O discurso de Bolsonaro em 6 eixos. E o que eles sinalizam

Presidente eleito fez três pronunciamentos após a vitória. Prometeu respeitar a Constituição, a democracia e as liberdades. E fez acenos ao mercado. O ‘Nexo’ contextualiza as declarações

Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil neste domingo (28). Teve 55,13% dos votos válidos, derrotando o petista Fernando Haddad no segundo turno. Após a confirmação da vitória, fez três pronunciamentos:

  • primeiro, uma transmissão em página no Facebook
  • depois, falou ao vivo a emissoras de televisão
  • por fim, uma nova transmissão via Facebook

O presidente eleito estava em sua casa, no Rio de Janeiro, em um condomínio na Barra da Tijuca, zona oeste, cercado por um forte aparato de segurança, algo que se tornou comum desde que foi alvo de um atentado a faca em Juiz de Fora (MG) em 6 de setembro, durante a campanha.

Nas transmissões pelas redes sociais, Bolsonaro esteve ao lado da sua esposa, Michelle Bolsonaro, e de uma intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais). Foram falas mais curtas, nas quais se dirigiu ao eleitorado e reiterou posicionamentos contrários à esquerda e de defesa da família.

No primeiro vídeo, havia quatro livros na mesa à sua frente: a Constituição Federal de 1988, a Bíblia, “Memórias da Segunda Guerra Mundial”, escrito pelo ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill, e “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, best-seller do escritor Olavo de Carvalho, apoiador de Bolsonaro. No segundo vídeo, disse que se dirigia aos apoiadores que estavam em frente ao seu condomínio celebrando a vitória.

Durante a fala às emissoras de TV, adotou um tom mais institucional e leu um discurso. Estava acompanhado de diversos apoiadores — entre eles o senador Magno Malta (PR-ES), que fez uma oração antes do pronunciamento. O presidente eleito discursou sobre temas como democracia, Constituição, medidas econômicas e política externa.

Abaixo, o Nexo traz os pontos mais relevantes dos três pronunciamentos de Bolsonaro, que assume o governo em 1º de janeiro de 2019.

A democracia

“Faço de vocês minhas testemunhas de que este governo será um defensor da Constituição, da democracia e da liberdade”

Jair Bolsonaro

presidente eleito do Brasil

Bolsonaro foi cobrado ao longo da campanha por declarações durante a eleição e do passado. O capitão reformado é um político de extrema direita que defende a ditadura militar, exalta torturadores do período, ataca ativistas e imprensa, faz apologia de armas de fogo e não reconhece direitos de minorias. Seu discurso radicalizado ganhou projeção em meio à crise política que toma conta do país pelo menos desde 2013. Segundo analistas, tais atitudes apontam para um possível governo autoritário.

No discurso da vitória, Bolsonaro sinalizou que pretende seguir as leis e garantias democráticas. Foi um dos principais temas de seu pronunciamento às TVs. É uma tentativa de evitar novas críticas nesse sentido, diante do temor de que seu governo vai agir contra as instituições e liberdades da população. Bolsonaro busca se mostrar como alguém que vai respeitar as regras do jogo.

A união nacional

“O que eu vou buscar é seguindo o exemplo do patrono do Exército brasileiro, Duque de Caxias: buscar pacificar o nosso Brasil. Sem ‘eles contra nós’ ou ‘nós contra eles’”

Jair Bolsonaro

presidente eleito do Brasil

Ele mencionou um célebre militar da história brasileira, Duque de Caxias, que viveu no século 19. Depois de uma eleição polarizada, Bolsonaro quis se mostrar como “um presidente de todos”, que irá unir a população e comandar “uma só nação”, atenuando o discurso agressivo que frequentemente usou contra seus opositores. Dias antes da votação, chegou a dizer que iria “varrer do mapa os bandidos vermelhos”.

Buscou um tom mais institucional e patriótico, a partir de suas referências militares, de um governante que promete atender a todos. Mas Bolsonaro também disse, quando falou na internet: “não poderíamos mais continuar flertando com o socialismo, com o comunismo, com o populismo e com o extremismo da esquerda”. Nas suas falas, ele não mencionou diretamente o adversário Fernando Haddad nem o PT.

A economia

“O governo federal dará um passo atrás, reduzindo a sua estrutura e a burocracia, cortando desperdícios e privilégios”
“Quebraremos o ciclo vicioso do crescimento da dívida, substituindo-o pelo ciclo virtuoso de menores deficits, dívida decrescente e juros mais baixos. Isso estimulará os investimentos, o crescimento e a consequente geração de empregos”

Jair Bolsonaro

presidente eleito do Brasil

No pronunciamento à imprensa, Bolsonaro tratou diretamente sobre planos para a economia. Ele falou em uma agenda de corte de gastos públicos e de incentivo à iniciativa privada como caminho para gerar crescimento econômico. O seu principal assessor na área e anunciado como futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes, defende medidas ultraliberais para o governo.

Embora não tenha mencionado nos discursos, Bolsonaro defende uma reforma da Previdência como medida para equilibrar as contas públicas — demanda também feita por grandes investidores e empresários. Mudar as regras de pensões e aposentadorias é uma medida altamente impopular e, portanto, um desafio político para qualquer presidente.

Deputado federal desde 1991, Bolsonaro nem sempre votou a favor do livre mercado e de medidas liberais que defende agora. Seu discurso nessa linha começou a ser adotado quando ele começou a trabalhar pela candidatura à Presidência, a partir de 2014.

Em linhas gerais, é um receituário liberal que vem sendo tentado pelo governo do atual presidente, Michel Temer, desde maio de 2016, mas sem sucesso em todas as frentes. Temer não conseguiu emplacar a reforma da Previdência, mas aprovou a reforma trabalhista e um teto de gastos públicos.

A religião e a família

“Nosso slogan eu fui buscar naquilo que muitos chamam de caixa de ferramenta para consertar o homem e a mulher, que é a Bíblia Sagrada. Fomos em João 8:32, ‘e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará’”

Jair Bolsonaro

presidente eleito do Brasil

Nos dois primeiros pronunciamentos, Bolsonaro citou esse versículo da Bíblia como um lema pessoal e da sua campanha. A religiosidade apareceu em diversos momentos. Ele agradeceu a Deus, a orações que recebeu e disse que seu compromisso em respeitar a democracia é “um juramento a Deus”. Afirmou que a recuperação da facada que sofreu foi “obra de Deus” e “milagre” da equipe médica que o atendeu. Antes de ler seu discurso da vitória a emissoras de TV, Bolsonaro participou de uma oração conduzida pelo senador Magno Malta e transmitida ao vivo.

Bolsonaro destacou em diversos momentos a presença da sua esposa, algo que não vinha acontecendo durante a campanha, já que ela pouco aparecia publicamente. Em todos os pronunciamentos, Michelle Bolsonaro apareceu ao lado do presidente eleito. Bolsonaro também afirmou que seu governo vai se contrapor ao “desgaste dos valores familiares” e que “a família estará em primeiro lugar no Ministério da Educação”. Essas posições são criticadas por sugerirem uma possível intromissão de assuntos religiosos no Estado e na educação.

As menções a Deus e à família fazem parte de uma retórica de Bolsonaro que envolve questões morais e lhe garantiu apoio de grande parte do eleitorado e alguns líderes cristãos, com uso, inclusive, de informações falsas, como a crítica ao chamado kit gay, algo que nunca existiu como política pública. Nos discursos, ele reforçou essa imagem de defensor da moralidade, de valores cristãos e familiares, inclusive na política educacional do governo.

O federalismo

“Outro paradigma que vamos quebrar: o governo respeitará, de verdade, a federação. As pessoas vivem nos municípios, portanto os recursos federais irão diretamente do governo central para os estados e municípios. Colocaremos de pé a federação brasileira”

Jair Bolsonaro

presidente eleito do Brasil

Bolsonaro mencionou a federação como uma das preocupações do seu futuro governo. É um sinal em resposta a críticas frequentes de que existem problemas no pacto federativo brasileiro, ou seja, que as funções e responsabilidades divididas entre governo federal, estadual e municipal geram prejuízos à população.

Ele afirma que irá repassar verbas diretamente aos estados e municípios, uma proposta que pode agradar a governadores e prefeitos, em geral dependentes de recursos federais.

O Brasil adota o sistema político federativo desde 1889. Nesse sistema, o país possui um governo nacional, mas unidades subnacionais possuem relativa autonomia e poderes próprios. No caso do Brasil, são os estados e municípios, com governos próprios.

A política externa

“Libertaremos o Brasil e o Itamaraty [Ministério das Relações Exteriores] das relações internacionais com o viés ideológico a que foram submetidos nos últimos anos. O Brasil deixará de estar apartado das nações mais desenvolvidas. Buscaremos relações bilaterais com países que possam agregar valor econômico e tecnológico aos produtos brasileiros”

Jair Bolsonaro

presidente eleito do Brasil

Ele reiterou a posição sobre política externa que havia defendido em seu programa de governo. Em suas falas após a vitória eleitoral, não citou nomes de países dos quais pretende se aproximar ou se afastar, embora indique que buscará sobretudo os mais desenvolvidos.

Em uma das transmissões via Facebook, disse que recebeu ligação de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, país e líder frequentemente elogiados por ele. Até o momento, Bolsonaro não indicou o nome do seu futuro ministro das Relações Exteriores.

Conforme vinha indicando na campanha, Bolsonaro defende uma visão das relações internacionais que privilegia acordos bilaterais, em detrimento de órgãos multilaterais ou integração regional. Posição semelhante à de Trump, por exemplo. Na sua fala, também indicou que as relações exteriores do Brasil vão se focar mais no lado econômico do que de integração ou influência internacional.

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