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Quais os passos de Bolsonaro na direção de Israel

Presidente eleito escolhe jornal conservador israelense para anunciar mudança de embaixada brasileira para Jerusalém e fechamento de embaixada palestina em Brasília

     

    O presidente eleito Jair Bolsonaro escolheu o jornal “Israel Hayom”, de perfil nacionalista e conservador, para dar sua primeira entrevista exclusiva a um órgão internacional de imprensa.

    A entrevista foi publicada na quinta-feira (1º), na capa da versão impressa e na home do site do jornal, o que demonstra o interesse do público israelense pela mensagem de Bolsonaro, especialmente em relação a dois temas centrais.

    Primeiro, o presidente eleito anunciou que pretende mover a embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém. Segundo, que pretende fechar a embaixada da Palestina em Brasília.

     

    Os dois assuntos são indissociáveis entre si. Além disso, ambos se conectam às raízes de um dos conflitos políticos, religiosos e militares mais intrincados do mundo, sobre os quais o Brasil teve pouca influência relativa até agora.

    O ‘problema’ de Jerusalém

    As fronteiras do Estado de Israel são objeto de disputa desde que o país foi criado, por uma resolução das Nações Unidas, em maio de 1948. Os limites atuais das fronteiras israelenses são resultado não apenas dessa resolução, mas também de conflitos com países vizinhos nos anos que se seguiram.

    Uma das disputas diz respeito precisamente a Jerusalém. A cidade é sagrada tanto para os judeus quanto para os cristão e os muçulmanos. Apesar disso, Israel ocupa a cidade inteira desde 1967, o que é considerado ilegal pela ONU.

    Dada a disputa, nenhum país do mundo estabeleceu sua embaixada em Jerusalém, preferindo, em vez disso, a cidade de Tel Aviv. A situação mudou entretanto em dezembro de 2017, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, mudou a embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém, fortalecendo os laços com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, do partido nacionalista e conservador Likud.

    Além dos EUA, a Guatemala estabeleceu embaixada em Jerusalém depois disso. E o Paraguai também mudou sua embaixada em maio de 2018, mas voltou atrás da decisão em setembro deste ano, por decisão do novo presidente paraguaio, Mario Abdo Benítez, que recém-assumira seu mandato. Quando propôs a mudança na ONU, em 2017, Trump recebeu voto contrário de 128 países. Os únicos apoios vieram de Micronésia, Palau, Nauru, Togo, Ilhas Marshall, Guatemala e Honduras, além de Israel.

    A embaixada da Palestina

    A Embaixada da Palestina em Brasília foi inaugurada em fevereiro de 2016. Agora, Bolsonaro diz que vai removê-la. A declaração, em si, é confusa. Primeiro, o presidente eleito se queixa da localização da embaixada, para, em seguida, dizer que ela simplesmente não deveria existir.

    “Sobre a Embaixada da Palestina, ela foi construída muito perto do palácio presidencial. Nenhuma embaixada pode estar tão próxima do palácio presidencial, então nós pretendemos removê-la. Não tem outro jeito, na minha opinião. Além disso, os palestinos precisam primeiro ter um Estado para ter direito a uma embaixada”, disse Bolsonaro ao Israel Hayom.

    O Brasil reconhece a Palestina como um Estado desde 2010. O terreno para a construção da Embaixada havia sido doado (como acontece com as embaixadas de todos os outros países em Brasília) em 1998.

    A construção está localizada no lote 46 do Setor de Embaixadas Norte de Brasília, setor destinado precisamente às embaixadas.

    Sobre o reconhecimento da Palestina como um Estado, há controvérsias. O Conselho de Segurança da ONU – formado por EUA, Reino Unido, França, Rússia e China, como membros permanentes com poder de veto, e outros dez temporários que se revezam – nunca aprovou o reconhecimento do Estado palestino. Mas a Assembleia Geral da ONU, sim.

    A saída foi declará-lo “Estado-membro observador” nas Nações Unidas, condição semelhante à do Vaticano. A bandeira palestina tremula na sede da ONU, em Nova York, desde setembro de 2015. Para os que apoiam a causa, é uma conquista histórica. Para os que se opõem, um erro.

    Lobby forte nos bastidores

     

    “O embaixador israelense no Brasil [Yossi Shelly] me visitou duas vezes esta semana, e eu sempre tive excelente relação com ele”, disse Bolsonaro na entrevista.

    A visita de Shelly nos primeiros dias logo após a vitória eleitoral de Bolsonaro em 28 de outubro dá conta da importância que o assunto tem para o governo israelense, e da disponibilidade do presidente eleito para tratar do tema.

    O assunto é prioridade para Israel porque posições como a de Bolsonaro reforçam o coro de países que reconhecem como legítima a aspiração do atual governo israelense a transformar Jerusalém na capital do país, a despeito das resistências, ainda majoritárias.

    O próprio premiê Netanyahu disse a Bolsonaro, por telefone, que pretende estar na cerimônia da posse do novo governo, no dia 1º de janeiro de 2019, em Brasília. Se isso acontecer, será a primeira vez que um premiê israelense visita o Brasil desde 1948.

    Resultados esperados

     

    No plano internacional os gestos brasileiros têm como efeito imediato o alinhamento de Bolsonaro com a política externa de dois expoentes do conservadorismo de direita: Trump e Netanyahu. Os dois defendem uma postura dura de Israel nas disputas em curso com os palestinos que vivem na mesma região.

    No plano doméstico, a decisão agrada, primeiro, à parte da comunidade judaica que apoiou a campanha eleitoral de Bolsonaro. Foi na Hebracia do Rio de Janeiro que ele proferiu um de seus mais virulentos discursos de campanha, quando, em abril de 2017, ofendeu quilombolas, indígenas e outras pessoas, no que se tornaria um padrão de discurso político.

    Além da comunidade judaica, o gesto de Bolsonaro agrada outro nicho eleitoral, o dos evangélicos, que, no Brasil, está cada vez mais próximo dos símbolos do judaísmo.

    Bolsonaro, por exemplo, usa o chanukiá (candelabro de nove braços) como cenário de fundo em alguns de seus vídeos.

    Sobre isso, o rabino Michel Shlesinger, bacharel de direito pela USP, considerado um líder influente e moderado na comunidade judaica brasileira, disse o seguinte: “Existe uma conexão muito forte com Israel por parte dos evangélicos, sem dúvida. E isso nos aproxima, porque a comunidade judaica sente uma relação afetiva e espiritual muito grande com Israel. Nesse sentido a comunidade evangélica e judaica ficam próximas.” A declaração foi dada ao blog Inconsciente Coletivo, de Morris Kachani, no jornal O Estado de S. Paulo.

    Porém, disse Shlesinger, embora “alguns símbolos judaicos tenham sido incorporados ao ritual de parte das igrejas evangélicas [...] obviamente, são religiões diferentes, com posicionamentos diferentes em questões das mais variadas”.

    Edir Macedo, líder máximo da Igreja Universal do Reino de Deus, apoiador de Bolsonaro e presidente da TV Record, tem usado vários símbolos judaicos em suas celebrações.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que apenas a Guatemala seguiu a decisão dos EUA de mudar sua embaixada de Tel Aviv para Jerusalém. No entanto, o Paraguai também havia mudado sua embaixada de cidade, decisão que foi revertida posteriormente. A primeira versão deste texto também dava a entender que o Conselho de Segurança da ONU é formado apenas por seus membros permanentes, informação que foi precisada para indicar que além de EUA, Reino Unido, França, Rússia e China outros dez membros temporários participam da instituição. As informações foram corrigidas às 12h28 de 2 de novembro.

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