Este é o futuro ministro da Educação. E estas são suas ideias

Professor de filosofia, Ricardo Vélez Rodríguez é alinhado ao pensamento de extrema direita de Bolsonaro, defensor da Escola sem Partido e admirador da ditadura militar brasileira

 

As ideias defendidas na campanha eleitoral se refletiram na definição do futuro ministro da Educação do governo Jair Bolsonaro. Após o veto da bancada evangélica ao diretor do Instituto Ayrton Senna Mozart Neves Ramos, o presidente eleito anunciou Ricardo Vélez Rodríguez como titular do MEC, na noite de quinta-feira (22).

O vetado Ramos, ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-secretário de Educação do estado, tem perfil moderado e não tinha manifestações públicas em defesa de projetos que marcaram a campanha de Bolsonaro, como o Escola sem Partido.

A proposta, defendida por parlamentares conservadores e da bancada evangélica, fala em combater o que chamam de “doutrinação de esquerda” e fala em promover valores familiares, religiosos e patrióticos nas escolas. O discurso religioso, o combate ao inexistente “kit gay”, entrecortado pelos ataques recorrentes ao PT, foram marcas fortes da campanha bolsonarista.

Parte desses princípios são defendidos por Rodríguez, cujo nome foi apresentado a Bolsonaro por Olavo de Carvalho. Escritor de perfil conservador, crítico do comunismo e do PT, e autor de livros que inspiram o presidente eleito, Carvalho também foi responsável pela indicação do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

O futuro titular do MEC já publicou textos na internet ao longo da carreira, nos quais é possível conhecer um pouco do seu pensamento e de suas visões sobre política e educação.

Colombiano naturalizado brasileiro

Ricardo Vélez Rodríguez tem 75 anos, é colombiano naturalizado brasileiro. Tem graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado em filosofia. Desde 2014, segundo seu currículo acadêmico, é professor na Faculdade Positivo, de Londrina (PR).

Especializado no pensamento liberal e político brasileiro, o professor atuou em diversas universidades na Colômbia e no Brasil, lecionando ou pesquisando sobre temas como filosofia política e ética. Aqui, durante mais tempo lecionou na Universidade Gama Filho (1983-2002), na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1985-1990) e na Universidade Federal de Juiz de Fora (1985-2013).

Na década de 1980, foi professor colaborador da Escola de Comando e Estado Maior do Exército Brasileiro. Entre 2003 e 2005, o Exército lhe concedeu o título de professor emérito e a Medalha do Pacificador, condecoração dada a quem prestou serviços à instituição.

O pensamento de Rodríguez

O futuro ministro é autor de centenas de artigos acadêmicos e é autor e/ou colaborador de dezenas de livros. Muitos dedicam-se ao pensamento de autores clássicos da filosofia e da filosofia política, como Immanuel Kant, René Descartes, Alexis de Tocqueville, John Locke e Jean Jacques Rousseau.

Outros tantos textos, disponíveis em seu blog pessoal, o Rocinante, criado em 2009, tratam do passado político brasileiro e da política contemporânea, ponto em que emergem as críticas à esquerda, ao PT e aos governos petistas (2003-2016), além de opiniões sobre temas diversos como diplomacia, tráfico de drogas e movimentos sociais.

Educação

O futuro ministro dedicou parte dos seus escritos e da sua carreira à temática da educação. Rodríguez defende que o MEC enxergue o sistema de ensino básico e fundamental como um serviço de responsabilidade dos municípios. A proposta, segundo ele, dialoga com a ideia de “Menos Brasília e mais Brasil”, defendida por Bolsonaro na campanha eleitoral.

“As instâncias federal e estaduais entrariam simplesmente como variáveis auxiliadoras dos municípios que carecessem de recursos e como coadunadoras das políticas”

Ricardo Vélez Rodríguez

em texto publicado em 7 de novembro de 2018

Em outro texto, de 2014, Rodríguez se propõe a analisar a educação no país entre 1964 e 2014, período em que, para ele, não houve uma política contínua, razão de parte dos problemas do setor e para as falhas da formação dos alunos. O professor afirma que a política educacional mais coesa foi a desenvolvida pelos militares e define como a mais problemática a praticada durante os governos petistas.

Escola sem Partido

Em seu blog, o professor afirma que o projeto da Escola sem Partido é “providência fundamental”. Rodríguez diz que o mundo está submetido “à tentação totalitária” e que no século 20 emergiram regimes que negam o “sagrado poder de a família educar os seus filhos”.

Rodríguez se opõe àquilo que chama de “politicamente correto” e diz que as abordagens sobre temas como gênero e sexo são “maluquice” e um “crime” contra as famílias. Em texto de 7 de novembro de 2018, ele afirma que a tarefa essencial para o MEC é recolocar o sistema de ensino a “serviço das pessoas” e não como instrumentos para “hegemonia política” de grupos políticos.

“Acontece que a proliferação de leis e regulamentos sufocou, nas últimas décadas, a vida cidadã, tornando os brasileiros reféns de um sistema de ensino alheio às suas vidas e afinado com a tentativa de impor, à sociedade, uma doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista (...), destinada a desmontar os valores tradicionais da nossa sociedade, no que tange à preservação da vida, da família, da religião, da cidadania, em soma, do patriotismo”

Ricardo Vélez Rodríguez

em texto publicado em 7 de novembro de 2018

Reforma do ensino médio

O professor elogiou a reforma do ensino médio, sancionada pelo presidente Michel Temer em fevereiro de 2017. A proposta mudou a grade curricular, prevê a implementação gradual do ensino integral, entre outras alterações.

A mudança, na opinião de Rodríguez, representava uma “nova era” na educação secundária, que ficou prejudicada pelas gestões petistas. Quando trata do ensino médio, o futuro ministro também inclui as provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) como um “instrumentos de ideologização”.

“Os quatorze anos de gestão lulopetista conduziram o ensino médio ao impasse em que se encontra, com índices de abandono enormes e com a frustração de toda uma geração que não sabe para onde vai. (...) Em boa hora o governo decidiu mexer nesse vespeiro. (...) Vamos tirar o Brasil do vermelho!”

Ricardo Vélez Rodríguez

em texto publicado em 6 de outubro de 2016

Pensamento político

Inspirado em pensadores conservadores e liberais, como o francês Benjamin Constant (1767-1830), Rodríguez entende que a crise política se resolve por meio das variáveis econômica, política e cultural. Neste último, entende como essencial permitir que as novas gerações conheçam as “ideias liberais e conservadoras”.

“[Na variável] econômica, abrindo espaço para a livre iniciativa, a produtividade, que no Brasil há muitas amarras que atrapalham. Política mediante uma melhora da representação. Acho que adoção do voto distrital seria um caminho. E, na parte cultural, acabar com esse endeusamento do pensamento de esquerda que conduz ao nada”

Ricardo Vélez Rodríguez

em entrevista à revista Veja, publicada em 18 de maio de 20115

Sobre Jair Bolsonaro

No texto em que fala sobre sua indicação ao Ministério da Educação, o professor explica porque “desde o início” apostou na candidatura do agora presidente eleito. Durante a campanha, afirmou que a cobertura de parte dos meios de comunicação foi injusta ao então candidato do PSL por defender valores conservadores.

“Achei a sua proposta de escutar o que as pessoas comuns pensam uma saída real para a insatisfação e a agonia que as sufocavam, nesses tempos difíceis em que se desenhava, ameaçadora, a hegemonia vermelha dos petistas e coligados”

Ricardo Vélez Rodríguez

em texto publicado em 7 de novembro de 2018

Sobre o PT

Entre os livros de sua autoria, o mais recente é “A grande mentira - Lula e o patrimonialismo petista” (Ed. Campinas, 2015). O título indica o pensamento opositor ao partido, que ocupou a Presidência da República entre 2003 e 2016.

As menções negativas ao partido tratam em resumo da relação do PT com movimentos sindicais e sociais e dos escândalos de corrupção. Em artigo sobre os dez anos do PT à frente do Palácio do Planalto, em 2013, Rodríguez afirma que o partido se afastou do seu programa social-democrático. Para ele, o Bolsa Família tornou os atendidos pelo programa “reféns da dádiva oficial”.

“Sabemos hoje que a ‘revolução’ pretendida pelo PT consistia em roubar sem nenhuma oposição. Essa é a mensagem que passam as duas operações que a Justiça realizou e ainda realiza contra a petralhada e os seus colaboradores, no julgamento do Mensalão e na Operação Lava Jato”

Ricardo Vélez Rodríguez

em texto publicado em 1º de abril de 2017

Sobre a ditadura militar

Em texto publicado em abril de 2017 em razão do 31 de março de 1964, que marca o início da ditadura militar (1964-1985) no país, Rodríguez afirma que a data é para se “lembrar e comemorar”. A exemplo de Bolsonaro, capitão reformado do Exército, o professor diz que a avaliação histórica daquele período é distorcida pelas universidades.

“Especialmente as públicas, controladas a partir da abertura democrática pela esquerda raivosa”, escreveu ele em um artigo publicado em 2014. Para Rodríguez, o regime militar livrou o Brasil do comunismo e do populismo, deixou legados importantes para a economia, mas errou ao “submeter o Congresso a uma pesada liturgia de obediência ao Executivo”.

“Reconhecer o importante e patriótico papel desempenhado pelas Forças Armadas em 64 não significa, de forma alguma, sacramentar todas as ações efetivadas pelos governos castrenses nos vinte anos à frente do poder, como se não tivesse sido cometido nenhum erro. É fundamental, contudo, à luz da história, reconhecer o que de positivo deixou-nos o ciclo militar”

Ricardo Vélez Rodríguez

em texto publicado em 1º de abril de 2017

Também a exemplo de Bolsonaro, o futuro ministro é crítico à Comissão da Verdade, criada em 2011 a fim de reunir documentos e registros dos crimes contra civis praticados no período.

“Nos treze anos de desgoverno lulopetista os militantes e líderes do PT e coligados tentaram, por todos os meios, desmoralizar a memória dos nossos militares e do governo por eles instaurado em 64. A malfadada 'comissão da verdade' que, a meu ver, consistiu mais numa encenação para 'omissão da verdade', foi a iniciativa mais absurda que os petralhas tentaram impor”

Ricardo Vélez Rodríguez

em texto publicado em 1º de abril de 2017

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