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O que a história mostra sobre os desafios de Paulo Guedes

Jornalista Thomas Traumann, que escreveu livro sobre ex-ministros da Fazenda, analisa o superministério da Economia e diferença de pensamento de assessor com Bolsonaro

 

O Ministério da Fazenda é a instituição responsável pela política econômica do governo desde o século 19. Por lá passam as mais importantes decisões sobre as contas e os investimentos públicos, por lá passaram alguns dos mais importantes economistas do país no último século. E, mais do que isso, as decisões tomadas na Fazenda impactam o bolso dos brasileiros.

 

Historicamente poderosa, a pasta ganhará ainda mais atribuições no governo de Jair Bolsonaro. O presidente eleito confirmou a proposta de fundir a Fazenda com outras estruturas e, a partir de janeiro, o ministério cuidará também do planejamento e gestão do Orçamento, além de toda a política industrial e de exportação.

 

O novo superministério transformará Paulo Guedes, escolhido de Bolsonaro para a área, no mais poderoso ministro da economia do país em décadas. Liberal, Guedes nunca trabalhou no governo e foi o responsável por moldar o discurso do então candidato Bolsonaro, político que, como deputado, votou contra medidas de ajuste fiscal e abertura da economia.

 

A concentração de poderes, a inexperiência na política e as diferenças de pensamento econômico com o presidente dão ainda mais imprevisibilidade a um cargo que o jornalista Thomas Traumann chama de “O pior emprego do mundo”. No livro, lançado em setembro pela Editora Planeta, Traumann conta a história pela ótica daqueles que ocuparam o cargo máximo da economia do Brasil.

 

Ele conversou com 14 ex-ministros – pessoas que congelaram preços, confiscaram poupança, aumentaram a dívida pública, tentaram reduzi-la, deram calotes, aprovaram grandes obras e grandes cortes no Orçamento. Gente que mudou a moeda do país, que com suas ideias moldou a cara de governos nas últimas décadas. A maior parte delas foi demitida no meio de alguma crise.

 

Desde a chegada da Família Real ao Rio de Janeiro, em 1808, quando a Fazenda ainda não se chamava ministério, 153 pessoas ocuparam o posto, nas contas de Traumann. Apenas uma mulher esteve no cargo: Zélia Cardoso de Mello, no governo de Fernando Collor.

 

Traumann assessorou diretamente dois ocupantes da Fazenda: Antonio Palocci (2003-2006) e Henrique Meirelles (2016-2018). Além disso, segundo escreve no prefácio de “O pior emprego do mundo”, teve relações próximas com outros ministros, como Joaquim Levy, Guido Mantega e Nelson Barbosa.

 

O jornalista foi colega dos três no tempo em que foi ministro da Secretaria de Comunicação Social no governo Dilma Rousseff. Ele faz questão de ressaltar, porém, que o livro não é fruto de informações privilegiadas.

 

Olhando para a história dos que ocuparam o cargo, o Nexo entrevistou o autor sobre as dificuldades e os poderes que o próximo ocupante do “pior emprego do mundo” terá a partir de 1º de janeiro.

Se pensarmos na conjuntura econômica atual e na profundidade das reformas propostas, a quem você compararia Paulo Guedes?

Thomas Traumann Pela vaidade intelectual e as exigências de poder, o ministro indicado Paulo Guedes lembra Mário Henrique Simonsen, que exigiu do presidente João Figueiredo uma secretaria do Planejamento (Seplan) turbinada com a secretaria de controle de preços e o direito de nomear os titulares da Fazenda e do Banco Central.

 

Pela ambição de propósitos, a comparação mais adequada seria com o ministro Pedro Malan [governo Fernando Henrique Cardoso], que tinha agenda clara de um Estado enxuto e atuando mais na regulação do que na intervenção direta na economia.

 

Quanto poder tem um ministro da Fazenda cujo chefe diz publicamente não entender de economia? Há precedentes? Há perigos nessa relação?

Thomas Traumann Sabendo ou não de economia, todos os presidentes terminam intervindo na economia. Faz parte da natureza do cargo. Ao acabar com a curta independência do Banco Central, Costa e Silva disse: “A autoridade monetária sou eu.” Geisel testava os modelos de formulários de imposto de renda. Sarney impôs o congelamento além do inicialmente previsto no Plano Cruzado. Itamar Franco demitiu o presidente do Banco Central sem avisar FHC por uma portaria confusa sobre cheques pré-datados. Lula pedia a seu vice, José Alencar, para criticar a taxa de juros. Dilma Rousseff decidiu a alíquota de corte na alíquota da conta de luz sem consultar o ministro Guido Mantega.

 

O presidente que publicamente dizia não entender de economia (embora se orgulhasse de ser bom estudante de cálculo) foi João Figueiredo. Deixou Delfim Netto fazer o que considerava melhor entre 1979 e 1985, com resultados controversos.

O que muda com o superministério?

Thomas Traumann Tudo. O novo Ministério da Economia vai moldar o governo Jair Bolsonaro. O presidente eleito concedeu a Paulo Guedes os poderes de um primeiro-ministro, acima dos demais. Ele terá o controle do Tesouro Nacional (o cofre do governo), da Receita Federal (a arrecadação), da Secretaria de Orçamento (que libera os recursos), da Secretaria de Administração (o departamento de recursos humanos do serviço público), da Comissão de Valores Mobiliários (o xerife do mercado acionário), dois dos maiores bancos do país – Banco do Brasil e Caixa [Caixa Econômica Federal] –, os dois principais institutos de pesquisa aplicada (IBGE e Ipea), além do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], a Zona Franca de Manaus e Câmara de Comércio Exterior (Camex). É muito poder e muita pressão para uma única pessoa.

Como equilibrar as pautas liberais de Paulo Guedes com as ideias nacionalistas e patrimonialistas de Bolsonaro e seus aliados militares?

Thomas Traumann Não há equilíbrio possível porque o histórico estatista do deputado Jair Bolsonaro é o completo oposto do discurso liberal do economista Paulo Guedes. Quais estatais serão privatizadas? Qual o ritmo do ajuste fiscal? Qual a proposta de reforma da previdência? Não há meio termo nessas questões. Um terá que ceder.

Como quem recebeu quase 58 milhões de votos foi Jair Bolsonaro, a tendência é que o ministro ceda mais.

Qual a importância de traquejo político e experiência no setor público para exercer a função de ministro da Fazenda?

Thomas Traumann De zero a dez, nove. Quase toda a agenda liberal de Guedes (previdência, privatizações, autonomia do Banco Central etc.) depende do Congresso. Ele certamente gastará mais tempo em 2019 conversando com os líderes na Câmara e no Senado do que com Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo] e CNI [Confederação Nacional da Indústria].

O acúmulo de poder no novo ministério também significa uma gigantesca concentração de burocracia, que por lei precisa ser autorizada pelo ministro, de contratos de licitação de compra de café à definição da alíquota de importação de celulares. Se não tiver uma equipe com experiência na máquina pública, Guedes perderá tempo com miudezas e não focará no essencial: a retomada do crescimento e o reequilíbrio das contas públicas.

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