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A importância de ‘Parque Industrial’, 85 anos depois

Escrita na década de 1930 pela artista e ativista Patrícia Galvão, a Pagu, obra é considerada pioneira do romance proletário no Brasil

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Foto: Wikimedia Commons
Foto da década de 1920 de Pagu
 

Nos primeiros dias de 1933, circularam em São Paulo, em tiragem modesta, cópias de “Parque industrial, um romance proletário”, obra assinada por uma desconhecida Mara Lobo.

O Brasil vivia o governo provisório de Getúlio Vargas, instituído em 1930 por um golpe de Estado. O Partido Comunista Brasileiro havia sido fundado em 1922 e, proibido pelo governo, mantinha-se na clandestinidade.

Na São Paulo do romance, povoada por operários do bairro do Brás, ainda não havia jornada legal de trabalho fixada em oito horas, salário mínimo ou leis trabalhistas.

Como não tardou a ser divulgado na imprensa da época, Mara Lobo foi um pseudônimo adotado por Patrícia Galvão (1910-1962), a Pagu, artista e militante que atuava junto aos modernistas desde a década anterior. Na ocasião do lançamento de seu romance de estreia, Pagu tinha 22 anos.

“O bonde se abarrota. De empregadinhas dos magazines. Telefonistas. Caixeirinhos. Toda a população de mais explorados, menos explorados. Para os seus cortiços na imensa cidade proletária, o Brás”

Patrícia Galvão

Trecho de ‘Parque Industrial’

O livro ganhou uma nova edição em 2018, pela editora Linha a Linha, com notas explicativas e dois posfácios inéditos em língua portuguesa.

Desde sua primeira publicação, até esta nova edição impressa, só havia sido reeditado, tardiamente, em três ocasiões: em 1981, foi lançado em fac-símile pela editora Alternativa; em 1994, na coleção “Novelas Exemplares”, parceria entre a editora Mercado Aberto e a Universidade Federal de São Carlos; e em 2006, na coleção “Sabor Literário”, pela editora José Olympio.

Posteriormente, em 2013, uma versão digital da obra foi disponibilizada pela editora Cintra.

Do que trata

“Parque Industrial” é um painel de personagens da classe operária e da classe média alta e de suas relações. A vida na fábrica e nos cortiços do bairro paulistano do Brás são o cenário de dramas quotidianos que envolvem amor, sexo e dinheiro.

 

“O propósito militante salta aos olhos quando se lê ‘Parque Industrial’: trata-se de um livro que apresenta diversas cenas do sofrido cotidiano da classe social que, no início dos anos 1930, logo após a grande crise econômica de 1929, habitava o bairro operário Brás, na capital paulista”, escreveu a pesquisadora Larissa Satico Ribeiro Higa em sua dissertação de mestrado pela Universidade Estadual de Campinas, “Estética e Política – Leituras de Parque Industrial e A Famosa Revista”.

Nesse universo, Pagu dá enfoque especial às dificuldades vivenciadas pelas mulheres proletárias.

A linguagem mistura o didatismo e o jargão militante à fragmentação característica dos romances modernistas da década anterior.

“‘Parque Industrial’ é um herdeiro direto das narrativas urbanas produzidas pelo Modernismo da década de 1920. Podemos pensar em ‘Memórias sentimentais de João Miramar’ de Oswald de Andrade (1924), em ‘Amar, verbo instransitivo’ de Mário de Andrade (1927), ou ainda nos contos de ‘Brás, Bexiga e Barra Funda’ de Alcântara machado (1927)”, escreveu o pesquisador Anselmo Peres Alós em um artigo para a revista acadêmica Caligrama, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Relevância

Ao Nexo, a socióloga e editora do livro, Marília Moschkovich, destaca que a obra de Pagu é inaugural em múltiplos sentidos.

Além de ser pioneira do chamado “romance proletário”, apresenta outras características pouco comuns para a literatura da época.

São elas o fato de “trazer o ponto de vista das mulheres trabalhadoras de maneira bastante explícita e às vezes até ‘dura’ demais; tecer críticas políticas bastante vorazes no contexto de ascensão do fascismo no Brasil e no mundo e incluir na discussão a questão do racismo e do machismo entrelaçadas e associadas às relações de classe.

“Editar Parque Industrial em 2018 foi um trabalho de costura entre passado e presente, entre história, cultura e política”, disse Moschkovich.

Segundo, ela “a partir dessa decisão [de publicar uma edição comemorativa dos 85 anos da obra], a situação política no Brasil foi paralelamente se desenvolvendo para o que às vezes parece um replay do final da década de 1920/1930. Na medida em que íamos elaborando a edição da obra, ela parecia se tornar mais e mais relevante”.

Moschkovich relembrou ainda o papel político da obra no contexto de seu lançamento, quando circulou como o que hoje é chamado de fanzine

Fora do cânone

A mistura de segmentos mais prolixos e didáticos, de linguagem militante (“mais-valia”, “exploração feudal”, “ditadura bancária”), com uma linguagem fragmentária, formada por períodos curtos e dinâmica cinematográfica, conferiu a “Parque Industrial” uma “materialidade peculiar” em relação às principais tendências literárias de sua época, afirma Larissa Higa em sua dissertação de mestrado.

Essa mistura o distancia tanto das produções dos artistas modernistas da década de 1920 quanto do “Romance de 30”, safra de romances engajados de autores como Jorge Amado, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz que surgiram a partir da década de 1930.

“Apesar de sua enorme importância histórica, Parque Industrial é um romance que fica fora do cânone da literatura brasileira e de fato não é mencionado no ensino básico”, diz Moschkovich.

Para ela, isso pode se dever ao forte posicionamento político da obra em relação a temas que “ainda não são bem-vistos na sociedade brasileira”, como a militância comunista, os direitos das mulheres trabalhadoras, a exploração sexual entrelaçada à exploração de classe nas relações entre homens ricos e mulheres pobres e o racismo.

Até esta edição, o material de análise e contextualização da obra, que se situa em um contexto histórico, político e geográfico particulares, nunca havia estado disponível junto com a própria obra.

Moschkovich destaca que as notas e posfácios tornam a obra muito mais acessível a professores, educadores e grupos de leitura, abrindo a  possibilidade de levar para a sala de aula ou para bibliotecas atividades de aprendizado literário, político, histórico e cultural por meio de sua leitura coletiva.

‘Material agitativo’ x valor literário

A obra tinha o propósito de ser um material que mobilizasse e “agitasse” as mulheres e a classe trabalhadora em geral, sensibilizando-a criticamente para o cotidiano.

Segundo a dissertação da pesquisadora Larissa Higa, “a necessidade de extinguir-se o estado de injustiça social é muitas vezes apresentada ao leitor por meio de uma linguagem panfletária, repleta de jargões político-partidários”.

“A utilização exagerada de clichés políticos trunca a fluidez narrativa e é apontada por grande parte dos estudiosos de ‘Parque Industrial’ como o principal problema de constituição formal desta obra”, aponta a dissertação.

Já na visão de Moschkovich, ao mesmo tempo em que “Parque Industrial” era arte política, um panfleto, “tem um enorme valor literário e estético para o qual vale a pena olhar”.

“É aquela mulata indigente que matou o filho!– Estúpida! Só para não ter o trabalho de criar! Vagabunda! Devia morrer na cadeia…– Deixe, querida! Vê o nosso bebezinho que maravilha! Que gorducho! Olha as covinhas… Que saúde!– Vou dar pra ele todos os meus brinquedos. Agora já tenho um boneco de verdade. E você tem que comprar aquele carro alto. É o último tipo de Nova York! Para ele passear no parque da Avenida com a nurse.”

Patrícia Galvão

Trecho de ‘Parque Industrial’

“Trata-se de uma narrativa que entra na intimidade das personagens, e mostra como o próprio mundo do trabalho é vivido e permeado por essas intimidades”, disse ao Nexo.

A editora enfatiza a escolha das palavras, o uso de linguagem oral e de gírias que compõem essa ambientação.

“É só por meio delas que podemos de fato acessar as frustrações, traumas, esperanças, vontades, raiva da experiência de vida numa sociedade estruturada contra a mulher trabalhadora, contra as mulheres negras, contra as mulheres pobres, contra as mulheres”, prossegue Moschkovich.

Ela conclui que “a crueza com que certas situações são relatadas é muitas vezes um soco no estômago, e a escolha de ‘cortes’ de cena e de texto é absolutamente brilhante na transmissão dessa dor. As escolhas de texto da autora são fascinantes, ao mesmo tempo em que tudo é muito acessível, acessível demais, talvez tão acessível que chegue a doer. Está aí o valor literário maior do texto”.

Fas(c)es de Pagu

Nascida em 1910 em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, Patrícia Galvão cresceu na capital. Um dos endereços em que viveu com sua família de classe média baixa era na Rua Bresser, no Brás, nas imediações de onde se passaria seu primeiro romance.

Estudou na Escola Normal do Brás de 1924 e 1928, e depois da Praça da República, acompanhando, simultaneamente, cursos de literatura e arte dramática.

No final dos anos 1920, foi introduzida ao grupo antropófago e à vida cultural de São Paulo. Desenhava e escrevia poemas, colaborando com publicações do grupo, e declamava. Em 1930, casou-se com Oswald de Andrade.

A partir do início da década, suas preocupações se deslocaram cada vez mais para o campo político. Nestes primeiros anos da década de 1930, conheceu o comunista Luís Carlos Prestes, em Montevidéu, e se filiou ao Partido Comunista Brasileiro.

Intensificou então ainda mais sua atuação militante, acompanhando greves e protestos de trabalhadores. Em 1931, foi presa em um comício.

O partido, que havia adotado uma política de depuração dos “elementos pequeno-burgueses”, a considerava suspeita e incontrolável.

Na época em que escreveu “Parque Industrial”, ela havia sido afastada compulsoriamente do PCB. O livro consistia em uma tentativa de trabalhar intelectualmente pelos ideais do partido, mesmo que à margem dele, o que explica o uso do pseudônimo Mara Lobo.

“Pensei em escrever um livro revolucionário. Assim nasceu a ideia de ‘Parque Industrial’. Ninguém havia ainda feito literatura desse gênero. Faria uma novela de propaganda que publicaria com pseudônimo, esperando que as coisas melhorassem. Não tinha nenhuma confiança nos meus dotes literários, mas como minha intenção não era nenhuma glória nesse sentido, comecei a trabalhar”

Patrícia Galvão

Em sua autobiografia ‘Paixão Pagu’

 

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