O que é ‘overtourism’. E a influência do Instagram no turismo

Rede social virou fator determinante para lotar ou esvaziar um ponto turístico, e responde à busca do público por ‘experiências exclusivas’

    O turismo no mundo só cresce, de acordo com a Organização Mundial do Turismo. Em 2017 esse aumento foi de 7% em relação ao ano anterior. No mesmo ano, no Brasil, registrou-se o maior número de entradas de estrangeiros no país da história: 6,5 milhões de pessoas visitaram o país, uma alta de 11,1% em relação a 2016.

    Se, por um lado, o turismo gera dinheiro e renda para o país, os governos vêm enfrentando um novo problema: como lidar com o excesso de turistas, o chamado ‘overtourism’, que traz sérias consequências para a economia dos locais e principalmente ao ecossistema da região.

    A prefeitura de Madri, capital da Espanha, implantou regras para lidar com a quantidade de reservas pelo sistema de Airbnb, por medo de os moradores locais terem de lidar com o aumento do custo de vida na cidade. Em outubro de 2018, o governo da Tailândia anunciou o fechamento por tempo indeterminado da ilha Maya Bay, para permitir a recuperação dos danos ambientais causados por milhões de turistas. A ilha se tornou famosa depois de ter sido usada como cenário do filme “A Praia”, de 2000, que tem no elenco o ator Leonardo DiCaprio. Até o roubo de areia da Sardenha, ilha italiana, já preocupa ambientalistas.

    Para o jornal britânico The Telegraph, “overtourism” deve ser a palavra de 2018 a ser incluída nos dicionários. Em entrevista ao portal americano CNN, Sarah Miginiac, gerente de uma empresa de turismo na América do Sul, afirma que o excesso de turistas é real, mas se manifesta de forma diferente em cada lugar, podendo ou não ter consequências negativas. Miginiac usa como exemplo o museu do Louvre, em Paris, na França, e Machu Picchu, no Peru. “O excesso de turistas não tem semelhança entre Paris e Machu Picchu”, afirmou. “Na cidade antiga do Peru, não há a mesma infra-estrutura em torno.”

    O que o Instagram tem a ver com isso

    As redes sociais têm uma grande parcela de responsabilidade nesse aumento, principalmente o Instagram, que mudou a forma como as pessoas viajam. Ao Nexo, Gabriela Otto, professora da ESPM-SP e presidente da HSMAI Brasil (Hospitality Sales and Marketing Association International), afirmou que muito da influência das mídias sociais vem da ideia de veracidade. “O Instagram ganhou essa força muito pela autenticidade das postagens. O fato de a foto ser de alguém que não está vendendo um pacote turístico para aquela região dá mais credibilidade, confere genuinidade ao local”.

    Alguns lugares sofrem mais que outros, principalmente quando se trata de destinos naturais ou antigos. Para Otto, isso acontece porque “as pessoas estão descobrindo destinos não tradicionais. Há uma busca por experiências únicas e pouco conhecidas.”

    Horseshoe Bend, um ponto turístico do Arizona, vai passar por grande reestruturação após ter se tornado viral no Instagram. A ideia é proteger visitantes e meio ambiente. Em 1992, o lugar era pouco conhecido e visitado, com algumas centenas de turistas por ano. Atualmente, o lugar é visitado por cerca de 1,5 milhão de pessoas anualmente. Ambientalistas se preocupam em como essa interação pode danificar para sempre o cenário.

    O excesso de turistas no Brasil

    O potencial turístico do Brasil é muito alto, mas ainda desperdiçado. A conclusão do Fórum Econômico Mundial, em levantamento publicado em 2017, é de que o país tem os patrimônios naturais e a biodiversidade mais ricos do planeta, mas seu potencial turístico é limitado por deficiências em segurança e infraestrutura, por exemplo.

    O turismo dentro do próprio país é estimulado pelo governo, porém algumas regiões já sentem o reflexo do excesso de visitas sem controle. A Ilha das Couves, localizada em Ubatuba, no litoral paulista, é um dos exemplos. Depois de ter sido supercompartilhada nas redes como destino paradisíaco, a ilha passou a receber muito mais visitantes do que sua estrutura comporta, gerando sérios problemas ambientais.

    “Em Fernando de Noronha, por exemplo, existem regras bem claras de entrada justamente para evitar isso. O aumento do turismo não é o problema, mas o crescimento descontrolado, sim.” O arquipélago possui taxa de preservação para visitantes, quantidade limitada de hotéis e visitantes permitidos.

    Para a professora, é “necessário estruturar antes de aumentar as visitas e investir”, sendo essa a diferença determinante entre turismo predatório ou saúdavel, e cita o exemplo da cidade de Wanaka, na Nova Zelândia, com cerca de 8 mil habitantes, que buscou influenciadores digitais para aumentar seu turismo. “A cidade teve um aumento de 14% no turismo e isso melhorou muito a vida dos locais. Colocou no mapa uma cidade extremamente pequena que ninguém conhecia. O turismo, quando feito da forma certa, é bom para comunidade local.”

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