Ir direto ao conteúdo

A carta em que Albert Einstein critica a ‘infantilidade’ da religião

Mensagem foi escrita em resposta ao filósofo alemão Eric Gutkind. Documento vai a leilão em dezembro de 2018

 

“A palavra Deus para mim é nada mais que a expressão e produto da fraqueza humana, e a Bíblia é uma coleção de honoráveis, mas ainda assim puramente primitivas, lendas, que, no entanto, são bastante infantis”, escreveu o físico Albert Einstein em 1954.

A opinião direta e sincera, com potencial de ofender muitas sensibilidades religiosas, está registrada em uma carta escrita por Einstein ao filósofo alemão Eric Gutkind, autor de “Choose Life: The Biblical Call to Revolt” (Escolha a vida: o chamado bíblico à revolta, em tradução livre).

O cientista resolveu enviar a mensagem depois de ler o livro de Gutkind por sugestão do matemático holandês (e amigo de ambos) L.E.J. Brouwer. Não fosse a dica, Einstein explica, ele não teria avançado no livro, pois “é escrito em linguagem inacessível para mim”. Para o físico, o tom religioso da obra era inaceitável. “Para mim a religião judaica, como todas as outras religiões, é uma encarnação das superstições mais infantis.”

“Quando Einstein falava de Deus, ele meramente queria dizer que o Universo estava sob a influência de leis absolutas, gerais e permanentes”

Hans C. Ohanian

Físico e autor de "Os erros de Einstein"

No mais, Einstein é gentil e amistoso com o autor, saltando da divergência à cortesia com uma civilidade que pareceria extraterrestre para muitos usuários de redes sociais. “Agora que eu expressei de modo bastante aberto nossas diferenças em convicções intelectuais, ainda é claro para mim que estamos bastante próximos um do outro em coisas essenciais, por exemplo, na nossa valorização do comportamento humano”.

A carta será leiloada pela casa nova-iorquina Christie’s, que espera conseguir entre US$ 1 milhão e US$ 1,5 milhão na venda. O leilão foi marcado para 4 de dezembro de 2018.

Einstein e o divino

O Deus a que Einstein se refere na carta é o Deus com “imagem e semelhança” humana que faz parte da crença judaica e cristã. É o Deus que se faz presente e censura ou aprova comportamentos humanos.

Em inúmeras ocasiões, entretanto, o cientista se referiu a Deus no sentido de uma metáfora do Universo. Escrevendo sobre mecânica quântica, em 1926, o físico reconheceu que a (então nova) teoria do mundo subatômico oferecia muito, “mas nem de longe nos aproxima dos segredos do Antigo Um”.

 

“O que eu quero saber é como Deus criou este mundo. Não estou interessado neste ou naquele fenômeno, no espectro deste ou daquele elemento. Quero saber seus pensamentos. O resto são detalhes”, afirmou Einstein em outra ocasião.

“Quando Einstein falava de Deus, ele meramente queria dizer que o Universo estava sob a influência de leis absolutas, gerais e permanentes”, escreveu o físico Hans C. Ohanian, autor de “Os erros de Einstein”.

O cientista era admirador do pensamento do filósofo holandês Baruch Espinosa, muitas vezes citado em suas declarações (inclusive na carta mencionada acima). “Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na harmonia regrada do mundo, não em um Deus que se preocupa com o destino e os atos da humanidade”, ele teria dito a um rabino uma vez.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: