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O que é ser antirracista? Estes 4 ativistas respondem

No Dia da Consciência Negra, militantes comentam frase de Angela Davis de que não basta não ser racista: é preciso combater a prática

 

Em 2018, a abolição da escravidão no Brasil completou 130 anos. Em 13 de maio de 1888, era assinada a lei imperial 3.353, conhecida como Lei Áurea, que continha dois breves artigos: “1º: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil. 2º Revogam-se as disposições em contrário”. O país era o último do Ocidente a extingui-la. 

De acordo com o censo populacional de 1872, o único registro oficial da população escrava no país, o Brasil possuía, à época, 1.510.806 escravos, o que correspondia a 15% da população. Entre 1500 e 1856, segundo o banco de dados da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, 4,8 milhões de escravos chegaram ao litoral brasileiros trazidos da África.

Mais de um século depois, o alijamento dessa população da condição de cidadãos ainda se reflete nos indicadores socioeconômicos, que revelam uma sociedade profundamente desigual e marcada por privilégios.

Segundo o Atlas da Violência de 2018, 71,5% das pessoas assassinadas no país por ano são pretas ou pardas. Em 2016, o Brasil registrou um número recorde de homicídios: 62.517, de acordo com o mesmo levantamento, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em dez anos, entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios entre a população negra aumentou em 23,1%, ao passo que, entre os não negros, a proporção caiu 6,8%.

Dados da Pnad contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgados em 14 de novembro de 2018, também mostram que, no terceiro trimestre de 2018, dos 12,5 milhões de desempregados no país, 64,2% são pretos e pardos -- esse número era de 59,1% no primeiro trimestre de 2012.

As diferenças também são grandes em relação à renda e aos índices de educação. Segundo o relatório “Desenvolvimento Humano para Além das Médias”, de 2017, a renda domiciliar per capita média da população branca era de R$ 1.097 em 2010, mais que o dobro da população negra: R$ 508,90.

Em relação à escolaridade, 62% da população branca com mais de 18 anos possuía o fundamental completo, contra 47% da população negra. A diferença na expectativa de vida ao nascer entre brancos e negros era de 75,3 anos e 73,2, respectivamente. O relatório foi realizado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), Ipea e Fundação João Pinheiro, ligada ao governo de Minas Gerais. 

“A população negra está praticamente congelada na base da sociedade. De modo geral, ela é ainda o epicentro de todas as violências físicas e simbólicas na sociedade brasileira”, diz o militante do movimento negro e professor da Unesp Juarez Tadeu de Paula Xavier. Em 2015, ele foi alvo de pichações racistas na universidade.

Durante um discurso em Oakland, nos Estados Unidos, em 1979, a ativista negra Angela Davis afirmou: “Numa sociedade racista, não adianta não ser racista, nós devemos ser antirracistas”.

Neste 20 de novembro de 2018, Dia da Consciência Negra, o Nexo ouviu ativistas para saber o que é ser antirracista hoje. A data foi criada em 2003, e foi escolhida por ter sido o dia em que Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares e símbolo da resistência à escravidão, foi morto, em 1695.

‘Para pessoas negras, o corpo é a primeira fronteira’

Juliana Gonçalves

Jornalista, ativista antirracista e uma das organizadoras da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo

Quando a Angela Davis fala em ser antirracista, significa assumir uma prática antirracista. Como é que você se posiciona em relação ao racismo nas situações do seu dia a dia? Falando especificamente para pessoas brancas, como você faz esse exercício? Se você chega a um espaço que só tem pessoas brancas, como você se move com relação a isso? Como isso te toca e te leva a uma ação?

Se você percebe no seu trabalho que não tem pessoas negras, que as pessoas negras que estão lá estão todas em posições subjugadas ou até mesmo recebem um salário menor fazendo a mesma coisa, como é que você se posiciona com relação a isso? Inclusive entre as pessoas brancas em espaços ainda embranquecidos a que os negros ainda nem chegam para ter voz.

Colocar-se ao lado da luta antirracista é entender que isso é uma questão realmente estruturante, principalmente num país de forte passado colonial e recente passado escravocrata, e que isso não é uma questão de segunda ou terceira necessidade. Para pessoas negras, o corpo é a primeira fronteira, e o racismo se coloca como algo imperativo nas nossas vidas, que vai nos influenciar do nascer ao morrer.

Ter aliados brancos, pessoas brancas conscientes disso, de seus privilégios, é essencial, porque, como eu disse, há espaços que são tão embranquecidos e tão segregados que os negros nem chegam para ter voz. Nesse sentido, é importante ter a voz branca tensionando também. Quando a gente fala, a gente está falando com a nossa adversidade. A voz branca tensionando, na educação, na saúde, no trabalho, ajuda a fortalecer a luta antirracista, assim como apoiando as lutas dos movimentos negros, dando voz e abrindo espaço para as pessoas negras, muitas vezes contribuindo financeiramente para a luta antirracista.

Entender que o Brasil é um país extremamente desigual, que a riqueza ainda está nas mãos de um grupo muito pequeno e completamente embranquecido, também é importante para ser antirracista. Ser antirracista é prática diária. Não é só dizer não a esse racismo etéreo, é falar não para o racismo que traz a mortalidade para muitos corpos.

‘Superar desigualdade sem pensar políticas é ilusão’

Juarez Tadeu de Paula Xavier

militante do movimento negro e professor do curso de jornalismo da Universidade Estadual de São Paulo, em Bauru

Eu gosto da formulação que a Angela Davis fez. Não adianta você dizer que não é racista, você tem que ser antirracista. Você tem que ter uma ação propositiva de superação do racismo.

Do ponto de vista macro, em relação a essa questão, o racismo é um crime e, como qualquer outro, tem que ser denunciado e, além de denunciado, tem que ter um acompanhamento de todo o processo legal. Hoje, há um grupo de juristas negros que consideram necessário restringir a possibilidade de abertura de processo entre racismo e injúria racial. São tipificações criminais diferentes e muitas vezes se tem optado pela injúria, em vez de se trabalhar com o racismo, como pensou lá atrás o deputado constituinte Carlos Alberto Caó [autor do projeto que deu origem à lei 7.716/1989, que prevê punição aos crimes de discriminação e preconceito], do PDT do Rio. A ideia era a criminalização desse ato. Não era criar a possibilidade de uma figura jurídica que reduzisse a tipificação do racismo.

Na questão da segregação, é necessário ter uma ação política contra. A luta política de ingresso do negro no mercado de trabalho, na universidade, em áreas sociais onde há uma segregação socioespacial tem que continuar e ter respaldo legal. As cotas, por exemplo, foram consideradas constitucionais pelo Supremo Tribunal Federal na votação de 2012. Manter essa política, insistir e avançar nessa política é fundamental. É uma forma de enfrentamento da questão. Diante do histórico brasileiro, imaginar que é possível superar o poço da desigualdade sem pensar políticas específicas é ilusão.

Do ponto de vista do preconceito, que existe em todas as áreas, no espaço político, no espaço social e no espaço cultural, as linguagens culturais têm um papel político importante nesse enfrentamento. O hip-hop tem feito isso, poetas e escritores negros têm feito isso. Já começa a surgir, como parte das políticas de ações afirmativas, uma intelectualidade negra que faz um enfrentamento.

De modo geral, ser um antirracista implica atuar nessas três frentes: na frente contra o crime de racismo, com as afirmações constitucionais, na frente contra a segregação, avançando nas políticas que implicam a inclusão do negro em todas as áreas sociais, e na frente contra o preconceito, usando todos os recursos à disposição, como, por exemplo, a lei 10.639, que fala da necessidade de incluir a história dos africanos no sistema formal de educação.

E tem uma questão fundamental: compreender que todo esse processo é sustentado por uma desigualdade social abissal, construída historicamente no país, em especial ao longo do processo da abolição.

‘Enfrentar o racismo é abrir mão de privilégios’

Maria José Menezes, a Zezé

Militante do Núcleo de Consciência Negra da USP (Universidade de São Paulo)

[O que é ser antirracista] é uma pergunta complexa. O racismo é um sistema de opressão que permeia as nossas vidas, tanto daqueles que sofrem os seus efeitos como daqueles que se beneficiam dele. Ele é sistêmico.

Algo com tal dimensão significa que todos os aspectos de nossas vidas derivam desse fator. A luta antirracista passa pela desconstrução de mitos como, por exemplo, a democracia racial; lutar por políticas públicas específicas para a comunidade negra: saúde, educação, cultura, emprego e também na dimensão política representativa.

Nosso comportamento nesse contexto de opressão permanente passa por sabermos quem somos, ou seja, nossa ascendência africana, descendentes de povos que contribuíram (e contribuem) para o avanço tecnológico da humanidade e lhes dá um caráter civilizatório. 

Creio que a frase de Angela Davis tem a ver com não se omitir diante das injustiças, pois não basta não cometer o racismo, mas agir para destruir tal sistema.

Espera-se dos brancos empatia com a nossa luta; que compreendam que enfrentar o racismo é abrir mão de privilégios. Parece simples. É simplesmente colocar esta sociedade pelo avesso.

‘Um comportamento pró-ativo e não de mera solidariedade’

Oswaldo Faustino

Ativista do movimento negro, jornalista e escritor

Não ser racista, apenas, ou não se saber racista, não garante que eu me sensibilize frente à dimensão descomunal desse gravíssimo problema que assola a humanidade.

Negros, indígenas, ciganos, palestinos, judeus ou qualquer outro grupo social atingido diariamente por ações de racismo, muitas delas fatais, necessitam de um comportamento pró-ativo e não de mera solidariedade contemplativa, um carinhoso afago na cabeça.

Somos as principais vítimas, sim. Mas esse câncer atinge o corpo social por inteiro. O racista é portador de outros vírus que infectam a sociedade e a levam à destruição. Daí a necessidade de que todos e todas estejamos preparados para agir diretamente no combate a esse mal.

Seja com declarações diretas, campanhas educativas, exigência de cumprimento das leis, manifestações e, se necessário, ações judiciais. O não agir contra é agir a favor.

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