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Como a letra I vem sendo incorporada à sigla LGBT

Aliança Nacional LGBT se tornou LGBTI+, assim como o nome das paradas de São Paulo e do Rio. Programas de governo de cinco candidatos à presidência também adotaram o termo

 

O termo “intersexual” é empregado para se referir a pessoas com características sexuais ou reprodutivas que não se encaixam na ideia típica de masculino ou feminino, geralmente por causas genéticas.

Por exemplo: pessoas que nascem com o sistema reprodutor masculino, mas cujo corpo tem aparência feminina, com traços como seios, pêlos menos pronunciados, e sexo ambíguo ou em formato de vagina.

Grande parte da comunidade médica classifica essas variações como “desvios de desenvolvimento sexual”, e promove operações em bebês, assim como tratamentos hormonais por longos períodos. O intuito é fazer com que os corpos assumam formatos mais similares àquilo que é tido como tipicamente feminino ou masculino.

Esses procedimentos podem trazer sequelas, como incontinência urinária, perda de sensibilidade sexual, dor crônica e sofrimento mental e são criticados por entidades como ONU e Organização Mundial de Saúde. Apesar disso, no Brasil o Conselho Federal de Medicina determina que médicos decidam e definam o gênero dos bebês intersexuais.

Assim como ONU e OMS, muitos militantes que apresentam variações intersexuais combatem a imposição de cirurgias cosméticas e tratamento hormonal a crianças de colo, e defendem que médicos aguardem até que elas sejam capazes de decidir por si mesmas se desejam ou não alterar seus corpos para sempre.

Outra reivindicação é que suas pautas sejam abraçadas pelo movimento LGBT, e que a intersexualidade seja representada na sigla, que fica LGBTI.

O ano de 2018 tem sido marcado pelo avanço da incorporação da letra I à sigla LGBT no Brasil.

  • Neste ano, a Parada de São Paulo, a maior do país, utilizou, pela primeira vez em suas 22 edições, a terminologia LGBTI+, incluindo também intersexuais e outras identidades além de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais
  • A Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro passou a se chamar LGBTI
  • Cinco dos 13 candidatos à Presidência adotaram LGBTI ou LGBTI+ em seus programas de governo, entregues ao Tribunal Superior Eleitoral, incluindo tanto partidos do campo da esquerda quanto da direita. As candidaturas foram de Fernando Haddad (PT), Marina Silva (Rede), Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL)
  • A Aliança Nacional LGBT, uma importante referência para o movimento, passou a se chamar LGBTI+

Ao Nexo, a terapeuta ocupacional, ativista intersex e coordenadora da área de intersexuais da Aliança Nacional LGBTI+ Dionne Freitas avalia que a intersexualidade tem obtido mais visibilidade como parte de uma resposta ao “avanço do conservadorismo no mundo todo”.

Ela avalia que, como forma de se contrapor aos direitos e visibilidade garantidos por homossexuais e transexuais na última década, muitos militantes e políticos do campo conservador defendem a ideia de que a humanidade se divide, biologicamente, apenas em macho e fêmea.

E que cada um desses deve ter, por imposição da natureza, desejo sexual apenas por indivíduos do sexo oposto.

“É uma estratégia de apagar toda a história da intersexualidade na humanidade. A transexualidade e a intersexualidade sempre se confundiram em identidades como a hermafrodita, na Grécia Antiga, as muxe no México, os dois espíritos [entre indígenas] nos Estados Unidos, as hijras na Índia. Como resposta, a militância intersexo afirma que nossas entidades biológicas existem, a intersexualidade é um aspecto biológico que faz parte da sociedade humana”

Dione Freitas

Coordenadora da área de intersexuais da Aliança Nacional LGBTI+, em entrevista ao Nexo

Freitas afirma que a intersexualidade foi incluída na sigla da Aliança Nacional após o diretor presidente da entidade, Toni Reis, participar de um congresso internacional em que um homem transexual intersexo contou a história de como foi operado quando bebê, passou por terapia hormonal e foi criado como menina, apesar de se identificar com o gênero masculino.

“Toda essa história impactou muito ele, que entendeu que existem muitos intersexuais no país, decidiu procurar ativistas e me encontrou”, afirma.

Um passo formal importante para que o termo garanta mais espaço no vocabulário do movimento LGBT brasileiro é a inclusão da intersexualidade na sigla por decisão da Conferência Nacional LGBT. A próxima reunião está marcada para novembro de 2019.

Caso a alteração seja acordada, será um novo marco em um processo histórico de reconhecimento de grupos como parte do movimento LGBT, que inicialmente se referia a si mesmo apenas como movimento homossexual, mesmo com a aproximação de lésbicas e travestis. Veja abaixo um breve histórico.

Lésbicas

A letra L é incluída à sigla geral do movimento em 1993, quando militantes votaram para que o Sétimo Encontro Brasileiro de Homossexuais passasse a se chamar Encontro Brasileiro de Homossexuais e Lésbicas

Travestis

A letra T é incluída em 1995, quando gays e lésbicas convidam formalmente travestis para seu encontro nacional e se funda a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis

Bissexuais

Em 2005, o 12º Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Transgêneros aprovou o uso de GLBT, incluindo, oficialmente, a letra B como representação de bissexuais

Travestis + transexuais

Em 2008, a Conferência Nacional GLBT decide que T identifica, simultaneamente, travestis e transexuais homens e mulheres, mas não a palavra transgênero, que é um termo guarda-chuvas para qualquer identidade que represente a adoção de um gênero diferente àquele atribuído ao nascer

Lésbicas à frente

Também em 2008, a Conferência Nacional GLBT decide, após um polêmico debate, posicionar a letra L à frente do G. O movimento passa a ser LGBT, com o intuito de dar maior visibilidade às lésbicas

A partir da publicação deste texto, o Nexo passa a adotar a sigla LGBTI no lugar de LGBT. A reportagem conversou ainda com o militante intersexual Amiel Vieira a respeito da popularização pela qual o termo LGBTI, e também o conceito de intersexualidade, vêm passando.

Ele cursa doutorado em bioética, ética aplicada e saúde coletiva na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em que se dedica à questão da intersexualidade e da identidade de gênero.

O que intersexuais têm em comum e de diferente em relação a lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais?

Amiel Vieira Nós podemos ser também trans, bis, lésbicas, ou gays. Estamos nessa sopa de letrinhas, mas somos diferentes por nossa condição biológica - na verdade, são pelo menos 40 condições biológicas [com causas genéticas que levam à intersexualidade].

A princípio, intersexualidade é uma condição biológica, não uma questão identitária, mas poderia ser. Algumas pessoas defendem que existe uma identidade, que não são nem mulher, nem homem, mas sim pessoas intersexo.

Mas no geral, quando falamos que uma pessoa assume a intersexualidade, dizemos que ela reconhece essa condição biológica, sua própria história, mas não uma identidade. A sopa de letrinhas contém orientações sexuais e identidade de gênero, e agora também ganha essa condição biológica.

O que tem levado a essa assimilação pelo movimento?

Amiel Vieira O trabalho de ativismo que temos feito desde 2015 nas redes sociais tem mostrado nossa potência. Esse é um espaço primordial para nossa atuação. Estamos criando a Abrai [Associação Brasileira de Pessoas Intersexo], que foi fundada em setembro de 2018, mas que ainda está caminhando para o reconhecimento jurídico, que deve acontecer até o começo de 2019.

O que significa, na prática, ter o I ao lado de LGBT?

Amiel Vieira É um reconhecimento da necessidade de ter a pauta I ao lado das outras da “sopa de letrinhas”. O reconhecimento e o apoio são, para nós, muito importantes. Estar associado a LGBT é muito mais potente do que fazer o trabalho sozinho.

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