Qual a briga recente entre EUA e Opep pelo preço do petróleo

Cotação internacional do barril vem em tendência de alta desde 2016. Principais atores globais divergem sobre o que fazer

O presidente dos Estados Unidos Donald Trump vem desafiando a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), ao longo de 2018, a abaixar o preço internacional do barril de petróleo. O grupo vem resistindo à ideia, tendo em vista os próprios interesses no mercado global. A disputa entre EUA e Opep não é inédita. Neste momento, contudo, ganha novos contornos, diante do contexto político global.

A Opep foi criada em 1960 numa união entre grandes produtores e exportadores de petróleo. A organização tem, portanto, o poder de influir diretamente nas cotações internacionais. Atualmente possui 15 membros:

  • Arábia Saudita (fundador), Irã (fundador), Iraque (fundador), Kuwait (fundador), Venezuela (fundador), Argélia, Angola, Emirados Árabes, Equador, Gabão, Guiné Equatorial, Líbia, Nigéria, Qatar e República do Congo

O que a Opep quer e está fazendo

Em 2016, a Opep e a Rússia, país que é grande produtor e não faz parte do grupo, concordaram em diminuir a oferta de petróleo no mercado internacional. A intenção era aumentar o preço, considerado baixo pelos dois, seguindo a lógica da oferta e da procura. Naquele ano, o barril chegou a custar menos de US$ 30.

US$ 29,84

era o preço do barril de petróleo em 15 de janeiro de 2016

US$ 86,29

era o preço do barril do petróleo em 03 de outubro de 2018, nível recorde em quatro anos

Em maio de 2018, Trump anunciou a volta de sanções econômicas contra o Irã, alegando ter provas de que o governo iraniano estava violando o acordo nuclear de 2015. A agência internacional de energia atômica, que fez inspeções periódicas no Irã, e os demais países integrantes do acordo negaram qualquer indício de violação.

As sanções voltaram a impor barreiras para as exportações do petróleo do Irã, um dos maiores produtores do mundo. Além disso, a instabilidade política e econômica na Venezuela, outro grande produtor, tem dificultado o setor petrolífero do país sul-americano.

Diante desse cenário, os países da Opep que não enfrentam sanções decidiram em junho de 2018 aumentar a produção. A ideia era compensar os entraves no Irã e na Venezuela.

Até o momento, porém, esse aumento de oferta pela Opep não foi suficiente para estabilizar os preços. A tendência do valor do barril em 2018 segue de alta.

Na segunda-feira (12), o governo da Arábia Saudita afirmou que prevê a necessidade de dar uma guinada: planeja reduzir a oferta de petróleo em 2019. Maior exportador de petróleo do mundo e mais influente membro da Opep, o país se baseia em um novo relatório do grupo, que mais uma vez revisou para baixo a expectativa de demanda mundial por petróleo em 2019.

“O consenso é que precisamos fazer o que for necessário para equilibrar o mercado. Se isso significar reduzir a oferta em 1 milhão [de barris por dia], é o que nós vamos fazer”

Khalid al-Falih

ministro saudita de Energia, na segunda (12)

A lógica é que será necessário menos petróleo circulando, para que a baixa demanda prevista não faça os preços despencarem. A Opep deseja manter a cotação num patamar próximo ao atual, por volta de US$ 70.

A próxima reunião de cúpula da Opep, em que se votam decisões sobre diminuir ou aumentar a oferta de petróleo, está programada para 6 de dezembro.

O que os EUA querem e o que estão fazendo

A decisão que a Opep tomou em junho, de aumentar a produção para suprir o Irã e a Venezuela, agradou os EUA. Mas os americanos queriam um aumento maior, para conter mais a cotação. Os Estados Unidos desejam um preço mais baixo do que o atual.

Agora, se a Opep confirmar a redução da produção para 2019, será uma decisão contrária ao interesse do governo americano.

“Espero que a Arábia Saudita e a Opep não diminuam a produção de petróleo”

Donald Trump

presidente dos Estados Unidos, na segunda (12)

Nos bastidores, o governo americano tenta convencer a aliada Arábia Saudita a aumentar a produção de petróleo (abaixando o preço). Seria uma forma de os sauditas ganharem espaço com a fragilidade da economia iraniana. A Arábia Saudita e o Irã são grandes rivais que competem pela hegemonia na região. A essas negociações se somam declarações públicas do presidente, com a intenção de pressionar politicamente a Opep.

No contexto interno, ao contestar a política da Opep, Trump tem interesses econômicos e interesses políticos. Os EUA são grandes produtores, mas também grandes consumidores de petróleo. Quando o preço internacional sobe, também sobe o preço dos combustíveis nos EUA.

Esse fator doméstico ganhou ainda mais relevância pelo fato de o petróleo ter atingido um pico de preço em outubro, semanas antes das eleições legislativas nos EUA, campanha na qual Trump se envolveu diretamente. Abaixar preços de combustíveis agrada os consumidores e eleitores americanos. Trump também almeja um preço internacional que seja favorável ao crescimento da indústria americana.

Além disso, em setembro, Trump disse no Twitter que os países do Oriente Médio contrariam os EUA e insistem em preços altos, apesar da “proteção” militar dada pelos americanos na região. “Eles não estariam seguros por muito tempo sem nós”, afirmou Trump. Não foi a primeira vez que ele deu uma declaração nesse sentido.

Falas desse tipo reforçam a imagem nacionalista de Trump, com a qual ele se elegeu e na qual se baseia para governar: a de um líder forte que coloca os interesses americanos em primeiro lugar e destaca o poderio dos EUA, confrontando outros países.

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