Por que Bolsonaro mantém discurso do ‘kit gay’ mesmo desmentido

Presidente eleito volta a tocar no assunto, embora a versão que costuma propagar seja comprovadamente falsa

    Jair Bolsonaro (PSL) concedeu na segunda-feira (29) as primeiras entrevistas como presidente eleito. Às emissoras Record, SBT e Globo, o futuro chefe do Executivo federal enfatizou algumas de suas principais promessas e voltou a mencionar informações desmentidas durante a campanha sobre o chamado “kit gay”.

    A campanha eleitoral de 2018 foi pautada por intensa polarização entre as campanhas de Bolsonaro e Fernando Haddad, candidato do PT. Polarização essa alimentada também por notícias falsas, disseminadas por meio de redes sociais e aplicativos como o WhatsApp.

    Conteúdos e montagens a respeito do “kit gay” estiveram entre os mais compartilhados na campanha, segundo levantamentos da Diretoria de Análises de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV-DAPP).

    Uma pesquisa feita pela empresa Ideia Big Data a pedido da ONG Avaaz divulgada na quinta-feira (1º) mostrou que 83,7% dos eleitores que votaram em Bolsonaro acreditam no “kit gay”.

    As palavras de Bolsonaro. E os fatos

    Em entrevista à TV Globo após a eleição, o presidente eleito voltou ao assunto do “kit” para responder a uma pergunta sobre preconceito e agressões contra homossexuais no Brasil:

    “Eu fui contra um kit feito pelo então ministro da Educação, Haddad, em 2009 para 2010, onde chegaria nas escolas um conjunto de livros, cartazes e filmes onde passariam crianças se acariciando e meninos se beijando. Não poderia concordar com isso, e a forma como eu ataquei essa questão é que foi um tanto quanto agressiva, porque eu achava até que aquele momento merecia isso”

    Jair Bolsonaro

    presidente eleito, em entrevista ao Jornal Nacional na segunda-feira (29)

    O “kit gay” é a forma como alguns parlamentares, entre eles Bolsonaro, apelidaram pejorativamente o material Escola sem Homofobia, conteúdo didático dirigido a professores, não a crianças e adolescentes.

    Ao contrário do que Bolsonaro disse em diversas ocasiões, não havia livros ou cartazes dirigidos a crianças em que elas aprenderiam a se acariciar ou se beijar. O “kit” do modo como Bolsonaro descreve, de que seria uma doutrinação, nunca existiu.

    A cartilha explicava conceitos como gênero e sexualidade e sugeria atividades em sala de aula para os alunos refletirem sobre temas como comportamento preconceituoso ou analisarem, por exemplo, expressões sexistas na língua portuguesa. Também havia a sugestão de materiais audiovisuais para a sala de aula — dois mais antigos e um feito na época do Escola sem Homofobia. As atividades eram voltadas a estudantes a partir de 11 anos.

    A iniciativa contava com apoio do MEC, Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

    Em 2011, a então presidente Dilma Rousseff (PT) cedeu à pressão política da bancada evangélica e católica do Congresso e desistiu de implementar o material Escola sem Homofobia.

    Seminário e livro

    Na entrevista ao Jornal Nacional no dia seguinte à vitória eleitoral, Bolsonaro repetiu que o debate contra o “kit gay” ocorreu durante o “9º Seminário LGBT Infantil”, na Câmara dos Deputados.

    Esse evento nunca ocorreu, muito menos no período de que Bolsonaro fala, entre 2009 e 2010. Em maio de 2012, ocorreu o evento anual “9º Seminário LGBT no Congresso Nacional”, que naquela edição tratou dos temas “infância e sexualidade”, e não tinha relação com o Ministério da Educação. Em maio de 2012, Haddad já não era mais o titular da pasta.

    No início da campanha presidencial, a fim de atestar sua versão, Bolsonaro mostrou ao vivo na TV o livro “Aparelho sexual e cia.”, que, segundo ele, fazia parte do material do MEC, para crianças “a partir de 6 anos”.

    A obra escrita pela francesa Hélène Bruller nunca foi comprada pelo ministério nem foi distribuída em escolas, além de ser destinada a crianças e jovens de 11 e 15 anos.

    O ‘kit gay’ na Justiça Eleitoral

    A versão distorcida sobre o “kit” foi repetida por Bolsonaro e seus apoiadores, em especial no segundo turno, para atacar Haddad. Isso porque o petista era ministro da Educação no período de elaboração do Escola sem Homofobia.

    Em 16 de outubro de 2018, o ministro Carlos Horbach, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), determinou a exclusão de publicações e de manifestações com a expressão “kit gay” das páginas de Bolsonaro. O ministro acatou o pedido da defesa do petista, segundo o qual a informação era sabidamente inverídica.

    Duas análises sobre o tema

    O Nexo conversou com dois cientistas políticos de áreas distintas sobre a insistência de Bolsonaro em falar sobre assuntos como o “kit gay”:

    • Camila Romero, professora da UFG (Universidade Federal de Goiás), pesquisa instituições políticas e o Executivo
    • Fábio Vasconcellos, professor da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e da ESPM, pesquisa comunicação política

    O que explica essa insistência do presidente eleito em algo comprovadamente falso como o ‘kit gay’?

    CAMILA ROMERO A entrevista ao Jornal Nacional foi um dos primeiros pronunciamentos dele, ao vivo, no dia seguinte à eleição. Grande parte dos apoiadores e eleitores dele foram embalados nesse discurso. A história do chamado “kit gay” talvez tenha sido um dos episódios que mais deram projeção nacional a ele. Então, para o eleitorado de Bolsonaro, faz sentido reiterar esse tipo de discurso mesmo já tendo sido desmentido, segundo posicionamento do próprio TSE de que ele não reproduzisse mais essa fala durante a campanha. Acredito que Bolsonaro ainda está embalado nesse discurso de campanha e viu ali uma oportunidade de reafirmar essa posição, acenando para a sua base de apoio.

    FÁBIO VASCONCELLOS Muito antes do começo da campanha, a equipe de Bolsonaro criou um mundo paralelo, com interpretações distorcidas ou mesmo falsas. Isso mobilizou bastante o eleitorado, o deixou ativo e participante, entre segmentos mais conservadores. Não dá para saber se Bolsonaro acredita de fato nesses discursos ou se ele usa estrategicamente para manter o seu eleitorado ativo, o que é estranho, porque a campanha acabou. Espera-se do presidente da República que, quando venha a público, ele tenha muita preocupação com fatos e verdades. Olhando os Estados Unidos, o presidente Donald Trump adota a mesma estratégia, uma maneira de redirecionar a atenção para si. Assim, Bolsonaro mantém um canal ativo de comunicação direta com o seu público.

    O que isso diz sobre a confiabilidade dos discursos de Bolsonaro?

    CAMILA ROMERO A preocupação maior será se Bolsonaro perdurar nesse tipo de posicionamento. Se, nas próximas semanas, ainda antes da posse, ele insistir no discurso sobre o “kit gay” ou em outros que tenham sido comprovadamente apontados como falsos ou sem conteúdo, Bolsonaro começa a perder credibilidade. Entre seus apoiadores, acredito que não, pois ele é respaldado e aclamado justamente por se posicionar dessa maneira. Mas entre uma parcela mediana, que o tenha apoiado por se contrapor ao PT, ele pode perder credibilidade. Seria uma perda diante da opinião pública em geral que não sente confiança em posicionamentos de Bolsonaro como esse. Hoje observei no jornal O Globo vários dos colunistas reprovando a entonação do presidente eleito na entrevista ao Jornal Nacional, sobretudo na posição que ele teve contra a Folha de S.Paulo. Um fato a se registrar é que a maneira como Bolsonaro se apresenta em público é sem filtro. Ele é esse político que fala o que vem à cabeça. Ainda faltam dois meses para a posse, é preciso observar como será esse percurso. Não pega bem manter um discurso desse, inclusive como o do “kit gay”, entre a sociedade, entre as instituições que já em público criticaram e mostraram que a fala dele era falsa e também entre parte da comunidade internacional que possa vir a investir no Brasil e respaldar as reformas em 2019 e não veja com bons olhos posicionamentos públicos assim.

    FÁBIO VASCONCELLOS Vivemos um momento nas democracias contemporâneas e digitais, não só o Brasil, em que as instituições clássicas de mediação e controle, como a imprensa tradicional, disputam espaço com a cacofonia das conversas das redes sociais. É uma disputa por atenção. O canal que obtiver atenção tem grande chance de fazer sua mensagem chegar ao público. São dispositivos que dão aos políticos uma capacidade notável de se comunicar diretamente com a sua audiência, passando por cima dos veículos tradicionais que fazem essa mediação com a sociedade. Dentro dos estudos de comunicação política, temos chamado isso de neopopulismo, que utiliza recursos digitais para fazer esse tipo de comunicação, evitando ser contraposto por outros veículos. Pelos dois dias seguintes à vitória de Bolsonaro, parece que ele vai adotar essa estratégia de comunicação direta no governo. Um sinal foi que ele deu o primeiro pronunciamento após ser eleito no Facebook, não à imprensa. Ainda está muito no início, pode ser ainda rescaldo da campanha, mas acho que Bolsonaro não vai abandonar esse método, percebeu que aí ele tem muito poder para transmitir sua interpretação dos fatos.

    Como isso afeta a instituição da Presidência da República?

    CAMILA ROMERO No Brasil, o presidente da República, em geral, é muito forte do ponto de vista institucional e dos recursos que controla. O governo federal em geral é poderoso também pela sustentação que dá aos governos estaduais e locais, detém recursos, cargos, a burocracia que produz políticas públicas. São aspectos do exercício da Presidência que, por enquanto, não vão ser abalados ou postos em risco com alguns discursos de Bolsonaro. Embora o presidente seja forte, ele precisa ter apoio e respaldo, principalmente no Legislativo, para governar. Bolsonaro tem uma aliança expressiva de partidos que já sinaliza apoio e respalda esse discurso sobre costumes e valores, então falas assim não devem abalar o apoio inicial desses partidos que deverão estar coligados ao futuro governo. Os desgastes vão se construindo aos poucos. Reiterar no governo posicionamentos e discursos que faziam sentido em uma agenda eleitoral pode criar alguns abalos nas relações com o Legislativo ou diante da opinião pública. Há uma reticência generalizada em relação a ele, e os desgastes podem se acumular com o tempo e se tornar um problema para o presidente. Um problema porque, para governar, é necessário ter uma base.

    FÁBIO VASCONCELLOS É uma forma de comunicação perigosa, não tem só lados positivos. Não sabemos bem se é algo feito por Bolsonaro, pelos seus filhos ou por profissionais de comunicação. É possível que as falas ganhem, na ponta, outras interpretações, não se controla totalmente. Também há críticas e ataques nos seus posts, a audiência não é passiva, existem opositores criando uma discussão nas timelines. Do ponto de vista institucional, é complicado, pois provavelmente será um presidente da República que vai evitar confrontos diretos com veículos que o contestam e podem cobrá-lo, pois nesses veículos existem profissionais que entendem de determinados assuntos e têm capacidade para insistir que Bolsonaro fale sobre assuntos que ele prefira evitar no futuro governo.

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