Como SP e RJ mantêm a ‘onda Bolsonaro’ após as eleições

Governadores eleitos, Doria e Witzel seguem estratégia que fez sucesso nas urnas na elaboração das primeiras medidas de gestão

     

    Jair Bolsonaro fez uma campanha que combinou, de um lado, um discurso antipetista e, de outro, um discurso linha dura no combate à corrupção e à violência. A estratégia do capitão reformado, eleito presidente da República, inspirou campanhas de governadores pelo país, que declaravam apoio ao então candidato do PSL apostando na popularidade dele para atrair mais votos.

    Passada a votação de 28 de outubro, políticos eleitos para dois dos principais estados deram continuidade à estratégia de copiar práticas de Bolsonaro, as transferindo também às primeiras ações para organizar suas futuras gestões.

    São eles João Doria (PSDB), em São Paulo, e Wilson Witzel (PSC), no Rio, eleitos que exploraram de forma bastante clara o apoio a Bolsonaro — mesmo quando esse apoio não era recíproco. Tanto no Rio como em São Paulo, o PSL de Bolsonaro se manteve neutro nas disputas de segundo turno.

    As ideias de Bolsonaro

    Foco na segurança pública

    Bolsonaro anunciou o juiz federal Sergio Moro, responsável por julgar as ações da Operação Lava Jato em Curitiba, para a futura pasta da Justiça e Segurança Pública. Além de rigor no combate ao crime organizado, o presidente eleito pretende tornar mais rígidas as penas para crimes violentos e facilitar o acesso da população a armas de fogo.

    Militares na equipe

    Bolsonaro explorou na campanha sua relação com as Forças Armadas, apostando no prestígio que a instituição tem perante parte do eleitorado. Além da escolha do general da reserva Hamilton Mourão como vice, o capitão reformado sinalizou que teria militares em seu governo se eleito. Na história recente, militares têm tido destaque na política em razão da participação frequente do Exército em ações de segurança pública e mesmo em postos do governo Michel Temer. Até o momento, três dos oito ministros anunciados são militares.

    Redução da máquina

    A redução da máquina administrativa também foi tema presente na campanha e continua em evidência nesta etapa inicial. O destaque nesse campo é a redução dos atuais 29 ministérios para algo em torno de 18 pastas. O número final ainda está indefinido. Em paralelo, a futura equipe de governo promete cortar cargos, diminuir estatais e privatizar o que for possível.

    O que há de Bolsonaro em São Paulo

    Mesmo após as eleições, Doria continua usando em suas redes sociais o “Bolsodoria”, expressão criada na campanha para pregar o voto casado no capitão reformado e nele – parceria feita a despeito da orientação do PSDB, que optou pela neutralidade no segundo turno.

    Na eleição de 2016, em que foi eleito prefeito de São Paulo, Doria se notabilizou pelo discurso antipetista e antipolítica, prometendo levar a eficiência da gestão privada para o meio público. Em 2018, o tucano reforçou os ataques ao PT, mas a pauta da segurança pública se sobrepôs à figura do gestor.

    “Não façam enfrentamento com a Polícia Militar nem a Civil. Porque, a partir de 1º de janeiro, ou se rendem ou vão para o chão. (...) Se fizer o enfrentamento com a polícia e atirar, a polícia atira. E atira para matar”

    João Doria

    governador eleito de São Paulo, em ato de campanha em 2 de outubro de 2018

    O vínculo com a imagem do presidente eleito também faz parte de uma tentativa de Doria de aproximar o PSDB das pautas que se mostraram sensíveis ao eleitorado paulista na eleição 2018, como a segurança pública e um discurso liberal na economia. Entre aliados próximos, há quem veja nesses atos uma estratégia para Doria se consolidar como candidato à Presidência em 2022.

    As semelhanças

    Segurança e militares

    Como parte da iniciativa de enfatizar o combate à violência, Doria anunciou como futuro secretário de Segurança Pública o general da reserva João Camilo Pires de Campos. Ele será o primeiro quadro do Exército na função desde 1979, quando o país ainda estava sob a ditadura militar. Na campanha, Doria havia dito que um policial chefiaria a secretaria. No dia do anúncio, disse que sua ideia a respeito “evoluiu”.

    “Nós melhoramos, evoluímos nossa ideia e melhoramos ao ter um general à frente da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo”

    João Doria

    governador eleito de São Paulo, ao anunciar general João Campos, em 13 de novembro de 2018

    Gestão enxuta

    Com o objetivo de cortar gastos, Doria tem em seus planos reduzir o número de secretarias, atualmente em 25, extinguir estatais e promover concessão de serviços públicos. A redução será feita por meio da fusão de pastas, mas ainda não há definições a respeito.

    O que há de Bolsonaro no Rio

    Witzel vai assumir seu primeiro mandato eletivo. O ex-juiz, que surpreendeu ao chegar ao segundo turno em primeiro colocado, ainda na campanha demonstrou ter afinidades diversas com as ideias de Bolsonaro.

    O contexto local foi determinante para o sucesso de uma figura desconhecida do meio político e com discurso linha dura. O Rio passa por graves problemas fiscais, crise na segurança pública e é o estado onde foram revelados alguns dos principais escândalos de corrupção na administração pública – caso da Lava Jato, que prendeu nomes importantes do MDB local, entre eles o ex-governador Sérgio Cabral.

    As semelhanças

    Segurança e equipe

    O combate à violência está entre as prioridades da futura gestão e para isso Witzel defende ação de enfrentamento contra criminosos, apostando até mesmo na atuação de atiradores de elite. Na área administrativa, o governador eleito disse que vai extinguir a secretaria de Segurança, mas dará status de secretaria às Polícias Civil e Militar. Entre os secretários já anunciados, há um delegado e dois coronéis da Polícia Militar. Para a secretaria da Governança (antiga Casa Civil), Witzel anunciou o capitão de corveta e fuzileiro naval da reserva José Luiz Cardoso Zamith, também escolhido para coordenar a equipe de transição.

    “O correto é matar o bandido que está de fuzil. A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e... fogo! Para não ter erro”

    Wilson Witzel

    governador eleito do Rio, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 1º de novembro de 2018

    Corrupção

    Segundo o governador eleito, a nova gestão terá um “disque-corrupção” e um programa para testar a integridade do servidor público, que vigiará o patrimônio dos funcionários.

     

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