Ir direto ao conteúdo

O dicionário do dialeto LGBT, citado na prova do Enem

Lançado em 2006, ‘Aurélia, a dicionária da língua afiada’ tem coautoria do jornalista e ativista Vitor Angelo

 

“Nhaí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué, deixe de equê se não eu puxo teu picumã!”.

A frase acima integrou uma questão da prova de linguagens do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), realizada em 4 de novembro de 2018.

Ela usa gírias e expressões do dialeto pajubá, usado na comunidade LGBT como “amapô” (mulher), “acuê” (dinheiro), “equê” (truque, enganação) e “picumã” (cabelo).

A questão inclui uma referência ao livro “Aurélia, a dicionária da língua afiada”, publicado em 2006 por Angelo Vip e Fred Libi, pela Editora da Bispa.

Ao estudante do Enem era perguntado qual característica do pajubá o faria ser considerado dialeto e elemento de patrimônio linguístico.

Blogay e dicionário

Os dois autores do dicionário assinam com pseudônimos. Libi não quis revelar sua identidade à época do lançamento. Vip era o jornalista Vitor Angelo, que morreu em 2015, de parada cardíaca.

Angelo trabalhou como repórter na MTV, Rede TV! e Folha de S.Paulo. Um dos pioneiros do jornalismo dedicado a questões LGBT, foi colunista da seção GLS da Revista da Folha, e depois assinou o Blogay, no UOL, que manteve até perto de sua morte.

 

O escritor João Silvério Trevisan dedicou a quarta edição de seu livro “Devassos no paraíso”, lançado em 2018, a Angelo. “Sua inteligência, alegria e consciência crítica fazem falta a mim e a tanta gente mais”, escreveu o autor na homenagem. A obra de Trevisan procura contar a história da homossexualidade no Brasil, desde os tempos coloniais.

De acordo com entrevista de Angelo à época do lançamento do livro, ele e Libi realizaram uma pesquisa nacional para compilar os verbetes do dicionário. “Começamos a perguntar para amiguinhos e amiguinhas. Conversamos com gente do Rio Grande do Sul, Pernambuco e Ceará e também com amigos portugueses. E também entrevistei travestis”, contou.

Com 143 páginas e cerca de 1.300 verbetes, o título da obra alude ao hábito de gays usarem nomes próprios e substantivos no feminino. À época, a brincadeira não foi bem aceita pela editora e pela viúva de Aurélio Buarque de Holanda, o lexicógrafo que dá nome ao tradicional dicionário de língua portuguesa. Em declaração dada à Folha em 2006, Marina Baird Ferreira, então com 83 anos, disse que “A família em nome do falecido autor declara-se contrária a qualquer demonstração de homofobia, mas dispensa essa ‘homenagem’ ao dicionário.”

Do iorubá ao pajubá

Relatos históricos e pesquisas acadêmicas apontam o início do uso do pajubá (ou bajubá, segundo algumas grafias) entre travestis nas décadas de 1960 e 1970. Na sua origem, o dialeto funcionava como proteção a seus usuários.

“Começamos a falar na época da ditadura, por conta da repressão policial e para despistar na presença de alguém indesejado”, afirmou Keyla Simpson, presidente da Atrás – Associação dos Travestis de Salvador, em entrevista de 2009 para uma publicação da Ufba (Universidade Federal da Bahia).

Com o tempo, os vocábulos e expressões transcenderam o universo dos travestis e se disseminaram por todo o universo LGBT.

Uma grande quantidade das palavras do pajubá são de origem iorubá, língua falada no sudoeste da Nigéria e no Benim (onde é chamada de nagô). O iorubá e o nagô vieram ao Brasil por intermédio de escravos africanos. Seus falares seguiram vivos graças ao uso no contexto do candomblé. A religião era uma das raras a não discriminar gays nem travestis, que começaram a usar alguns de seus termos.

“As palavras foram apropriadas de terreiros de candomblé, mas os sentidos foram transformados. Não é o sentido exatamente que vigora no terreiro, mas se faz uma aproximação”, afirmou Amara Moira, pesquisadora e militante transgênero, à revista Bravo em 2018.

De acordo com a linguística, o pajubá pode ser caracterizado como um dialeto. Esses “não ocorrem somente em regiões diferentes, pois numa determinada região existem também as variações dialetais etárias, sociais, referentes ao sexo masculino e feminino e estilísticas”, escreveu Ana Cláudia Fernandes Ferreira, doutora em Linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!