquisa climática da Universidade de East Anglia, também na Inglaterra
  • GISTEMP Série produzida pela Nasa que compila estimativas de mudanças de temperatura na superfície terrestre.
  • MLOST Relatório com informações sobre a superfície dos mares, elaborado pelo administração oceânica e atmosférica nacional (Noaa), ligada ao Departamento de Comércio do governo americano.
  • Levantamentos de dados produzidos pela associação de meteorologia do Japão (JMA)

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