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A prisão e o poder do brasileiro que presidiu a Nissan

Carlos Ghosn é um dos executivos mais famosos da indústria automobilística e símbolo da aliança entre empresas japonesas e a francesa Renault

    A polícia japonesa prendeu na segunda-feira (19) o executivo do setor automobilístico Carlos Ghosn por suspeita de ocultação de receitas e fraudes fiscais. Ele nasceu no Brasil e fez sua carreira trabalhando em empresas francesas e japonesas.

    Ghosn ocupou e ainda ocupa cargos dos mais importantes nas empresas Renault, Nissan e Mitsubishi. Ele é considerado um dos nomes de maior sucesso na indústria automobilística nas últimas décadas.

    Sua prisão foi motivada por suspeitas levantadas por uma investigação feita na Nissan, empresa que presidiu como executivo até 2017. No momento da prisão, ele ainda era presidente do conselho de administração. Ghosn foi removido do cargo na quinta-feira (22).

    Nos últimos anos, Ghosn se envolveu em polêmicas por concentrar muito poder e receber altos salários.

    A acusação contra o executivo acontece num momento em que há uma disputa de poder entre a Renault e a Nissan, as duas principais empresas que formam, junto com a Mitsubishi, um dos maiores conglomerados da indústria automobilística mundial.

    A origem das suspeitas

    Logo após a prisão, a Nissan divulgou uma nota dizendo que uma investigação sobre a conduta de Ghosn vinha sendo feita há alguns meses. A origem teria sido uma denúncia interna. A empresa japonesa diz que vem fornecendo informações à procuradoria do país e que coopera com a apuração.

    A Nissan afirma ter descoberto que o executivo declarava ganhos às autoridades em valores abaixo do real e que “existem diversos outros delitos de conduta”. Entre eles, estaria o fato de Ghosn fazer “uso pessoal de ativos da empresa”.

    Segundo informações do jornal japonês Nikkei divulgadas pelo jornal O Estado de S. Paulo, a suspeita é que Ghosn tenha omitido ganhos de quase US$ 18 milhões, que acabaram usados na compra de imóveis em Beirute e no Rio de Janeiro. O dinheiro teria sido pago por uma empresa da Nissan na Holanda.

    Horas depois da prisão, o presidente-executivo da Nissan, Hiroto Saikawa, deu uma entrevista em que se disse “desapontado”, “frustrado” e “indignado” com as descobertas sobre Ghosn. Ele também anunciou que a empresa pedirá a destituição de Ghosn de todos os cargos que ele ocupa na Nissan e na aliança com as parceiras Renault e Mitsubishi. Saikawa assumiu em 2017 o posto executivo, que, antes, havia sido ocupado por Ghosn durante 16 anos.

    Pela lei japonesa, Ghosn pode ficar preso provisoriamente, ou seja, antes de uma condenação, por até 22 dias. Nas primeiras 48 horas, ele foi interrogado sem direito a um advogado. Até a tarde de quarta-feira (21), não havia uma versão de Ghosn sobre o ocorrido. Caso condenado, ele pode pegar cerca de 10 anos de prisão, além de pagar multa.

    Como funciona a aliança

    A parceria começou no final da década de 1990, quando a Renault comprou parte da endividada Nissan. Atualmente, a base da aliança está na participação cruzada que as empresas têm entre si.

    A Renault é dona de 43% da Nissan, que tem 34% da Mitsubishi. A Nissan ainda tem 15% da Renault.

     

    A parceria vai além da participação trocada, há colaboração no desenvolvimento de tecnologias. Alguns veículos são inteiramente baseados em modelos da parceira.

    Na imprensa internacional, Ghosn é apontado como o responsável pela consolidação da aliança entre as empresas e a transformação do grupo no maior produtor de carros do mundo. Ghosn ocupava os seguintes cargos no momento da prisão:

    • Presidente-executivo e do conselho de administração da Renault
    • Presidente do conselho de administração da Nissan
    • Presidente do conselho de administração da Mitsubishi
    • Presidente-executivo da aliança entre as três montadoras

     

    Execução e conselho

    O que é a diretoria executiva

    É quem efetivamente administra a empresa no dia a dia, toma as decisões e executa o planejamento da companhia. As grandes empresas têm diretorias para cada área, que são subordinadas a um diretor presidente, também chamado de presidente-executivo ou CEO. Regras de governança corporativa desaconselham que o CEO seja também presidente do conselho de administração.

    O que é um conselho de administração

    A função de um conselho de administração não é tomar decisões do dia a dia, mas sim supervisionar as escolhas feitas pelos ocupantes de cargos executivos.

    Os conselheiros são representantes dos sócios e acionistas, e o presidente do conselho também é chamado de chairman. Apesar de estar afastado da rotina, o conselho costuma ser a instância máxima de decisão da empresa. Ele tem o poder de eleger e destituir o presidente.

    A trajetória de Ghosn

    Carlos Ghosn nasceu em Porto Velho, Rondônia, e é filho de pais libaneses. Antes de se mudar para Beirute, aos 6 anos, chegou a morar também no Rio de Janeiro. Foi no Líbano que ele estudou até ir para a França cursar faculdade de engenharia. Ele é formado pela École Polytechnique e pela École de Mines. Ele é cidadão dos três países.

    O jovem engenheiro começou a carreira na francesa Michelin e voltou ao Brasil na década de 1980 para comandar a subsidiária brasileira da empresa. Na década de 1990, ele foi trabalhar na Renault e foi na montadora francesa que ele recebeu a missão que mudaria sua vida profissional.

    Em 1999, pouco depois de a Renault comprar parte da montadora japonesa Nissan, Ghosn foi enviado a Tóquio encarregado de recuperar as finanças da empresa, então com uma dívida de cerca de US$ 20 bilhões. Ele implementou um duro ajuste de custos, demitiu 21 mil pessoas e fechou cinco fábricas.

    Ele conseguiu, em pouco tempo, recuperar e devolver o lucro à empresa. O estilo de administrar deu a ele o apelido de "cortador de gastos". Ele ganhou créditos por salvar a Nissan e se tornou tão popular no Japão que sua vida chegou a ser retratada em um mangá, no qual era chamado pelo apelido em francês "Le cost killer".

    Concentração de poder e ampliação da aliança

    A recuperação da Nissan deu força a Ghosn e em 2001 ele assumiu a presidência-executiva da companhia. A partir daí, começou a acumular cargos e poder. Na montadora japonesa, conciliou a presidência-executiva com a do conselho de administração, cargo que ainda ocupava no momento de sua prisão. Em 2005, ele passou a ser também o presidente da Renault.

    Em 2016, a Nissan se aproveitou de uma crise para adquirir a Mitsubishi. A montadora, também japonesa, vivia um escândalo envolvendo a manipulação de testes de combustíveis. Ghosn também acumulou a presidência do conselho de administração da Mitsubishi.

    Ao fim de 2016, Ghosn acumulava a presidência executiva e do conselho da Nissan e da Renault, além da presidência do conselho da Mitsubishi. Tanto poder, e o salário recebido em tantos cargos, passou a causar desconforto entre sócios da empresa.

    Problemas com governo francês e perda de poder

    O salário de Ghosn foi motivo de polêmica na França recentemente, quando o ainda ministro da Economia Emmanuel Macron começou a criticar o que chamou de ganhos injustificáveis. Ele ameaçou intervir para limitar salários de executivos no país.

    O governo francês é o maior acionista individual da Renault e usou seu poder para tentar reprovar a remuneração de Ghosn. Apesar das críticas de Macron e da ação do governo, o conselho da Renault seguiu aprovando o salário de Ghosn em 2016 e 2017.

    Em 2018, após negociação com os acionistas, incluindo o governo, Ghosn aceitou uma redução de 30% de seu salário. Em troca, o executivo ganhou um mandato de mais quatro anos à frente da Renault, mas também a incumbência de se dedicar mais à aliança com Nissan e Mitsubishi.

    O movimento aconteceu também no Japão. Em 2017, Ghosn deixou a presidência-executiva da Nissan depois de 16 anos para cuidar da solidificação da aliança entre as montadoras.

    Os planos de fusão irreversível

    Segundo o jornal britânico Financial Times, antes de ser preso, Ghosn estava trabalhando justamente na consolidação da aliança. Seu plano era fazer uma fusão formal entre a Renault e a Nissan. O projeto já estava em andamento e poderia ser apresentado nos próximos meses.

    Ghosn queria transformar a parceria, construída há quase 20 anos, irreversível. Segundo o jornal, o plano enfrentava resistências dentro da Nissan. A fusão seria um dos motivos do aumento da tensão com o atual presidente-executivo Hiroto Saikawa, que teria a intenção de interromper o processo.

    Segundo fontes ouvidas pelo Financial Times, a Nissan quer usar o caso Ghosn para ganhar poder dentro da aliança. Na avaliação dos japoneses, a divisão estava desbalanceada a favor dos franceses.

    O que dizem as partes sobre a prisão

    A diretoria da Nissan foi a primeira a repudiar os atos pelos quais Ghosn é suspeito. O presidente-executivo, Hiroto Saikawa, disse que quer o executivo fora dos cargos ligados à Nissan: a presidência do conselho de administração e a presidência da aliança.

    Durante a entrevista coletiva, Saikawa colocou em dúvida o legado de Ghosn à frente da Nissan e creditou a recuperação da empresa no início dos anos 2000 aos funcionários. O novo presidente criticou a maneira como Ghosn concentrou poder ao longo dos anos e disse que ainda estava debatendo se o antecessor era “uma figura carismática ou um tirano”.

    O governo francês, acionista da Renault, também se manifestou. Antes da decisão do conselho, que não exonerou Ghosn, o ministro das Finanças da França, Bruno Le Maire, havia dito que não havia condições para a manutenção do executivo. O presidente francês Emmanuel Macron disse que o Estado será “extremamente vigilante com a estabilidade da aliança e do grupo”.

    No entanto, a reação da Renault foi mais cautelosa. A empresa apontou um presidente interino para substituir o titular preso, mas deixou claro que a solução é temporária. Os executivos da Renault informaram que acompanham a situação com cuidado e manifestaram apoio ao presidente preso. O conselho da empresa pediu ainda à Nissan que forneça todas as informações da investigação contra Ghosn.

    Ghosn recebeu ainda apoio do governo do Líbano. O ministro de negócios exteriores do país disse que pediu ao embaixador em Tóquio para tentar um encontro com o preso e seguir o caso de perto.

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