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Como a falta de saneamento impacta a vida das mulheres

Relatório investigou como carências no acesso a água tratada e coleta de esgoto comprometem saúde, produtividade, renda e bem-estar das brasileiras

 

Lançado em outubro de 2018, o estudo “O Saneamento e a Vida da Mulher Brasileira” revelou que 27 milhões de mulheres brasileiras – uma em cada quatro no país – não têm acesso adequado à infraestrutura sanitária e saneamento básico.

Encomendada pelo Instituto Trata Brasil e pela empresa privada de saneamento básico BRK Ambiental, a pesquisa investigou como carências de saneamento comprometeram a saúde das brasileiras, afetando também, em consequência, sua produtividade, renda e bem-estar.

O relatório também estimou que a universalização do acesso ao abastecimento de água e tratamento de esgoto tiraria imediatamente 635 mil mulheres da pobreza no Brasil, a maior parte delas negras e jovens.

O estudo analisou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continuada de 2016 e da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, ambas feitas pelo IBGE, além de dados do Sistema Único de Saúde e do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio.

Por que o recorte é pertinente

A desigualdade de gênero de que mulheres são vítimas também impacta o acesso delas aos serviços de água e de coleta de esgoto, mais precário em relação aos homens. 

Com isso, outros direitos humanos, como os direitos à saúde, segurança, moradia adequada, educação e alimentação, ficam prejudicados.

Segundo o relatório, mulheres têm necessidades especiais com relação ao direito à água e à coleta de esgoto, necessárias, por exemplo, aos cuidados com a higiene menstrual.

Por fim, devido ao papel desempenhado pela mulher nas atividades domésticas e nos cuidados com pessoas, a falta de água afeta mais intensamente a vida delas do que a dos homens – o impacto desses problemas no tempo produtivo das mulheres é 10% maior que no dos homens.

Como cuidadoras, elas são mais impactadas quando membros da família adoecem como resultado da inadequação do acesso à água, ao sistema de esgoto e à higiene.

Também devido a esse papel, as mulheres estão em maior contato físico com a água contaminada e com dejetos humanos, quando a infraestrutura de saneamento é inadequada.

“O Brasil tem um imenso deficit de saneamento básico. Ainda hoje, temos 100 milhões de pessoas sem acesso a coleta de esgoto e 4 milhões sem banheiro em casa. Toda a sociedade sofre com esse quadro, mas o impacto nas mulheres é ainda mais grave”, disse ao Nexo Fernando Garcia, um dos coordenadores da pesquisa.

“Isso está relacionado aos efeitos negativos da falta de água e esgoto no tempo, na produtividade e na qualidade de vida da população feminina. A falta de água na torneira tem impacto imediato e direto no cotidiano dessa mulher, que é responsável pelos cuidados com as crianças e idosos da casa, pelas refeições e pela limpeza”, diz Garcia.

Ele exemplifica que, quando um filho apresenta sintomas de diarreia e vômito, quadros típicos de como a falta de saneamento atinge a saúde da população, na imensa maioria das vezes é a mulher quem se ausenta do trabalho para levar a criança ao posto de saúde.

Outro dado do estudo que ilustra a diferença nesse campo é que trabalhadoras sem banheiro em casa ganham 73,2% a menos que as mulheres que tem banheiro. Esse índice é menor se a comparação for entre homens: os sem banheiro ganham 65,3% a menos que os que têm banheiro.

Heterogeneidade: recortes dentro do recorte

As diferenças regionais, de classe e raça entre mulheres faz com que alguns grupos estejam mais vulneráveis à falta de saneamento básico.

O estudo identificou que o deficit de serviços de saneamento era particularmente elevado nas regiões Norte (39,3% da população feminina) e Nordeste (20% da população feminina) e que a falta de água tratada impactava em maior proporção mulheres mais jovens, mulheres negras e indígenas, as de menor escolaridade e as mais pobres.

Nestas regiões, as mulheres sem acesso adequado e regular à água somam mais da metade da população regional feminina (53,2%). No Brasil, mais de 1,5 milhão de mulheres não tem banheiro em casa, das quais mais de 70% delas estão concentradas na região Nordeste, o que comprova a desigualdade territorial no acesso ao saneamento básico no Brasil.

A frequência de mulheres recebendo água tratada nas moradias foi maior nas áreas urbanas (93,7% da população feminina). Nas áreas rurais, apenas 34,7% das mulheres moravam em residências ligadas à rede geral de distribuição de água.

Com relação à coleta adequada de esgoto, o maior deficit é no Norte, onde o problema atinge 67,6% da população feminina.

Apesar de percentuais mais baixos, os números absolutos de mulheres sem acesso adequado à água no Sudeste, região mais rica do país, está na casa dos milhões: em São Paulo, são mais de duas milhões de mulheres; no Rio, 2,1 milhões, e em Minas Gerais, 1,5 milhão.

Consequências

Para a saúde

A falta de saneamento levou à ocorrência de doenças gastrointestinais infecciosas que, a depender da gravidade, ocasionaram o afastamento das mulheres de suas atividades rotineiras, o acamamento ou a internação. Em casos extremos, essas infecções associadas à falta de saneamento levaram à morte.

A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2013 identificou a ocorrência de 7,9 milhões de casos de afastamento de mulheres por diarreia ou vômito de suas atividades rotineiras.

Desse total, 3,6 milhões de mulheres ficaram acamadas em razão dessas infecções.

Segundo dados do SUS, foram registradas 353,5 mil internações de mulheres na rede e quase 5 mil óbitos em razão de infecções gastrointestinais associadas à falta de saneamento.

Essas doenças levam as mulheres a se afastar 3,5 dias por ano, em média, de suas atividades rotineiras. O afastamento por esses problemas de saúde afeta principalmente o tempo destinado a descanso, lazer e atividades pessoais.

Para sua atividade econômica e renda

Segundo o relatório, o acesso universal ao saneamento básico traria uma elevação média de 1,5% na renda das mulheres.

Com isso, a remuneração média das mulheres brasileiras passaria de R$ 1.826,35 por mês para R$ 1.853,10 (os valores utilizados são de 2016) – o que corresponde a um acréscimo de renda de R$ 321,03 ao longo de um ano por brasileira e um ganho total à economia do país de mais de R$ 12 bilhões ao ano.

O aumento vem dos ganhos de produtividade que as mulheres teriam devido a uma menor incidência de afastamento em razão de doenças gastrointestinais infecciosas associadas à falta de saneamento.

Tendo em vista que a falta de saneamento se concentrava nas camadas mais pobres da população feminina brasileira, a universalização dos serviços de saneamento básico e o aumento de renda a ela associado trariam uma redução da incidência de pobreza, segundo as estimativas do relatório.

Considerada a linha de pobreza, definida em R$ 350 per capita em 2016, o número de mulheres vivendo abaixo dela passaria de 21,325 milhões para 20,690 milhões graças ao acesso universal ao saneamento: cerca de 635 mil mulheres deixariam a condição de pobreza com os ganhos de produtividade propiciados pelo saneamento.

Nos estudos

A ocorrência dessas doenças não só afeta a produtividade das mulheres em suas atividades econômicas, comprometendo sua renda, mas também diminui seu potencial de desempenho nos estudos.

A partir das informações de educação e mercado de trabalho da PNADC de 2016 e dos dados do Enem do mesmo ano, a análise feita pelo relatório identificou o saneamento básico entre os fatores determinantes do atraso escolar, do desempenho nos estudos e da remuneração das mulheres no Brasil.

As pessoas que residiam em moradias sem banheiro ou sem máquina de lavar roupa tiveram notas bem menores em relação às que moravam em domicílio com banheiro ou com máquina de lavar roupa. Esses efeitos foram ainda mais intensos no caso das mulheres.

Considerando apenas a população feminina, todas as notas médias das mulheres que residiam em moradias sem banheiro de uso exclusivo ficaram abaixo das médias das mulheres que moravam em domicílios com banheiro. Não dispor de banheiro em casa diminuía 46 pontos em média na nota do Enem em comparação à média dos estudantes brasileiros. As maiores diferenças ocorreram na redação (menos 65,6 pontos) e na prova de matemática (menos 36,5 pontos).

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