Ir direto ao conteúdo

Como a criação de um cargo pode mudar as cenas de sexo

Posto de ‘coordenadora de intimidade’ incorporado pela HBO tem a missão de manter alguém atento quando se exige que atores se exponham

    Temas
     

    Desde 2017, o movimento #MeToo destituiu de seus postos homens poderosos de diversas áreas, devido a acusações de assédio sexual. Apesar de ter se espalhado, ele começou em Hollywood, contra Harvey Weinstein e o machismo na indústria cinematográfica.

    Há indícios de que as reverberações da onda de denúncias vão além do afastamento dos homens acusados: culturalmente, é possível que uma das consequências da era #MeToo seja passar a filmar cenas de sexo de outra maneira – uma que respeite e escute mais as atrizes.

    Isso deve ocorrer se o padrão de ter uma “coordenadora de intimidade” no set nestas ocasiões se disseminar pela indústria.

    A função foi criada pelo canal pago americano HBO, após uma exigência da atriz Emily Meade, que interpreta uma atriz pornográfica da década de 1970 na série “The Deuce”.

    A coordenadora de intimidade realiza uma mediação entre atores, diretores, produtores e demais membros da equipe. Seu trabalho inclui revisar roteiros, facilitar discussões em grupo sobre as cenas de sexo que serão gravadas e comunicar atores a respeito delas, verificando seus limites pessoais para construir um consentimento seguro e informado sobre a cena e, de outro lado, advogando a favor desses limites junto aos produtores e diretores.

    Emily Meade comparou a presença da coordenadora contratada a de uma mãe ou irmã no set.

    É ela “quem pergunta ao diretor se [a atriz] não pode estar de calcinha para certos takes, que se preocupa em colocar um acolchoado no chão se ela tiver que ficar ajoelhada, conversa, ouve as preocupações e as leva ao diretor”, resumiu a edição de 25 de outubro de 2018 da newsletter do Canal Meio.

    Quando se preparava para gravar uma cena de sexo oral para a série, Meade começou a se preocupar com o fato de ter uma imagem sensível de si como essa solta no mundo.

    Sendo mulher em uma indústria sexualizada, “suas preocupações certamente não eram novas. Mas a percepção de que ela poderia fazer algo a respeito era uma novidade trazida pela era do #MeToo”, diz uma reportagem publicada pela edição americana da revista Rolling Stone. 

    A função foi inaugurada na HBO nas gravações de “The Deuce”, com o objetivo de tornar as cenas de sexo seguras e respeitosas para todos os profissionais envolvidos.

    A primeira coordenadora contratada, Alicia Rodis, consultou e foi treinada por psicólogos, advogados especializados na área do entretenimento, assistentes sociais e profissionais do sexo. Uma consultoria semelhante sempre foi feita, por exemplo, para coreografar cenas de luta.

    Coordenadores de intimidade existem, na realidade, há algum tempo. Rodis faz parte da Intimacy Directors International, uma organização fundada em 2016 que busca normatizar parâmetros e práticas na execução de cenas de sexo no audiovisual e nos palcos. No teatro, o cargo já existe há mais tempo do que no cinema e na TV.

    Recentemente, a HBO adotou a contratação de um coordenador de intimidade como política para todos os programas e filmes com cenas íntimas que produzem: esse tipo de profissional já participou também das gravações da série “Crashing” e do filme “Deadwood”, e outros estão sendo treinados para produções futuras.

    O problema com a forma de filmar sexo

    No cinema e na televisão, cenas íntimas muitas vezes expõem e sexualizam o corpo das atrizes de maneira desnecessária e desproporcional com relação a seus colegas de cena homens.

    Quando cabe às próprias atrizes interromper as filmagens para informar à equipe que se sentem desconfortáveis, expostas demais ou até com frio, é muito provável que elas não o façam devido ao receio de prejudicar o fluxo de trabalho ou de serem vistas como “reclamonas”.

    “Há tanta dinâmica de poder nos sets, tanta pressão, e uma ideia de que [como ator] você só aguenta e faz”, disse a coordenadora de intimidade Alicia Rodis à Rolling Stone.

    Membros da equipe técnica normalmente não estão atentos a esses detalhes. Ter uma pessoa que trate especificamente dessas questões torna esse cuidado uma parte instituída do trabalho de cena.

    Críticas anteriores à HBO

    Apesar da demonstração de sensibilidade ao movimento de combate ao assédio na indústria, o criador da série “The Deuce” da HBO manteve James Franco na série após várias acusações de assédio contra o ator e diretor terem surgido no início de 2018.

    A série “Game of Thrones”, um dos maiores hits do canal, também já foi alvo de críticas de sexismo por sua representação das personagens femininas, objetificação e cenas de estupro consideradas gratuitas.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!