Ir direto ao conteúdo

Qual o foco de Paulo Guedes, superministro de Bolsonaro

Após eleição, economista indica corte de gastos e privatizações para reduzir dívida pública

     

    Desde as 19h21 de domingo (28), quando o Tribunal Superior Eleitoral confirmou que Jair Bolsonaro estava matematicamente eleito presidente da República, todas as atenções se voltaram para as palavras do capitão reformado e de assessores que já foram confirmados ministros do próximo governo.

    Depois de Bolsonaro, o mais disputado é Paulo Guedes, anunciado desde o início da campanha como o responsável pela economia em um eventual governo do capitão reformado. Guedes vai ocupar o Ministério da Economia, uma fusão da Fazenda, do Planejamento e da Indústria e Comércio.

    A curiosidade sobre a fala do guru econômico se deve, principalmente, a dois motivos. O primeiro é que Bolsonaro, em várias oportunidades, admitiu publicamente que não entende do assunto e que o responsável por seus planos e atos no cargo seria Guedes. A transferência de responsabilidade deu grandes poderes e influência ao economista.

    O outro motivo é que, assim como Bolsonaro, Guedes não detalhou vários de seus planos para a economia do Brasil. O que se sabe sobre as ideias do economista são linhas gerais expostas no programa de governo protocolado no Tribunal Superior Eleitoral e algumas entrevistas concedidas desde o início da campanha. Há mais dúvidas do que certezas.

    Guedes passou parte da campanha recluso, sem falar com a imprensa nem participar de debates ou eventos públicos. O afastamento foi um pedido do próprio Bolsonaro, depois que uma fala de Guedes sobre a recriação da CPMF — tributo sobre movimentação financeira que vigorou no Brasil entre 1998 e 2006 — repercutiu mal entre aliados e analistas do mercado financeiro. Desde 19 de setembro, foram raras as falas públicas do economista apelidado de “Posto Ipiranga”.

    O assessor de Bolsonaro é o grande responsável pela conversão do presidente eleito ao liberalismo econômico. Antes de Guedes, Bolsonaro votou contra o Plano Real e contra medidas de ajuste fiscal em seus anos como deputado.

    Guedes estudou na Universidade de Chicago, um dos maiores centros do liberalismo econômico mundial. E convenceu Bolsonaro a incluir medidas de abertura econômica e de diminuição do tamanho do Estado em seu programa de governo.

    Logo após a fala inaugural do futuro presidente da República, feita no domingo (28), Guedes concedeu uma entrevista coletiva improvisada na própria casa de Bolsonaro. Nela, indicou quais serão suas prioridades e comentou falas anteriores de Bolsonaro e de outros aliados sobre economia.

    A preocupação com as contas públicas

    Durante a curta e conturbada entrevista na casa de Bolsonaro, Guedes deu algumas diretrizes do que pretende implantar como chefe da economia do Brasil.  O diagnóstico básico é que a crise nas contas públicas é o principal problema do país e precisa ser resolvido o quanto antes.

    “Se o principal problema é descontrole dos gastos públicos, que corrompeu a política e travou o crescimento econômico, nós vamos controlar os gastos públicos. Então o foco é o controle dos gastos públicos”

    Paulo Guedes

    assessor econômico de Jair Bolsonaro

    Guedes quer reformar o Estado brasileiro, e isso significa cortar gastos. Na avaliação do economista, o Brasil vem de décadas de “descontrole” dos gastos públicos, o que fez a despesa do governo aumentar como proporção do Produto Interno Bruto.

    O Brasil terá deficit primário perto dos R$ 150 bilhões em 2018. Isso significa que, mesmo sem contar o gasto com juros da dívida pública, falta esse montante para fechar a conta. O economista repetiu que é factível zerar o deficit primário em um ano.

    Reforma da Previdência

    É a reforma prioritária do governo Bolsonaro na economia. Em 2017, o governo gastou, com a Previdência de todos os setores, cerca de R$ 685 bilhões, o que corresponde a mais de 50% de todos os gastos do governo no ano.  Esse gasto com Previdência cresce ano após ano por causa da inclusão de novos aposentados e pensionistas.

    Ainda não está claro que tipo de reforma Bolsonaro vai propor: se ela será focada no setor público, se afetará militares ou o quanto se pretende aproveitar do projeto do governo Temer. Paulo Guedes só disse que ela é a prioridade.

    Uma hipótese que ganhou força é tentar aprovar a reforma proposta por Temer ainda em 2018, mas para Guedes ela não seria suficiente. O sonho do economista é a implantação de um modelo de capitalização da Previdência, nos moldes do que existe no Chile. Nele, cada cidadão contribui para uma conta própria e terá aposentadoria proporcional ao que poupou.

    O quanto o governo vai economizar com a reforma da Previdência depende, obviamente, de que proposta vai ser aprovada. Mas a ideia é que uma reforma controle o crescimento dos gastos públicos nos próximos anos. É uma maneira de reduzir o crescimento acelerado da dívida pública, alimentado anualmente pelos deficits do governo e pelos juros.

    Privatizações

    O programa de governo de Bolsonaro, escrito por Paulo Guedes, era o mais ambicioso entre os candidatos no quesito privatização. O economista chegou a projetar a arrecadação de R$ 2 trilhões vendendo empresas e imóveis do governo federal.

    Diferentemente da reforma da Previdência, que Guedes quer fazer imediatamente, o plano é fazer as privatizações de forma programada ao longo do tempo. Com isso, o economista quer diminuir as despesas do Estado na manutenção das empresas e ainda arrecadar recursos com as vendas.

    Diminuição de despesas com juros

    Paulo Guedes acha que o Brasil gasta muito dinheiro com os juros da dívida pública. O montante pago depende de algumas variáveis. O tamanho da dívida é o primeiro, mas importa também a velocidade de crescimento. Se os credores acreditam que a dívida está crescendo rápido demais e o país terá problemas para pagá-la, vão cobrar mais juros para emprestar dinheiro. A taxa básica de juros também tem influência e, nesse momento, é a única variável favorável ao governo brasileiro.

    O economista de Bolsonaro repetiu no domingo que “o Brasil gasta um Plano Marshal” por ano com juros, em referência ao programa de reconstrução da Europa após a 2ª Guerra Mundial. Para reduzir o gasto com juros, ele quer, além de fazer as reformas que diminuam o crescimento da dívida, diminuir a dívida em si.

    O plano de governo fala na ideia de usar o dinheiro arrecadado com as privatizações para reduzir em 20% a dívida pública — que está em cerca de R$ 5,2 trilhões. Na terça-feira (30), Guedes admitiu também que pode vender reservas cambiais para diminuir o tamanho da dívida, mas só em casos excepcionais.

    O Brasil mantém reservas internacionais em dólar para se proteger de crises externas. Atualmente, o país acumula US$ 380 bilhões. O dinheiro é usado para ajudar o Banco Central a evitar altas bruscas no valor do dólar.

    “Se o dólar chegar a R$ 5, vai ser muito interessante, porque vamos vender US$ 100 bilhões. São R$ 500 bilhões. Na mesma hora, vai recomprar dívida interna. Chama-se política de esterilização”

    Paulo Guedes

    assessor econômico de Jair Bolsonaro

    Primeiras polêmicas

    Com apenas dois dias de governo eleito, Paulo Guedes já teve de lidar com alguns desencontros com a imprensa e com futuros companheiros de governo. O primeiro foi quando, respondendo a uma jornalista argentina, disse, exaltado, que o Mercosul não seria uma prioridade no governo Bolsonaro.

    Ele disse que o Mercosul é uma “prisão cognitiva”, uma aliança “totalmente ideológica”. “Você só negocia com gente que tiver inclinações bolivarianas.” No dia seguinte, Bolsonaro disse em entrevista que não quer implodir o Mercosul, mas que o bloco está desvalorizado.

    Na terça-feira (30) Guedes teve de rebater declarações que vieram de dentro do governo. No sábado, ainda candidato, Jair Bolsonaro falou em criar uma meta para o dólar. A ideia representaria o fim do tripé macroeconômico que existe no Brasil desde o fim da década de 1990 e é baseado em câmbio flutuante, meta de superávit primário nas contas públicas e metas para a inflação.

    Na segunda (29), o futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, disse que não haverá meta, mas sim previsibilidade. Apesar de amenizada, a proposta continuou sendo interpretada pelo mercado como uma interferência na política de câmbio flutuante. Paulo Guedes desautorizou o colega.

    “Houve gente do próprio [futuro] governo falando que não tem pressa de fazer reforma da Previdência. Ele [jornalista que fez a pergunta] está dizendo que o Onyx, que é coordenador político, falou de banda cambial. Ao mesmo tempo, está dizendo que o Onyx falou que não tem pressa na Previdência. Aí o mercado cai. [Os agentes do mercado] Estão assustados por quê? É um político falando de economia. É a mesma coisa do que eu sair falando de política. Não dá certo, né?”

    Paulo Guedes

    assessor econômico de Jair Bolsonaro

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: