As redes sociais como ferramenta de pressão no Congresso

Whatsapp, Facebook e Twitter surgem como novas arenas de convencimento e até de constrangimento sobre parlamentares

     

    O uso das redes sociais para mover campanhas públicas de difamação foi uma das marcas da campanha eleitoral de 2018. Perfis de políticos e de outras personalidades populares mobilizaram exércitos de seguidores — pessoas reais e robôs — para atacar desafetos.

    Jornalistas foram alvo preferencial desses ataques em massa. Agora, passada a disputa eleitoral, essa estratégia de pressão e de constrangimento virtual pode se voltar contra deputados federais e senadores.

    É o que disse Kim Kataguiri, eleito deputado federal pelo DEM de São Paulo, na segunda-feira (29), em entrevista ao portal de notícias UOL. Para o jovem deputado, ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre) e ativo usuário da redes, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, poderá fazer uso de suas conexões digitais para pressionar parlamentares a partir de 1º de janeiro.

    “Acredito que a tendência é que ele faça, que ele se utilize das redes sociais, suas redes de comunicação para expor os parlamentares que votarem contra para tentar constrangê-los de alguma maneira”

    Kim Kataguiri

    deputado federal eleito (DEM-SP), em entrevista ao portal UOL no dia 29 de outubro de 2018

    Dos cartazes nos muros aos posts na internet

    A estratégia de constranger parlamentares publicamente, pressionando-os a votar de uma ou de outra maneira, não nasceu com as redes sociais.

    Meios impressos, como cartazes e outdoors, sempre foram usados por grupos de pressão, como sindicatos, associações e centrais sindicais, para mostrar o rosto de parlamentares que votam contra sua pauta.

    A ideia por trás da estratégia é dizer ao parlamentar que o eleitor sabe quem ele é e como ele se posiciona. Por trás dessas campanhas, está implícita a mensagem de que, se não votar “corretamente”, o parlamentar em questão perderá votos na eleição seguinte.

    O uso das redes para essa finalidade segue o mesmo padrão, mas numa nova lógica. “Se a gente não aprender essa nova lógica de utilizar as redes sociais, de trabalhar com modo de opinião, não vai conseguir se reeleger”, disse Kataguiri ao UOL.

    Redes multiplicam alcance e intensidade da pressão

    Jornais e cartazes têm tiragens muito inferiores ao alcance de posts de internet. Sobretudo quando publicados ou impulsionados por perfis populares.

    Bolsonaro, por exemplo, tem mais de 2 milhões de seguidores no Twitter. É muito se comparado ao atual presidente, Michel Temer, que tem menos da metade disso (990 mil). Mas é pouco se comparado ao presidente Donald Trump, que, com 55 milhões de seguidores, inaugurou uma escola de uso político do Twitter — publicando frequentemente mensagens iradas, dirigidas até mesmo a presidentes de outros países.

    Bolsonaro já declarou mais de uma vez ver em Trump um modelo. Ambos são expoentes da extrema direita populista que cresce no mundo. E ambos usam suas contas pessoais para publicar mensagens políticas.

    Esses post são frequentemente seguidos de comentários, aprovações e reproduções por parte de milhares de apoiadores. 

    “Se o jogo com o novo Congresso for hostil, as redes têm de fato esse potencial de expor as pessoas de forma perigosa”, disse ao Nexo José Antônio Gomes de Pinho, pós-doutorando na FGV de São Paulo e autor do livro “Artefatos Digitais para a Mobilização da Sociedade Civil”.

    “Essa ideia de usar uma tropa de choque para, como se diz, ‘fazer a caveira’ de alguém é de fato uma possibilidade. A campanha eleitoral já mostrou o quanto esse jogo nas redes sociais pode ser barra pesada”, afirmou Pinho.

    Ataques também à imprensa e ao eleitor

    Além do uso das redes para pressionar políticos, existe também o uso das redes por políticos interessados em confrontar eleitores.

    O deputado federal Marcio Labre — membro do PSL, mesmo partido de Bolsonaro — deu um exemplo disso no domingo (29). Logo após a vitória de Bolsonaro, Labre publicou uma mensagem desrespeitosa e ameaçadora quando interpelado no Twitter:

     

    A jornalista do El País Marina Rossi reproduziu o post do deputado e, em seguida, foi bloqueada por ele.

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