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Como fica o PSDB após a vitória de João Doria em São Paulo

Partido se mantém por mais quatro anos no comando do governo do estado que governa há mais de duas décadas

     

    João Doria foi eleito neste domingo (28) governador de São Paulo. Ele derrotou Márcio França (PSB), com 51,75% dos votos válidos contra 48,25%. Com a vitória do tucano, o PSDB conseguiu se manter por mais quatro anos no comando do estado que já governa desde 1995.

    O PSDB é um partido fundado em 1988, como dissidência do PMDB. Juntos, esses dois partidos governam São Paulo desde o período do processo de redemocratização brasileira.

    Governadores paulistas

    Franco Montoro (1983-1987)

    Eleito pelo PMDB. No ano seguinte que deixou o cargo, ajudou a fundar o PSDB.

    Orestes Quércia (1987-1991)

    Eleito pelo PMDB. Durante seu governo, dissidentes da sigla fundaram o PSDB em 1988.

    Antonio Fleury Filho (1991-1994)

    Eleito pelo PMDB, deu continuidade e apoio ao governo Quércia.

    Mário Covas (1995-2001)

    Eleito e reeleito pelo PSDB. Morreu em decorrência de um câncer quando ainda estava no cargo.

    Geraldo Alckmin (2001-2006)

    Vice de Covas, assumiu o governo e foi reeleito. Deixou o governo no final para concorrer à Presidência.

    José Serra (2007-2010)

    Eleito pelo PSDB. Ao sair do governo, também concorreu ao Palácio do Planalto.

    Geraldo Alckmin (2011-2018)

    Eleito e reeleito pelo PSDB. Deixou o governo no final para disputar a Presidência novamente.

    Empresário que vira prefeito

    Antes de disputar cargos eletivos, Doria atuava como empresário, liderando o Lide, uma companhia de eventos. Filiado ao PSDB, foi incentivado pelo então governador Geraldo Alckmin a disputar a Prefeitura de São Paulo nas eleições municipais de 2016.

    Com forte discurso antipetista, se apresentava como alguém de fora da política. Acabou eleito no primeiro turno, derrotando Fernando Haddad (PT), então prefeito que tentava a reeleição. Doria ficou no cargo pouco mais de um ano, período no qual já começou a projetar novos voos políticos.

    O desejo pela Presidência

    A vitória de Doria na cidade de São Paulo fez crescer as especulações em torno de seu nome sobre uma possível candidatura à Presidência da República nas eleições de 2018.

    Doria se dizia disposto a concorrer ao Planalto e agiu para se tornar conhecido nacionalmente. Mas isso causou atritos dentro do PSDB, inclusive com seu próprio padrinho político. Afinal, Alckmin também se preparava para disputar a Presidência.

    Com a máquina partidária na mão, Alckmin obteve a vaga de candidato presidencial. E Doria partiu então para a disputa ao governo de São Paulo.

    A campanha ao governo

    Ainda no primeiro turno, aliados de Alckmin reclamaram da atitude de Doria em razão do fenômeno do voto “Bolsodoria”: Jair Bolsonaro, candidato do PSL, para a Presidência, e Doria para o governo paulista.

    No estado em que governou por 13 anos, Alckmin obteve menos de 10% dos votos. Bolsonaro venceu, com 53% dos votos válidos.

    Enquanto a maior parte do eleitorado paulista rejeitou o PSDB no voto a presidente no primeiro turno, optou pelo candidato tucano na disputa estadual. Doria obteve 31,77% dos votos válidos, contra 21,53% conquistados por Márcio França, candidato do PSB que foi para o segundo turno.

    Atritos com Alckmin

    Dois dias depois da derrota no primeiro turno, Alckmin, que também é presidente nacional do PSDB, insinuou que Doria era traidor durante uma reunião com dirigentes do partido, em Brasília, da qual o agora governador eleito também participou. Em resposta, Doria disse que não guardava nenhum ressentimento.

    Sem Alckmin no segundo turno, Doria então declarou publicamente apoio à candidatura de Bolsonaro, sob o argumento de derrotar a esquerda. Doria chegou a ir até o Rio para se encontrar com o candidato do PSL, agora presidente eleito, mas não foi recebido.

    O tucano adotou um discurso parecido com o de Bolsonaro. Em entrevista concedida à rádio Bandeirantes no dia 2 de outubro, afirmou que, se eleito, a polícia paulista começaria a “atirar para matar”.

    Um novo PSDB

    Em seu primeiro discurso como governador eleito, Doria estava cercado apenas por tucanos do baixo clero do partido. Políticos como Alckmin e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não só estavam ausentes, como sequer ligaram para cumprimentá-lo pela vitória, segundo Doria afirmou em sua fala pública.

    Tanto FHC quanto Alckmin não declararam votos no segundo turno da eleição presidencial. O ex-presidente chegou a fazer críticas a Bolsonaro, mas não apontou apoio direto a Haddad.

    Doria disse que sua eleição mudará a correlação de forças no PSDB. Ele afirmou que o partido “precisa se sintonizar com o momento atual”. O tucano chamou ainda o partido de “seu”, ao afirmar que, a partir de 1º de janeiro, o PSDB terá um lado.

    “A partir de 1° de janeiro, no meu PSDB, acabou o muro. Não tem mais muro. Este será o novo PSDB, um partido que tem lado”

    João Doria

    governador eleito de São Paulo

    Doria tem se distanciado cada vez mais dos tucanos históricos. Além dos problemas que já teve com Alckmin, seu padrinho político, o agora governador teve um desentendimento com o ex-governador e ex-presidente do partido Alberto Goldman. Em 2017, Doria chamou o correligionário de “fracassado”. No segundo turno presidencial de 2018, Goldman declarou voto crítico em Haddad.

    O que significa a vitória de Doria

    Para o professor de ciência política da FGV (Fundação Getúlio Vargas) de São Paulo Marco Antonio Carvalho Teixeira, a vitória de Doria ao governo de São Paulo representa o primeiro passo para outro projeto político.

    “Doria está construindo a candidatura à Presidência para 2022. Se Bolsonaro realmente não quiser reeleição [ele já declarou não ser favorável a um segundo mandato], pode ser o nome desse grupo. Por isso, Doria, na atual circunstância, não cabe num PSDB social-democrata”, afirmou.

    O professor da FGV atribuiu a vitória de Doria à decisão do tucano de se associar à figura de Bolsonaro, o que, na sua avaliação, deve gerar ainda mais problemas internos no PSDB.

    “Doria venceu graças a uma estratégia que desconsiderou o interesse das lideranças do partido. Fez já descolada da campanha de Alckmin a sua campanha no primeiro turno e não esperou a posição do PSDB para declarar apoio a Bolsonaro”, disse.

    “Ele assumiu um discurso conservador por estratégia eleitoral. Desde da prefeitura, seu olhar é para Brasília. Quis se tornar o anti-Lula. Virou bolsonarista de ocasião”.

    Teixeira disse ainda que a eleição de Doria em São Paulo é ruim para o PSDB tradicional. “Vai ser preciso primeiro verificar como as feridas serão cicatrizadas. Como Alckmin [agora sem mandato] vai reagir a isso. Doria será um grande aliado de Bolsonaro. O PSDB fará oposição?”, questionou.

    “Tenho a impressão que Doria e alguns líderes como Alberto Goldman, Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Alckmin não são do mesmo PSDB”, disse o professor.

    Teixeira considera também que, para Doria conseguir se credenciar como candidato a cargos mais altos, terá de unir o partido. Segundo o professor, a saída mais fácil para Doria seria se desfiliar do partido.

    “Ele vai querer comandar o PSDB. Hoje detém o cargo mais influente, o de governo de SP. Tem cacife para isso [comandar os tucanos], mas o custo será alto”, disse. “Doria terá que levar o PSDB mais para a direita.”

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