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Como é a relação comercial do Brasil com o mundo árabe

Presidente eleito, Bolsonaro busca aproximação com Israel. Movimento desagrada a outros países da região

O governo do Egito cancelou na segunda-feira (5) a visita de uma comitiva brasileira ao país do nordeste da África. No grupo, estavam empresários, diplomatas e o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes, que cumpririam compromissos a partir de quinta-feira (8).

Oficialmente, o governo do Egito disse que houve uma mudança de última hora na agenda das altas autoridades locais. O ministro brasileiro iria se encontrar, entre outros, com o presidente Abdel Fattah el-Sisi.

Analistas apontam, porém, que a decisão foi uma retaliação do Egito ao Brasil. O motivo é uma declaração do presidente eleito Jair Bolsonaro, segundo a qual vai transferir, quando assumir o governo, a embaixada brasileira em Israel da cidade de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo uma posição do governo americano. Bolsonaro está buscando uma aproximação com Israel e com os EUA.

Assim como os demais vizinhos de maioria árabe, o Egito é um dos países que se opõem a transferir embaixadas para Jerusalém, o que significa, na prática, reconhecer a cidade como capital israelense. As Nações Unidas consideram ilegal a ocupação da totalidade de Jerusalém por Israel.

Essa é uma questão internacional que vai além da geopolítica e pode trazer consequências para a economia do Brasil, por conta das relações comerciais com o mundo árabe.

O comércio com o mundo árabe

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, Rubens Hannun, disse que a guinada na política externa do próximo governo pode ser prejudicial ao Brasil. Segundo Hannun, os países árabes podem abrir espaço a outros exportadores, o que prejudicaria a economia brasileira e pressionaria o governo federal.

Atualmente, a relação é vantajosa para o Brasil. Em 2017, a balança comercial com os 22 países que formam a Liga Árabe teve superávit (exportações maiores que importações) de US$ 7,1 bilhões para o Brasil. Foi um recorde positivo, comparando com o histórico da balança com a Liga Árabe.

No mesmo ano, a balança comercial brasileira com todo o planeta teve US$ 67 bilhões de superávit. Ou seja, as transações com os países de maioria árabe têm um peso considerável na balança comercial do Brasil — aproximadamente 10% do superávit de 2017.

Os dois principais produtos que o Brasil exporta para os países árabes são a carne bovina e o frango. No caso, são carnes halal (“autorizado”, em árabe), que seguem normas específicas do islamismo para a criação, alimentação e abate dos animais.

Algumas das normas são: no momento do abate, o corpo do animal deve estar voltado na direção da cidade sagrada de Meca (Arábia Saudita) e o abate deve ser feito por um muçulmano.

O Brasil é o maior exportador mundial de carnes halal. As empresas produtoras recebem inspeções para certificar se seguem, de fato, os preceitos. Os países da Liga Árabe, onde a carne halal é amplamente consumida, têm maioria religiosa muçulmana.

Minério de ferro, soja, milho e açúcar também estão entre os principais produtos exportados pelo Brasil para o mundo árabe.

Em 2017, o comércio com Israel registrou uma balança deficitária de US$ 419 milhões. No ranking de principais destinos das exportações brasileiras, Israel ficou na 54ª colocação naquele ano.

Por que transferir a embaixada gera críticas

A possível mudança da embaixada brasileira tem sérias implicações políticas na região. A maioria dos países do mundo rejeita a reivindicação de Israel de que Jerusalém é a sua capital.

O status da cidade é um dos pontos mais sensíveis do conflito entre palestinos e israelenses, pela sua importância histórica e religiosa para muçulmanos, judeus e cristãos. A Palestina reivindica a parte oriental de Jerusalém como a sua capital.

Por isso, a maioria das representações diplomáticas em Israel fica na cidade de Tel Aviv (de vasta maioria judaica), e as embaixadas na Palestina estão sediadas sobretudo em Ramallah (de maioria árabe muçulmana).

Bolsonaro afirma que é Israel quem deve determinar qual é a sua capital. Portanto, o Brasil estaria apenas respeitando a decisão de uma nação soberana sobre assuntos internos. Nesta terça-feira (6), o presidente eleito disse que a transferência “não foi decidida ainda”. Atualmente, só os EUA e a Guatemala têm suas embaixadas em Israel com sede em Jerusalém.

Os países de maioria árabe são os principais opositores ao reconhecimento de Jerusalém como capital israelense. O Egito, que cancelou a visita da comitiva brasileira, não é historicamente um dos mais ferrenhos aliados da Palestina, adotando uma posição mais moderada no conflito.

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