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Como Bolsonaro usa livros para reforçar seu discurso

Seja posando ao lado deles, seja citando-os em programas de TV, seja criticando leituras de outros políticos, presidente eleito recorre à simbologia das obras

     

    O presidente eleito, Jair Bolsonaro, tem nas transmissões ao vivo que faz pelas redes sociais um dos principais canais de comunicação com seu eleitor. Durante a campanha e depois dela, as “lives” do capitão reformado, com produção caseira, trazem muitas vezes ele sentado à mesa acompanhado de alguém de seu círculo político próximo ou da família e uma intérprete de Libras (língua brasileira de sinais). À vista, alguns livros.  

    Nessas transmissões, Bolsonaro costuma ser mais contundente contra os adversários. Fala em acabar com o “comunismo” e faz ataques mais duros à imprensa. Os livros da mesa às vezes são citados nominalmente, às vezes estão ali apenas para reforçar seu discurso antiesquerda. Outras citações a obras foram feitas em programas de TV, como Roda Viva, da Cultura, e Jornal Nacional, da Globo. Abaixo, o Nexo lista oito deles e explica do que se tratam.

    ‘A Vida Secreta de Fidel’, de Juan Reinaldo Sanchez

    Lançado em 2014 no Brasil pelo selo Paralela, da Companhia das Letras, foi escrito por um ex-guarda-costas de Fidel Castro (1926-2016), político responsável por governar Cuba de 1959 a 2008, e aparece na mesa de Bolsonaro em vídeo transmitido em 5 de outubro.

    Sanchez, o autor do livro, teve como função proteger o líder da revolução cubana por 17 anos, de 1977 a 1994. Condenado e preso por traição, passou 12 anos planejando sua fuga da ilha após cumprir a pena. Em 2008, foi para os Estados Unidos depois de fugir de barco para o México.

    A obra é usada pela direita para atacar Fidel, pois seu ex-segurança afirma que o líder cubano possuía mais de 20 casas de luxo, uma piscina com golfinhos e iates, enquanto a população enfrentava uma rotina de racionamento de comida. Ele ainda descreve o político como um homem “frio” com os filhos e com a mulher.

    “Ao longo do livro, Sánchez (...) praticamente se desculpa por ter visto os excessos de Fidel sem nunca denunciá-los. Justifica dizendo ser um militar, e militares são obedientes, além de um defensor da Revolução. Apenas quando sentiu-se excluído é que resolveu questioná-la. Isso não deslegitima o relato; ao contrário, o humaniza”, diz trecho de uma crítica publicada no jornal Folha de S.Paulo em 2014.

    Ao longo dos últimos anos, Bolsonaro criticou as relações entre Brasil e Cuba, dentro do que chama de “viés ideológico” nas relações internacionais levadas a cabo pelos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff (2011-2016). Durante as gestões petistas, recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) foram usados para financiar, na ilha, a construção do Porto de Mariel pela construtora Odebrecht, envolvida nos esquemas de corrupção investigados pela operação Lava Jato.

    ‘Uma Ovelha Negra no Poder - Confissões e Intimidades de Pepe Mujica’, de Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz

    No mesmo vídeo de 5 de outubro, o presidente eleito exibe o livro lançado em 2015 pela Bertrand Brasil sobre o ex-presidente do Uruguai José Mujica (2010-2015). A obra registra uma conversa entre Mujica e Lula, na qual, segundo os autores, o ex-presidente brasileiro diz ter lidado com “muitas coisas imorais, chantagens”, numa possível referência ao escândalo do mensalão, em 2005, que colocou antigas lideranças do Partido dos Trabalhadores, como o ex-presidente da sigla José Dirceu, na cadeia. “Essa era a única forma de governar o Brasil”, teria dito Lula a Mujica, segundo o livro.

    A obra foi usada politicamente devido aos episódios narrados por um ícone da esquerda. Em 2015, a Comissão de Relações Exteriores do Senado chegou a convidar Mujica a dar explicações sobre sua fala no Congresso, em Brasília, o que nunca ocorreu. “Ele, como um defensor da ética e um homem que sempre condenou práticas corruptas, não vai nos deixar sem explicações sobre o ocorrido”, afirmou o então senador Ronaldo Caiado (DEM), autor do convite.

    O ex-presidente uruguaio negou, após a obra vir a público, que tenha conversado com seu colega brasileiro sobre “dinheiro ou corrupção”, mas apenas sobre “pressões e chantagens” no governo, sem se referir ao escândalo.

    Um dos principais nomes da esquerda latino-americana, Mujica visitou Lula na cadeia, em junho de 2018. O ex-presidente brasileiro está preso na sede da Polícia Federal em Curitiba, onde cumpre pena de 12 anos e 1 mês após condenação em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro no caso triplex do Guarujá. Ex-guerrilheiro do Movimento de Libertação Nacional Tupamaros, Mujica passou 14 anos preso durante a ditadura militar no Uruguai. 

    ‘O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota’, de Olavo de Carvalho

    A obra do escritor que vive nos Estados Unidos e que reúne quase 200 artigos, publicados entre 1997 e 2013, apareceu em vídeo postado em 24 de outubro e na transmissão ao vivo feita em 27 de outubro, logo após a vitória de Bolsonaro nas urnas. O livro foi lançado em 2013 pela editora Record. Um dos mais conhecidos representantes do pensamento conservador no Brasil e apoiador do capitão reformado do Exército, Olavo de Carvalho acredita que o Foro de São Paulo (associação de partidos de esquerda da América Latina e do Caribe que promove seminários desde os anos 1990 para debater alternativas ao neoliberalismo) e os governos petistas buscavam uma dominação socialista no Brasil.

    Bolsonaro, assim como Olavo, fala em uma suposta ameaça comunista e usa o livro para reforçar essa ideia. Ele associa a ideologia de esquerda a governos como o da Venezuela e ao Foro que, no início, tinha até grupos armados. As Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), por exemplo, já participaram de reuniões no passado. O grupo, hoje, está extinto. Do Brasil, fazem parte do foro o PT, o PDT, o PCdoB e o PPS, por exemplo. Olavo de Carvalho é conhecido por sua verve polemista. Ele já afirmou, em entrevista à Folha publicada em 2006, que a “USP sempre foi o templo da vigarice intelectual”.

    ‘Memórias da Segunda Guerra Mundial’, de Winston Churchill

    O livro de memórias do primeiro-ministro do Reino Unido no período de 1940 a 1945, durante a 2ª Guerra Mundial, foi a maneira encontrada por Bolsonaro para rebater os ataques recebidos da esquerda de que seria “fascista”, por causa de seus discursos de cores autoritárias e pregação da eliminação de seus opositores.

    O premiê britânico ficou marcado por sua defesa da democracia e pela resistência ao fascismo, ao comandar as tropas britânicas contra os nazistas. O presidente eleito disse, em seu primeiro discurso após ser eleito, que iria se inspirar em “grandes líderes”.

    ‘A Verdade Sufocada - A História que a Esquerda Não Quer que o Brasil Conheça’, de Carlos Alberto Brilhante Ustra

    Durante participação no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 30 de julho de 2018, ao ser questionado sobre qual era seu livro favorito, Bolsonaro citou o segundo livro de memórias de Carlos Alberto Brilhante Ustra. Ex-coronel comandante dos órgãos de repressão durante a ditadura militar, Ustra foi condenado em 2008 em uma ação civil, na qual foi classificado como torturador, prática que Bolsonaro já disse, em diversas oportunidades, apoiar.

    Em abril de 2016, em seu voto pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que foi torturada pelos órgãos de repressão, o presidente eleito homenageou justamente o ex-coronel, morto em 2015. Bolsonaro usa o livro de Ustra principalmente para confrontar as versões da esquerda sobre a ditadura militar.

    ‘Aparelho Sexual e Cia. - Um Guia Inusitado para Crianças Descoladas’, de Zep e Hélène Bruller

    Em 28 de agosto de 2018, ao ser entrevistado ao vivo no “Jornal Nacional”, da Rede Globo, o presidente eleito mostrou o livro “Aparelho Sexual e Cia.” como sendo uma obra que integrava o que chama de “kit gay”, material do governo federal de combate à homofobia nas escolas.

    A obra de Zep (pseudônimo do quadrinista suíço Phillipe Chapuis) e ilustrações de Hélène Bruller, publicada pela Companhia das Letras, foi usada para defender sua bandeira de que questões de gênero não devem ser discutidas em sala de aula.

    O livro, porém, nunca fez parte de programas governamentais nem foi distribuído em escolas públicas. Após o episódio, a editora anunciou que relançaria a obra, até então esgotada. 

    Constituição de 1988

    Em suas transmissões, Bolsonaro também aparece com a Constituição de 1988. Sua presença tenta reforçar o discurso segundo o qual ele vai respeitar a lei máxima do país, algo que ficou frequente a partir de alertas de estudiosos e cientistas políticos segundo os quais o capitão reformado seria uma ameaça à democracia.

    E também por declarações de seu entorno político. Seu vice, o general Hamilton Mourão (PRTB), chegou a declarar durante a campanha que o Brasil precisava de uma nova Constituição escrita somente por “notáveis”, sem a participação de representantes eleitos, algo que acabou desautorizado posteriormente por Bolsonaro.

    O novo mandatário viria a afirmar em entrevistas posteriores que seria, como presidente, um “escravo da Constituição”.

    Bíblia sagrada

    A Bíblia, que também aparece nos vídeos, vai ao encontro de seu discurso conservador em defesa da família tradicional. Ele costuma ainda citar constantemente o capítulo 8, versículo 32, do Evangelho de João, que diz: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

    Embora católico, Bolsonaro foi batizado em 2016 na águas do rio Jordão, em Israel, pelo pastor e político Everaldo. O presidente eleito também tem apoio declarado de Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da TV Record.

    O episódio do ataque a FHC

    Em 4 de novembro, já eleito, Bolsonaro publicou no Twitter uma foto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) segurando um livro em inglês. Trata-se de “Prisioner of the State - the Secret Journal of Chinese Premier Zhao Ziyang” (Prisioneiro do Estado: O Diário Secreto do Premiê Zhao Ziyang), de 2009.

    A obra traz as memórias do ex-secretário do Partido Comunista chinês preso após apoiar os famosos protestos estudantis, em 1989, na praça da Paz Celestial, em Pequim. Num dos atos, um jovem enfrenta sozinho um tanque de guerra - registros em vídeo e foto do momento tornaram-se icônicos.

    Ao longo da campanha, Bolsonaro criticou as relações comerciais entre Brasil e China. Ao falar das privatizações, chegou a afirmar: “Quando você vai privatizar, você vai privatizar para qualquer capital do mundo? A China não está comprando no Brasil, ela está comprando o Brasil. Você vai deixar o Brasil na mão do chinês?”.

    Ao postar a imagem de FHC, ele respondia a uma declaração do tucano durante um evento em Portugal, em 3 de novembro, de que o ex-militar poderia prejudicar a imagem do país no mundo, especialmente em relação à China. Luciano Hang, dono das lojas Havan, chegou a comentar a foto: “FHC enganou a mim e a todos os brasileiros. É um comunista”.

    O tucano respondeu em seu Twitter: “A desinformação é péssima conselheira, sobretudo vinda dos poderosos: na foto do Twitter do presidente eleito eu apareço lendo um livro de ex-premiê da China, deposto e preso, em que critica o regime. Isso aparece como ‘prova’ de que sou comunista. Só faltava essa. Cruz, credo!”.

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