O que é microbiota e por que ela tem sido foco de pesquisas

Microorganismos que habitam o corpo humano são determinantes para a síntese de determinadas vitaminas, digestão e proteção contra os nocivos

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Nos últimos anos, o conjunto de microorganismos que habita o corpo humano tem recebido crescente atenção da comunidade científica, que usa o termo “microbiota” para se referir a qualquer conjunto de microorganismos em dado ambiente.

De acordo com Laura Glendenning, que pesquisa o assunto na Universidade de Edimburgo, o termo “microbioma” se refere especificamente ao conjunto de genomas desses microorganismos, mas recentemente pesquisadores também o tem usado com o mesmo significado de microbiota.

Pesquisas têm indicado que a composição da microbiota alteram a forma como os corpos dos humanos que habitam funcionam, contribuindo para torná-los mais saudáveis, ou predispondo-os a certas doenças - da mesma forma que outras variáveis, como taxa de colesterol ou pressão sanguínea, fazem.

Do que é formada a microbiota

A microbiota humana é formada por trilhões de microorganismos que habitam o corpo e coexistem com ele. São milhares de espécies de bactérias, fungos, vírus e parasitas.

No decorrer de milhões de anos de evolução, vertebrados, como os seres humanos, e os microorganismos que habitam seus corpos, se desenvolveram lado a lado. Eles existem no corpo inteiro, mas há uma concentração maior desses seres vivos no intestino. A microbiota intestinal é comumente chamada de flora intestinal.

Publicado em 2012 na revista acadêmica Nutrition Reviews, o artigo “Definindo o microbioma humano” afirma que “a coevolução entre vertebrados e seus consortes microbianos no decorrer de centenas de milhões de anos selecionou uma comunidade especializada de micróbios que floresce no ambiente quente, eutrófico [rico em nutrientes e com pouco oxigênio] e estável do intestino”.

A composição da microbiota depende de aspectos como a carga genética de cada pessoa, os microrganismos a que ela é exposta no decorrer da vida e seus padrões alimentares. A microbiota e o microbioma de cada pessoa são, portanto, únicos, apesar de haver similaridades no interior de populações humanas.

Um trabalho publicado em 2010 na revista acadêmica Pnas (Proceedings of the National Academy of Sciences) chamado “Identificação forênsica usando comunidades bacterianas da pele” indicou que as pontas dos dedos humanos transferem comunidades únicas de micróbios aos teclados de computador que tocam ao digitar.

Essas microbiotas e seus microbiomas são tão diferentes uns dos outros que poderiam ser analisados para indicar com um grau elevado de precisão os indivíduos hospedeiros que tocaram os teclados, afirma o trabalho.

Fatores que alteram a composição da microbiota

A composição da microbiota de cada corpo começa desde cedo. Ao passar pelo canal vaginal durante o parto, a criança é exposta a um grande número de microorganismos que vivem no corpo de sua mãe.

Segundo o trabalho “Definindo o microbioma”, pesquisas indicam que 20 minutos após o nascimento, a microbiota de bebês que nasceram por parto natural se assemelha àquela da vagina da mãe. Bebês nascidos por cesariana têm comunidades que são, tipicamente, encontradas na pele humana.

Enquanto amamenta, o bebê também tem contato com microorganismos presentes no leite materno.

As mudanças continuam no decorrer da vida, por meio da alimentação e do contato com o ambiente. A alteração da microbiota ocorre não só porque novos tipos de microorganismos chegam ao corpo, mas também porque mudanças de dieta tornam o corpo mais adequado para o crescimento de alguns e menos adequado a outros.

Um artigo publicado em novembro de 2018 na revista Cell apontou que a diversidade do microbioma intestinal de habitantes do sul da Ásia teve uma forte redução após eles se mudarem para os Estados Unidos. Possivelmente, a mudança ocorreu também em decorrência da aquisição de novos hábitos alimentares.

Segundo um artigo de divulgação científica da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, uma dieta rica em fibras, por exemplo, tende a reduzir o pH do cólon, deixando-o mais ácido.

Isso prejudica o desenvolvimento de determinadas bactérias que podem ser danosas, como a Clostridium difficile. O que garante mais espaço para o desenvolvimento de outras.

Uma pesquisa publicada em 2006 na revista acadêmica Nature apontou que a perda de peso por restrição de carboidratos ou gorduras leva ao aumento da diversidade do microbioma e a redução da proporção de bactérias eficientes em metabolizar monossacarídeos e ácidos graxos.

Isso foi encarado como um indício de que “a obesidade tem um componente microbiano, o que pode ter, potencialmente, implicações terapêuticas”. Ou seja, é possível que alterações na microbiota contribuam para perda ou ganho de peso.

O uso de antibióticos para combater doenças localizadas também pode gerar fortes alterações na composição da microbiota e do microbioma, especialmente quando se tratam de antibióticos “de amplo espectro”, ou seja, capazes de atacar vários tipos de microorganismos.

As funções da microbiota no corpo humano

A microbiota existe em equilíbrio com o corpo humano, e é necessária para seu funcionamento. Ela cumpre funções como: estimular o sistema imunológico, decompor compostos alimentares potencialmente tóxicos e sintetizar determinadas vitaminas e aminoácidos que, de outra forma, não seriam sintetizados no corpo humano.

“As enzimas-chave necessárias para formar vitamina B12 são encontradas apenas em bactérias, não em plantas ou animais”, diz o texto da Escola de Saúde Pública de Harvard.

A microbiota pode servir como proteção contra microorganismos danosos ao corpo humano, que chegam por meio de água e alimentos contaminados. Uma das maneiras pelas quais essa proteção ocorre é a competição por nutrientes e espaço.

Além disso, quando carboidratos complexos, como fibras, não são digeridos até chegar ao intestino grosso, o microbioma pode quebrá-los com suas enzimas digestivas.

Microbiotas permitem, portanto, a humanos digerir alimentos de maneiras que não poderiam sozinhos. O corpo humano se torna, dessa maneira, capaz de obter energia de uma variedade maior de alimentos.

Probióticos, e o potencial do estudo do microbioma

Uma prática comum aplicada com o intuito de inserir novos microorganismos na microbiota é o consumo dos chamados “probióticos”, como leite com lactobacilos vivos.

Entrevistado para o artigo da Escola de Saúde Pública de Harvard, o professor Allan Walker avalia que a adição não é necessária para seres humanos saudáveis, mas possivelmente ajudaria a recompor a microbiota quando esta é desequilibrada pelo uso de antibióticos de amplo espectro, por exemplo.

O trabalho “Definindo o microbioma humano” afirma que o estudo genético da microbiota é encarado como promissor porque, enquanto a similaridade genética entre humanos é da ordem de 99,9%, a diferença entre o microbioma de suas mãos ou intestinos pode ser da ordem de 80% a 90%.

Isso, segundo a pesquisa, sugere que estudar as variações dos microbiomas pode vir a ser mais útil para compreender a predisposição a determinadas doenças e aplicar tratamentos médicos personalizados do que o estudo das diferenças genéticas dos seres humanos em si.

Transplante de fezes serve para alterar microbiota

Mais recentemente, cientistas têm estudado a aplicação de técnicas direcionadas para a alteração rápida de microbiotas como forma de tratar doenças. Uma das mais conhecidas é o transplante de fezes.

Ele tem sido usado em casos nos quais infecções hospitalares levam à propagação de bactérias resistentes a antibióticos, como a Clostridium difficile, no intestino de pacientes, levando a fortes diarreias, febre, perda de peso, cãibras e dores no abdome.

 

Um tratamento que vem sido testado inclusive no Brasil é o uso de uma solução composta por substrato fecal de indivíduos saudáveis e soro fisiológico. Cerca de 300 mililitros do líquido são lançados no intestino delgado do paciente doente por colonoscopia, via sonda, em um procedimento que dura cerca de 15 minutos.

Dessa forma, as bactérias que não causam danos ao hospedeiro competem com as que estão fazendo com que adoeça, estabilizando a microbiota intestinal.

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