Quem é e o que pensa o futuro ministro das Relações Exteriores

Em artigos ao longo da carreira, Araújo criticou o ‘marxismo globalista’ e defendeu Deus, Trump e o nacionalismo

     

    O presidente eleito Jair Bolsonaro anunciou na tarde de quarta-feira (14) o nome do diplomata Ernesto Henrique Fraga Araújo para chefiar o Ministério das Relações Exteriores do Brasil a partir de 1º de janeiro de 2019.

     

    O novo chanceler – cuja atribuição é cuidar das relações do Estado brasileiro com as demais nações do mundo – considera que o “globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural”. “É um sistema anti-humano e anticristão.”  Araújo também diz que é preciso “ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista”, que, segundo ele, é de esquerda.

    O diplomata tem 28 anos de carreira no serviço público. Ele chefia há dois anos o Departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos do Ministério das Relações Exteriores. Também exerceu funções diplomáticas em representações brasileiras em Bruxelas, Berlim e Ottawa, além de ter atuado, em Brasília, nas áreas de integração regional, assuntos financeiros e negociações comerciais. Araújo nunca chefiou uma embaixada.

    Os alinhamentos do chanceler

    Araújo está alinhado com setores que defendem a prevalência da soberania de cada país acima de qualquer ideia de “governança global”. A expressão “governança global” se refere à ideia de que existem leis internacionais que estabelecem parâmetros gerais a serem seguidos pelos países, e que existem organizações internacionais com poderes para promover essa “governança global”.

    “Alguém decidiu definir a presença do Brasil no mundo por sua adesão aos ‘regimes internacionais’, por sua obediência à ‘ordem global baseada em regras’”, escreveu Araújo em seu blog. “A esquerda globalista quer um bando de nações apáticas e domesticadas, e dentro de cada nação um bando de gente repetindo mecanicamente o jargão dos direitos e da justiça.”

    Novo chanceler ecoa choque entre nacionalismo e globalismo que divide a sociedade americana e a União Europeia

    Para ele, por exemplo, “as Nações Unidas são nações unidas exatamente para melhor defender a unicidade e personalidade de cada uma [das nações], e não para que elas se diluam em uma pasta global sem forma”. Essas ideias estão expressas nos “Cadernos de Política Exterior”, publicados no segundo semestre de 2017 pela Funag (Fundação Alexandre de Gusmão), responsável pela formação dos diplomatas de carreira no Itamaraty.

    Esse choque de visões entre nacionalistas e globalistas é visível hoje, por exemplo, na União Europeia, onde países atualmente governados pela direita, como o Reino Unido, ou extrema direita, como a Itália, a Polônia e a Hungria, atacam o projeto de integração que guia a política europeia desde o pós-guerra (1945). Para esses líderes, o projeto de União Europeia anula de maneira perniciosa a identidade nacional dos membros do bloco.

    O mesmo ocorre hoje nos EUA, onde o presidente Donald Trump – eleito em 2016 com base num programa nacionalista e antiglobalista – retirou o país de tratados internacionais nas áreas de comércio e de meio ambiente. Trump é uma das inspirações declaradas tanto de Bolsonaro como de Araújo.

    Na visão de Araújo, o nacionalismo é importante, pois “os valores só existem dentro de uma nação, dentro de uma cultura, enraizados em uma nação, e não em uma espécie de éter multilateral abstrato.”

    Blogueiro e cabo eleitoral

    Grande parte dos pronunciamentos de Araújo está reunida num blog pessoal lançado por ele no dia 1º de outubro de 2017. Nesse blog, chamado Metapolítica 17, Araújo fez campanha política por Bolsonaro, disse que o PT é um “partido terrorista” que pretende instaurar um “regime do terror” e que o candidato petista à Presidência em 2018, Fernando Haddad, pretendia erguer no Brasil um “regime, um império do crime”, caso fosse eleito.

    O novo chanceler também disse no passado que “um novo eixo socialista latino-americano, sob os auspícios da China maoísta [...] dominará o mundo.” A China é, desde 2009, o principal parceiro comercial do Brasil.

    O embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang, foi um dos primeiros a se encontrar com Bolsonaro após a vitória nas urnas. O futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, também esteve no encontro. Jinzhang posou para foto, mas não deu declarações.

    Política externa e ideologia

     

    Dois dias depois de eleito, em 30 de outubro, Bolsonaro anunciou que promoveria uma política externa “sem conotação ideológica”. A nomeação de Araújo, que se engajou pessoalmente na campanha eleitoral de Bolsonaro, que criticou a China, o marxismo e o maoísmo, ocorreu 15 dias depois.

    Esse discurso da política externa livre de “preferências ideológicas” não é novo. O atual governo recorreu ao mesmo mote. Quando o tucano José Serra assumiu a chancelaria, nomeado pelo presidente Michel Temer, em maio de 2016, anunciou o seguinte: “a diplomacia voltará a refletir de modo transparente e intransigente os legítimos valores da sociedade brasileira e os interesses de sua economia, a serviço do Brasil como um todo e não mais das conveniências e preferências ideológicas de um partido político e de seus aliados no exterior”.

    A referência era aos governos petistas, que segundo os adversários tomavam decisões ideológicas nas relações com países como a Venezuela, alinhados à esquerda. “Serra deu batalha ideológica do início ao fim de seu discurso [de posse no Ministério]”, disse ao Nexo à época o professor de Relações Internacionais da FGV, Matias Spektor. O então ministro “falou que pretende se aproximar da Argentina, justamente porque hoje esse país é governado pela direita”.

    O mesmo discurso, da política externa “sem ideologia”, foi repetido pelo atual ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes.

    Atritos internacionais

    Desde que foi eleito, Bolsonaro já prometeu fechar a embaixada da Palestina em Brasília e mudar a embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém. O anúncio levou o governo do Egito a suspender uma reunião que teria com empresários e com o atual chanceler brasileiro. Depois, o presidente eleito disse que a questão da embaixada em Israel não estava totalmente fechada.

    No mesmo dia em que anunciou o nome de Araújo para o Itamaraty, Bolsonaro enfrentou uma crise com Cuba. O país caribenho anunciou o fim da parceria com o programa Mais Médicos em razão das posições do presidente eleito. “Além de explorar seus cidadãos ao não pagar integralmente os salários dos profissionais, a ditadura cubana demonstra grande irresponsabilidade ao desconsiderar os impactos negativos na vida e na saúde dos brasileiros e na integridade dos cubanos”, disse o presidente eleito no Twitter.

    ‘Prevalência dos radicais’

    “A nomeação de Araújo mostra que o grupo a favor de uma mudança mais radical da política externa ganhou a briga interna”, disse ao Nexo Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais na FGV. Perguntado sobre possíveis impactos negativos dos comentários feitos no passado por Araújo sobre a China, Stuenkel disse: “Qualquer tentativa do chanceler de criticar a China ou de se afastar politicamente de Pequim encontrará forte resistência entre a equipe econômica, que buscará manter uma postura pragmática para não pôr em perigo os importantes benefícios da relação”.

    ‘Quebra de hierarquia’

    “O novo chanceler deverá enfrentar resistências no Itamaraty, que é uma instituição que valoriza a hierarquia e Araújo só chegou ao posto de embaixador agora, em 2018”, disse ao Nexo Carlos Gustavo Poggio, doutor em estudos internacionais, professor de relações internacionais na PUC de São Paulo e autor de “O Pensamento Neoconservador em Política Externa dos EUA”.

    Para ele, “surpreende que o presidente eleito, ele mesmo oriundo de outra instituição altamente hierárquica [o Exército], não tenha tido essa sensibilidade.”

    ‘Prioridade para o norte’

    “A escolha de Ernesto Araújo para o Ministério das Relações Exteriores institucionaliza não apenas o interesse do próximo governo em conduzir uma política de aproximação e priorização do norte global, sobretudo com os Estados Unidos, como reflete também um tipo específico de crença ocidentalista que permeia boa parte do alto escalão da equipe de Bolsonaro”, disse ao Nexo Fernanda Magnotta, professora de relações internacionais da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado) e especialista em política externa americana.

    Para ela, a gestão de Araújo no Itamaraty “será uma política externa ideológica, mas com sinal invertido em relação às preferências da era petista”.

    ‘O antiglobalismo da direita’

    Guilherme Casarões, professor de relações internacionais na FGV, falou ao Nexo sobre eventuais semelhanças entre o movimento de esquerda contra a globalização nos anos 1990 e a luta antiglobalismo da direita hoje.

    “São fenômenos diferentes, ainda que critiquem coisas semelhantes”, disse Casarões. Para ele, a esquerda “criticava a globalização em sua dimensão fundamentalmente econômica, no que dizia respeito às perdas para o trabalhador, perdas de salário, riscos para a dignidade, algo muito ligado à crítica ao neoliberalismo.”

    Por outro lado, “o antiglobalismo de direita critica a globalização no sentido ideológico, com a tese de que isso é fruto de um projeto político de construção de um governo global que possa controlar as pessoas, que vá impor uma agenda progressista. Essa tese surge da cabeça de pessoas como o escritor Olavo de Carvalho. É toda uma tese conspiratória”, diz Casarões.

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