Quem é o economista indicado para presidir o Banco Central

Escolhido pela equipe do presidente eleito Jair Bolsonaro, Roberto Campos Neto é neto de um dos expoentes do pensamento liberal no Brasil

     

    Jair Bolsonaro definiu mais um nome da futura equipe econômica. O economista Roberto Campos Neto aceitou o convite para ser presidente do Banco Central a partir de 2019, conforme anúncio feito na quinta-feira (15) por Paulo Guedes, futuro ministro da Economia.

    Campos Neto vai deixar a diretoria do Santander, banco em que atua desde 2000. Diferentemente de outros cargos do alto escalão, como ministérios, o indicado para a presidência do Banco Central precisa ser aprovado pelo Senado.

    Em 2010, quando Dilma Rousseff foi eleita, os senadores aprovaram a indicação do economista Alexandre Tombini no mês de dezembro daquele ano. Ele ficou na função até maio de 2016, quando Dilma sofreu impeachment.

    Tombini foi substituído por Ilan Goldfajn, que foi sondado pela equipe de Bolsonaro para seguir na presidência do Banco Central. Ele recusou por motivos familiares. Além de Campos Neto, os outros nomes já conhecidos da equipe econômica do governo Bolsonaro são:

    • Paulo Guedes, futuro ministro da Economia
    • Joaquim Levy, ex-ministro da Fazenda do governo Dilma, futuro presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)
    • Mansueto de Almeida, atual secretário do Tesouro, que continuará no cargo

    Aos 49 anos, Campos Neto assumirá área importante da política econômica. O Banco Central tem como principais atribuições ser responsável pela política monetária para controle da inflação e pela estabilidade do sistema financeiro. Cabe ao órgão, por exemplo, definir qual é a taxa de juros básica da economia, a Selic – atualmente em 6,5%. Essa taxa é estipulada pelo Copom (o Comitê de Política Monetária do Banco Central) a cada 45 dias. O banco atua assim para regular o nível de atividade da economia de forma a permitir a estabilidade de preços.

    O Banco Central é vinculado à Fazenda, que na gestão Bolsonaro passará a ser o Ministério da Economia, que deve incorporar também atribuições de outras pastas, como a do Planejamento. A despeito de ser um cargo de livre indicação do presidente da República, a presidência do Banco Central é considerada um posto técnico, historicamente ocupado por economistas ou quadros vindos do mercado financeiro. O atual presidente, Ilan Goldfajn, por exemplo, era economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco antes de assumir a função.

    Presidentes do Banco Central pós-Plano Real

    • Pedro Malan (1993-1994), foi diretor executivo do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento; depois tornou-se ministro da Fazenda de Fernando Henrique
    • Pérsio Arida (1995), atuou no setor financeiro e no Unibanco
    • Gustavo Loyola (1995-1997), integrou a direção da Planibanc Corretora de Valores e do do Banco de Investimento Planibanc
    • Gustavo Franco (1997-1999), era como professor e consultor, depois ocupou cargos na direção do Banco Central e no Ministério da Fazenda, atualmente é sócio fundador da Rio Bravo Investimentos
    • Armínio Fraga (1999-2003), era professor e atuou no mercado financeiro e em bancos de investimentos; ao deixar a presidência, fundou a Gávea Investimentos
    • Henrique Meirelles (2003-2010), trabalhava no BankBoston; depois da presidência voltou a atuar no setor privado e entre 2016 e 2018 foi ministro da Fazenda de Michel Temer
    • Alexandre Tombini (2011-2016), servidor concursado do Banco Central desde 1998

    Outro liberal na equipe

    Roberto de Oliveira Campos Neto é economista por formação, com especialização em finanças pela Universidade da Califórnia em Los Angeles. Antes do Santander, trabalhou para o Banco Bozano Simonsen, na década de 1990. O economista teve uma breve passagem pela gestora Claritas, entre 2005 e 2006, ano em que retornou ao Santander. A presidência do Banco Central, portanto, será sua primeira experiência no setor público.

    Campos Neto ainda não se manifestou publicamente sobre a indicação nem sobre eventuais mudanças na direção do Banco Central. Ao lado de Guedes e Levy, Campos Neto é mais um nome escolhido por Bolsonaro identificado com o pensamento econômico liberal, que, entre outros pontos, defende um Estado menor e ênfase no investimento privado como indutor da economia.

    A proximidade com essa escola vem de família. Ele é neto do também economista e diplomata Roberto Campos (1917-2001), considerado um dos nomes mais representativos do liberalismo no Brasil.

    Campos foi ministro do Planejamento no governo do general Castelo Branco (1964-1967), o primeiro da ditadura militar. Já ali defendia princípios liberais, viés que ganhou ainda mais força em suas manifestações quando se tornou senador, na década de 1980.

    Para Campos, era preciso rever a participação do Estado na economia, privatizar mais e adotar o câmbio livre. Entre os políticos de esquerda, de quem recebeu o jocoso apelido “Bobby Fields”, tradução literal de seu nome para o inglês, era classificado como um “entreguista”.

    Pela frente, controle da inflação e autonomia do BC

    Campos Neto terá entre suas principais atribuições manter o controle da inflação, que ficou em 0,58% em outubro deste ano, 2018, e que está em 4,53% no acumulado em 12 meses, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

    A inflação vem se mantendo dentro dos limites das metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional. O objetivo para 2018 é de 4,5% de inflação, com variação de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Junto com o câmbio flutuante e as metas fiscais, as metas de inflação fazem parte do tripé macroeconômico estabelecido em 1999, ainda no governo de FHC.

    Além disso, Paulo Guedes espera que o futuro presidente do Banco Central comande um órgão mais autônomo, alteração que ele pretende aprovar no Congresso ainda em 2018. Atualmente a autonomia do Banco Central não é prevista e definida em lei.

    O atual presidente defende a formalização, numa proposta que já tramita na Câmara. Em comunicado divulgado na quinta-feira (15), sobre a indicação de Campos Neto, Goldfajn afirmou que, enquanto estiver no cargo, continuará trabalhando pela aprovação do projeto.

    “A eventual aprovação da lei, com mandatos fixos e intercalados dos membros da sua diretoria (Presidente e Diretores), permitirá um futuro onde as transições do BC e do governo ocorram em momentos distintos, com conhecidos benefícios para a economia”

    Ilan Goldfajn

    presidente do Banco Central, em comunicado divulgado em 15 de novembro de 2018

    Ideia semelhante também era defendida pelo ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, que presidiu o Banco Central nos dois mandatos do governo Lula (2003-2010).

    Para Goldfajn, a lei representa um aceno importante à estabilidade econômica, a exemplo do que já existe em outros países. Mas enfrenta resistência de parte da oposição, que quer mais tempo para debater a ideia. O projeto em tramitação prevê, entre outros pontos, mandatos de quatro anos para o presidente e diretores do Banco Central descasados do mandato do presidente da República.

     

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