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Este estudo afirma que a expressão de prazer muda com a cultura

A partir de interações de participantes com imagens digitais de rostos, cientistas dizem ter obtido retratos das representações ideais de orgasmo e dor física presentes em mentes de ocidentais e asiáticos

 

O movimento dos músculos da face para formar expressões faciais é uma importante forma de comunicação não verbal, que nas interações humanas pode servir para influenciar comportamentos.

Pesquisadores realizam estudos em um esforço de identificar similaridades e diferenças das expressões entre culturas, em busca de bases fundamentais da interação humana, assim como diferenças e o que elas podem indicar sobre cada cultura.

Publicado em outubro de 2018 por um conjunto de pesquisadores britânicos na revista Pnas (Proceedings of the National Academy of Sciences), o trabalho “Expressões faciais distintas entre culturas representam dor e prazer” analisa as diferenças entre as representações mentais das expressões de orgasmo e dor entre pessoas da Europa ocidental e do leste da Ásia.

O trabalho se baseia não em imagens do mundo real, mas na interação dos pesquisados com representações computadorizadas de rostos humanos. Com isso, os cientistas buscaram “extrair” das mentes dos pesquisados seus ideais das expressões de orgasmo e dor física.

Segundo o trabalho, pesquisas baseadas em imagens da vida real vinham indicando que as expressões de dor física e orgasmo eram relativamente similares. A conclusão deste trabalho foi, no entanto, de que os ideais mentais dessas expressões são diferentes entre si.

E que o ideal de uma expressão de orgasmo é diferente entre os membros da cultura ocidental europeia e da cultura do leste asiático. O artigo levanta a hipótese de que essas diferenças correspondam às diferentes formas de encarar e lidar com sensações positivas em cada cultura.

Como a pesquisa foi feita

Para analisar as expressões faciais representando dor física e orgasmo em cada cultura, os pesquisadores recrutaram 80 observadores.

Destes, 40 eram ocidentais brancos e europeus. Outros 40 eram chineses.

Eles exibiram a esses observadores animações de rostos exibindo movimentos faciais aleatórios. Entre eles, sobrancelhas se levantando, narizes franzidos, movimentos da boca etc.

Em seguida, pediram que os observadores apontassem, por meio de uma escala de 1 a 5, quais mais indicavam, segundo os modelos de expressões que conheciam, a dor física, definida como “uma dor afiada sensorial que ocorre após receber, por exemplo, um choque elétrico, ter um membro submerso em água gelada, ou dor nas costas”.

E quais mais indicavam orgasmo, definido como “a breve e intensa experiência que ocorre durante o ciclo de resposta sexual após a primeira fase de excitação e a fase de manutenção de estímulo”.

Cada um dos observadores categorizou um total de 3.600 expressões faciais. Cada uma delas exibia rostos do sexo oposto ao do observador, mas com uma aparência correspondente aos seus traços - europeus ocidentais ou asiáticos orientais.

Em seguida, eles processaram por meio de computador os movimentos faciais correlacionados com dor física ou orgasmo e as combinaram de forma a gerar novas animações, com expressões faciais mais completas indicando essas sensações.

A partir disso, acreditam que chegaram a desenhos computacionais das representações presentes nas mentes dos pesquisados para cada expressão facial.

Eles pediram que um outro conjunto de observadores verificasse se, de fato, os desenhos das representações mentais a que tinham chegado correspondiam às suas ideias de expressões de dor física ou orgasmo, o que foi confirmado.

Eles utilizaram uma técnica chamada aprendizado de máquina, em que um algoritmo se desenvolve de forma relativamente independente a partir de determinadas regras e objetivos definidos pelos criadores para examinar as diferenças dos modelos de expressões faciais em cada cultura.

“Nossa abordagem indica a dinâmica precisa de expressões faciais que levam à percepção de dor e orgasmo em cada observador individual em cada cultura”, afirma o trabalho.

As diferenças entre expressões asiáticas e europeias

Essas análises indicaram que as representações mentais de expressões faciais de dor são similares entre pessoas da Europa ocidental e do oeste asiático. Entre os movimentos comuns estão rebaixar as sobrancelhas, elevar o queixo, franzir o nariz e esticar a boca.

As representações mentais de expressões de orgasmo são, no entanto, diferentes. Para aqueles da Europa ocidental, essa sensação era indicada com movimentos como abrir bem os olhos e abrir a boca verticalmente, por exemplo.

Para aqueles do oeste asiático, a sensação era indicada com sorrisos, entre outros movimentos comuns aos europeus ocidentais, como olhos fechados e sobrancelhas levantadas. As representações obtidas com um observador de cada grupo são indicadas no vídeo abaixo, produzido como parte da pesquisa:

 

O trabalho organizou os movimentos faciais que têm uma correlação maior com cada uma das sensações, para cada cultura. A imagem abaixo indica as expressões faciais para dor (“pain”, em inglês) e orgasmo (“orgasm”) em cada cultura. À esquerda, as expressões para os observadores da Europa ocidental e, à direita, os para os do leste da Ásia.

Quanto mais avermelhada a região do rosto, maior o número de observadores que a correlacionaram com cada uma das sensações.

Foto: Reprodução
Mapa de calor das movimentações faciais para cada grupo
Mapa de calor das movimentações faciais para cada grupo
 

A análise mostrou, portanto, que, em cada cultura, tanto as expressões faciais de dor física e orgasmo quanto a interpretação dessas expressões são distintas. O trabalho avalia, porém, que há similaridades no sentido dos movimentos:

“Enquanto a dor é caracterizada por aqueles que contraem a face para o centro (por exemplo: rebaixar as sobrancelhas, franzir o nariz e elevar o queixo), o orgasmo é representado por movimentos faciais que expandem o rosto para fora (por exemplo: levantar a sobrancelha em ambas as culturas; abrir a boca e levantar a pálpebra para ocidentais)”

Trabalho “Expressões faciais distintas entre culturas representam dor e prazer”, publicado em outubro de 2018

Para os pesquisadores, essas diferentes expressões cumprem papéis de comunicação sobre cada sensação, com o objetivo de influenciar o comportamento de outras pessoas: obter ajuda no caso das expressões de dor, ou indicar a finalização do ato sexual no caso do orgasmo, por exemplo.

A pesquisa destaca que as diferenças entre os ocidentais e asiáticos correspondem a teorias correntes segundo as quais pessoas da Europa ocidental tendem a valorizar estados de “alto estímulo positivo”, como excitação e entusiasmo, frequentemente associados a olhos abertos e movimentos da boca.

Pessoas do leste asiático valorizariam mais estados de “baixo estímulo positivo”, associados a bocas fechadas e sorrisos.

Segundo o trabalho, essa idealização tem influência na vida real: “ideais culturais influenciam os comportamentos de indivíduos em uma cultura -espera-se que ocidentais exibam estados positivos como de alta excitação, enquanto se espera que pessoas do leste asiático indiquem estados positivos como de baixa excitação”.

Representações mentais são mais distintas que a realidade

A pesquisa comparou os resultados com aqueles de trabalhos que se basearam em imagens reais de expressões de orgasmo e dor física, e não nas representações mentais.

A conclusão foi de que, ao contrário do resultado a que haviam chegado, essas pesquisas no mundo real indicavam que as expressões de dor física e orgasmo compartilham muitos traços similares. Isso sugere que as representações mentais para as expressões de cada sensação “são ainda mais distintas do que suas contrapartes no mundo real”.

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