Ir direto ao conteúdo

Qual o papel dos mentores na formação universitária

Contato com figura experiente pode proporcionar visão ampliada da carreira, inspiração e apoio emocional

É comum que estudantes universitários atravessem os anos da sua graduação sem qualquer contato com uma figura mais experiente a não ser na sala de aula. O apoio conhecido como mentoria tem valor profissional e emocional, mas a prática ainda é pouco difundida.

Nos Estados Unidos, pesquisas mostram que a mentoria ainda tem muito para avançar. Já no Brasil, ainda são poucas as instituições de ensino superior que oferecem esse tipo de serviço. O conceito é um pouco mais familiar no âmbito das empresas e dos negócios.

As universidades brasileiras que buscam eliminar esse distanciamento vêm criando canais para o contato extra-aula com professores ou profissionais da área. Nesse contexto, estes se tornam mentores, idealmente acompanhando um aluno ou grupo de alunos por um período de tempo.

Dependendo da instituição, o processo tem características distintas: pode ser individual ou em grupo, com um professor, ex-aluno ou mesmo um profissional de fora da instituição. O mais importante em todos os casos é o contato entre experiente e iniciante.

Visão e inspiração

O mentor traz o olhar “de dentro” da profissão, ajuda a enxergar a carreira de forma mais global, contribui para o pensamento de uma estratégia de carreira e oferece suporte e segurança emocional. Além de tudo isso, o mentor inspira e motiva, podendo servir como exemplo em quem o estudante se espelha.

“A mentoria ajuda a parar para pensar no significado das escolhas que se colocam, de forma mais alargada, mais ampliada”, afirmou Patrícia Bellodi, psicóloga que coordena o programa de mentoria da Faculdade de Medicina da USP, ao Nexo.

Em universidades estrangeiras, nos Estados Unidos e Reino Unido, já existem mentorias mais direcionadas, como as que atendem estudantes mulheres, negros ou LGBT. É o caso do Women’s Launch Pad, dentro da Universidade Brown, em Providence, no estado americano de Rhode Island, que conecta alunas e ex-alunas que atuam profissionalmente.

Outro exemplo é a universidade Duke, que conta com apoio a estudantes LGBT no âmbito de seu Centro de Diversidade Sexual e de Gênero.

Melhores chances

Alunos que tiveram acesso a um mentor durante a universidade têm duas vezes mais chances de serem empenhados na profissão. O dado vem de um levantamento de 2014 do Instituto Gallup realizado nos Estados Unidos.

Em um artigo na época, Brandon Busteed, executivo do Gallup para a área educacional, lamentou que muitos estudantes não tinham acesso aos benefícios da mentoria. “É talvez a maior oportunidade perdida na história do ensino superior”, afirmou.

Em outra pesquisa do mesmo instituto, realizada em 2018, constatou-se que 64% dos estudantes de graduação que tiveram um “mentor que o ajudou a perseguir seus objetivos e sonhos” durante a faculdade afirmaram que este era um professor. Entre estes, 43% vinham da área de artes e humanidades, 28% de ciências e engenharia e 20% das ciências sociais.

A proporção não é universal. Quando se olha para os dados, é possível verificar que estudantes pertencentes a minorias não tiveram o mesmo perfil de mentor. Aqui, o número cai para 47% (e o de estudantes brancos sobe para 72%). Nesse recorte, as principais fontes de mentoria vêm de, em primeiro lugar, amigos e depois, de funcionários da instituição.

Questões práticas

O programa de mentoria da City University, em Londres, lista, entre os benefícios da mentoria, o “desenvolvimento da confiança e habilidades de ‘networking’” e “apoio individual com preparação de currículo e habilidades de entrevista”.

Para Jandara Souza, consultora de carreiras da PUC-RS, o contato com um profissional com mais experiência pode beneficiar necessidades específicas do estudante. “Temos uma mentora que é psicóloga e tem carreira mais autônoma, então ela atendeu uma mentorada com esse perfil, que buscava uma carreira mais autônoma. Ela ajudou a aluna a dar andamento a seu projeto”, afirmou ao Nexo.

Na universidade, os encontros entre alunos e mentores podem ser presenciais ou por Skype. A frequência é mensal. Segundo Souza, é importante entender a diferença entre mentoria e aconselhamento de carreira, que seria para quem ainda não tem certeza sobre a profissão que quer seguir. “A mentoria é para quem já sabe qual carreira quer”, declarou.

Lado emocional

O site da universidade Duke, nos Estados Unidos, explica que o mentor, para além de questões profissionais práticas, pode “dar encorajamento emocional durante um período desafiador”.

Este é um dos propósitos do programa que, desde 2000, promove encontros entre grupos de estudantes e profissionais na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo. Segundo Bellodi, que é coordenadora, trata-se de “um ambiente de aceitação e não-julgamento, de descompressão, o que é importante em um curso tão intenso como a medicina”.

“A jornada do estudante universitário é uma ruptura em relação à vida anterior. Tem de desenvolver um monte de habilidades novas, se relacionar de um jeito diferente com as pessoas, com o conteúdo”, disse ao Nexo. A mentoria serve para acolher o estudante nesse caminho.

“Os três elementos mais potentes ligados a sucesso de longo prazo entre graduados se relacionam a apoio emocional”, escreveu Busteed, do Gallup. “Sentir que eles tinham um professor que os empolgava sobre aprender, que professores em sua faculdade se importavam com eles como pessoas e que eles tinham um mentor que os encorajava a perseguir seus objetivos e sonhos.”

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: