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O que é a ‘troika da tirania’, batizada por um assessor de Trump

Conselheiro de Segurança da Casa Branca reaviva ‘eixo do mal’ de Bush para se referir a Cuba, Venezuela e Nicarágua

 

O conselheiro da Casa Branca para Segurança Nacional, John Bolton, disse na quinta-feira (1º), em Miami, no estado americano da Flórida, que os governos da Venezuela, da Nicarágua e de Cuba formam uma “troika da tirania” e um “triângulo do terror” na América Latina.

A declaração de Bolton ecoa a expressão “eixo do mal”, inventada em 2002 pelo então presidente George W. Bush para se referir aos governos do Irã, do Iraque e da Coreia do Norte.

Desses três países, o Iraque foi invadido no ano seguinte pelos americanos, enquanto o Irã e a Coreia do Norte sofreram uma série de pesadas sanções e embargos desde então. Bush viria ainda a ampliar o “eixo do mal”, incluindo outros países ao longo do tempo.

No caso da chamada “troika [trio] da tirania” latino americana, Bolton disse que “os EUA estão tomando ações diretas contra esses três regimes para defender o Estado de direito e a dignidade humana”. Porém, ele não especificou que ações são essas.

Analistas americanos se referiram à possível suspensão de programas de cooperação econômica, no caso da Nicarágua; à manutenção do embargo, no caso de Cuba; e até à possibilidade de ação militar contra a Venezuela, como mencionada em agosto de 2017 pelo presidente americano, Donald Trump.

Bolton: um falcão entre falcões

O autor da expressão “troika da tirania” é um conhecido “falcão”. A expressão em inglês (hawk) é usada para se referir a políticos e outros membros da administração pública americana que têm no uso da força militar uma opção sempre ao alcance.

Bolton foi convidado em março por Trump para liderar a Segurança Nacional. À época, Bolton atuava apenas como comentarista de política internacional na Fox News, emissora alinhada aos “neocon”, como são chamados os neoconservadores americanos, alinhados a Trump.

Antes, Bolton havia sido embaixador americano nas Nações Unidas, durante a administração Bush. Foi nessa época, em 1994, que ele disse sobre a sede da ONU em Nova York: “tem 38 andares. Se perdesse 10 não faria nenhuma diferença”.

Discurso sob medida

 

O discurso de Bolton foi dirigido ao público latino-americano que vive em Miami. Esse público é tradicionalmente conservador. Muitos dos imigrantes aos quais a fala de Bolton foi dirigida deixaram seus países de origem justamente por discordar – e, muitas vezes, por fugir da perseguição – desses líderes.

Quando mandou a mensagem sobre a “troika da tirania” em Miami, Bolton estava a menos de uma semana das eleições de meio de mandato – as “midterm elections”, que a cada quatro anos renovam a Câmara e parte do Senado, além de alguns governadores de Estado e outros cargos eletivos.

Os republicanos, aos quais Bolton é ligado, temem perder a maioria no Congresso na eleição que ocorre nesta terça-feira (6). Por isso, a fala do conselheiro tinha como contexto a política externa americana, mas tinha como subtexto também a campanha eleitoral em curso. Bolton queria expressar um ponto de vista em política externa, mas também queria votos para os candidatos de seu partido.

O que ocorre em Cuba, Nicarágua e Venezuela

 

Cuba, Nicarágua e Venezuela são governados por líderes de esquerda acusados de cometerem graves e reiteradas violações de direitos humanos contra seus próprios cidadãos ao longo de anos.

Com Cuba, os EUA romperam relações em 1959, assim que Fidel Castro tomou o poder das mãos do então presidente, Fulgencio Batista, que era próximo dos americanos. Depois de 56 anos, em 2015, o presidente americano Barack Obama reatou relações com o governo comunista da ilha, mas Trump, seu sucessor, voltou atrás em 2017.

Com a Venezuela, os problemas remontam à ascensão de Hugo Chávez ao poder, em 1999. Ele governou ininterruptamente até 2013, quando foi sucedido pelo atual presidente, Nicolás Maduro, acusado por organizações como a Human Rights Watch de cometer “crimes contra a humanidade” contra opositores. Os EUA apoiaram um fracassado golpe contra Chávez, em 2002, e mantêm relações tensas com Maduro, classificado pela Casa Branca como “ditador”.

No caso da Nicarágua, o atual presidente, Daniel Ortega, é antagonista dos americanos desde os anos 1960, quando fez parte da Frente Sandinista, guerrilha de esquerda que atuava na região. Hoje está em seu terceiro mandato como presidente e enfrenta uma onda de protestos que pedem sua saída do poder. Órgãos internacionais, como a OEA (Organização dos Estados Americanos), acusam Ortega de cometer graves e reiteradas violações de direitos humanos contra opositores.

O triângulo EUA-Colômbia-Brasil

No mesmo discurso em que nomeou a “troika da tirania”, Bolton fez referência também a três países da região que podem fazer frente ao que ele desenha como uma ameaça: EUA, Colômbia e Brasil, todos governados por presidentes de direita ou de variáveis mais radicais da direita.

“As recentes eleições de líderes afins em países-chave, incluindo Iván Duque na Colômbia e, no último final de semana, Jair Bolsonaro no Brasil, são sinais positivos para o futuro da região e demonstram um crescente compromisso regional com princípios de livre mercado e governança aberta, transparente e responsável”, disse Bolton.

Duque foi eleito presidente da Colômbia em 17 de junho, ao derrotar o candidato de esquerda Gustavo Petro. Durante a campanha, prometeu endurecer os termos do acordo de paz que havia sido celebrado entre seu antecessor, Juan Manuel Santos, e as hoje extintas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

No caso do Brasil, Bolton estava saudando a chegada ao poder de Jair Bolsonaro, eleito no dia 28 de outubro. Bolsonaro e Trump se alinham ideologicamente em diversos aspectos. Ambos têm discurso semelhante de antagonismo com as esquerdas – seja, no caso brasileiro, contra o petismo e até contra o “comunismo”, seja, no caso americano, contra os democratas ou “liberais”.

‘Já foi mais fácil prever os cenários’

O Nexo fez três perguntas sobre as declarações de Bolton a Geraldo Zahran, professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP e coordenador do OPEU (Observatório Político dos Estados Unidos​).

O que Bolton espera com uma declaração como essa?

Geraldo Zahran Bolton é uma figura polêmica há muito tempo. No passado, ele já disse que a ONU não perderia nada se cortasse os andares onde está localizada a secretaria-geral. Foi ele também quem disse que a solução para barrar o programa nuclear norte-coreano deveria seguir a receita usada na Líbia, onde o então líder, Muammar Gaddafi, foi deposto e morto por uma turba, arrastado pela rua.

Penso que, além de ser quem é, a declaração dele também está dentro de um contexto eleitoral. Trump vem usando assuntos como a imigração da América Central como uma espécie de fantoche. A ideia é apresentar ameaças externas para dizer que os democratas deixariam o país vulnerável, enquanto os republicanos deixariam o país mais seguro. A Fox News chega a dizer que tem gente do Estado Islâmico infiltrada na caravana de imigrantes que percorre a América Central com destino aos EUA.

Qual o significado das menções que Bolton faz ao Brasil e à Colômbia?

Geraldo Zahran Ele quer resgatar com Duque a relação que teve com Álvaro Uribe [presidente da Colômbia entre 2002 e 2010]. A ideia é dar sequência a uma trajetória de cooperação que vinha vindo.

Em relação ao Brasil, é preciso ver que ele não se aproximou do atual governo. Trump evitou [Michel] Temer [atual presidente brasileiro], taxou o aço e o alumínio. Depois o Brasil até conseguiu cotas especiais, mas o que interessa aqui é ver que não houve nenhuma boa vontade especial, exacerbada. Em relação ao novo governo, vai depender dos primeiros passos, mas ainda cabe uma interrogação. É preciso lembrar que esse será um governo cheio de militares nacionalistas. Pode haver, portanto, algum atrito, alguma disputa com os EUA.

Qual o paralelo entre a ‘troika da tirania’ e o ‘eixo do mal’?

Geraldo Zahran Já foi mais fácil prever o comportamento desses atores. Normalmente, eu diria que é só retórica, eu diria que ficou para trás esse passado de intervenções dos EUA na região, sobretudo na América Central.

Mas hoje tudo é possível, especialmente da parte de um conselheiro que teima em dizer que o Iraque após a invasão americana de 2003 ficou melhor do que era antes.

Então, em princípio, é descabido [pensar que a ‘troika’ e o ‘eixo’ tenham o mesmo destino], mas está difícil descartar possibilidades. Mesmo assim, diria que a probabilidade é baixa. Não vejo tanto o risco de uma presença militar americana direta. Seria, talvez, mais um tipo de ação de atores locais, agindo com a benção dos EUA.

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