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Segundo turno: quem se posicionou e quem ficou neutro

Com declarações explícitas ou insinuações, diferentes atores mandam mensagens na reta final da campanha presidencial de 2018

     

    Tradicionalmente, o segundo turno de qualquer eleição é o momento em que os candidatos derrotados no primeiro turno declaram apoio a um ou outro dos contendores que ainda permanecem na disputa.

    Na eleição presidencial que se encerra neste domingo (28), não foi diferente. Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) buscaram atrair para suas próprias candidaturas o apoio dos que ficaram pelo caminho.

    Até o último dia de campanha, houve novas adesões. As mais simbólicas ocorreram no campo petista, com declarações de apoio de Joaquim Barbosa e de Rodrigo Janot à campanha de Haddad, no sábado (27).

    Janot foi o Procurador-Geral da República que chamou o PT de “organização criminosa” no âmbito da Operação Lava Jato.

     

    O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, personagem central do julgamento do mensalão, foi outro que declarou apoio a Haddad, também pelo Twitter:

     

    O apoio de Barbosa é simbólico porque ele foi o relator, em 2012, do julgamento do mensalão, que mandou para a cadeia boa parte da cúpula petista. Ele se aposentou do Supremo e chegou a pensar em concorrer à Presidência em 2018. Mas desistiu.

    Movimento semelhante foi feito pelo apresentador da TV Globo Luciano Huck. Ele cogitou, mas também desistiu de concorrer ao Planalto. Só que, agora, diferentemente do ex-ministro do Supremo, ele se absteve no segundo turno: “Eu não me sinto representado por nenhum dos dois”, disse, se referindo a Bolsonaro e a Haddad.

    O argumento da ‘ameaça à democracia’

    Em relação a eleições anteriores, a dinâmica de apoios em 2018 teve pelo menos uma particularidade: o argumento – usado pelos dois lados, embora com maior ênfase pelo PT – de que a vitória do oponente representa um risco à democracia.

    Foi em torno desse argumento que Haddad tentou construir uma frente democrática e pluripartidária contra Bolsonaro – o único dos dois candidatos que, de fato, fez sua vida política elogiando a ditadura militar (1964-1985) e colecionando declarações sobre fechamento do Congresso, numa estratégia baseada na ambiguidade em relação à democracia, regime que ora ele ataca e ora diz respeitar.

    Grupos de advogados, escritores, músicos, psicólogos e políticos publicaram ao longo do segundo turno alguns manifestos contra Bolsonaro e a favor de Haddad.

    Um dos principais, chamado Democracia Sim, tinha 190 mil assinaturas até o sábado (27), incluindo nomes famosos como os músicos Gilberto Gil, Caetano Veloso, Mano Brown, o ex-chanceler do governo Fernando Henrique Cardoso, Celso Lafer, e o médico Dráuzio Varella.

    O documento é longo. Tem 12 parágrafos. Bolsonaro é citado uma única vez, quase no fim do texto: “é preciso dizer, mais que uma escolha política, a candidatura de Jair Bolsonaro representa uma ameaça franca ao nosso patrimônio civilizatório primordial”. O nome de Haddad não aparece. Mas, por exclusão, o documento não pede outra coisa que o voto no petista.

    A neutralidade de Ciro

    Assim que terminou o primeiro turno, Ciro Gomes – candidato do PDT que obteve 12,4% dos votos e ficou em terceiro lugar – viajou para Paris, onde passou quase todo o segundo turno.

    Só neste sábado (27), um dia antes do fim da eleição presidencial é que ele, já de volta ao Brasil, voltou a falar sobre a disputa em curso, mas não declarou nem pediu votos para Haddad, como os petistas esperavam.

    “Minha consciência me aponta a necessidade de preservar um caminho em que a população brasileira possa ter amanhã uma referência para enfrentar os dias terríveis que, imagino, estão se aproximando”, disse Ciro, apontando possivelmente para a eleição presidencial de 2022.

    “Claro que todo mundo preferia que eu, com meu estilo, tomasse um lado e participasse da campanha. Mas eu não quero fazer isso por uma razão muito prática, que eu não quero dizer agora, porque se eu não posso ajudar, atrapalhar é o que eu não quero”, disse ainda Ciro, sem dar mais detalhes.

    O ‘voto crítico’ de Marina

    Faltando menos de uma semana para o fim da eleição, Marina Silva – candidata da Rede que obteve 1% dos votos no primeiro turno – declarou o que ela mesma chamou de “voto crítico” a Haddad.

    “Darei um voto crítico e farei oposição democrática a uma pessoa que, ‘pelo menos’ e ainda bem, não prega a extinção dos direitos dos índios, a discriminação das minorias, a repressão aos movimentos, o aviltamento ainda maior das mulheres, negros e pobres, o fim da base legal e das estruturas da proteção ambiental, que é o professor Fernando Haddad”, disse Marina numa longa mensagem postada em suas contas nas redes sociais.

    Os tucanos meio a meio

    Outro dos candidatos derrotados no primeiro turno, Geraldo Alckmin (PSDB), que teve 4,76% dos votos, resumiu assim sua posição: “isso [apoio ao PT] não existe. Nós somos contra o PT, como também somos contra o Bolsonaro”.

    O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uma das figuras mais importantes do PSDB, publicou uma série de mensagens e concedeu diversas entrevistas criticando Bolsonaro.

    “Com a provável eleição de Bolsonaro precisaremos mais ainda de defensores da democracia, para impedir que ele (ou quem vier a vencer) tente sair do rumo constitucional”, disse FHC. Entretanto, quando circularam informações falsas de que ele havia declarado voto em Haddad, esclareceu: “Por ora disse que no Bolsonaro não voto e dei as razões. Nada além disso”.

    Quem deu um passo além, entre os tucanos, foi Alberto Goldman, ex-presidente nacional do PSDB. “Eu sinceramente não quero pagar para ver, e vou contra a minha vontade, contra o que eu pensava, contra os meus princípios e contra todos esses anos de luta contra o PT, vou acabar votando em Haddad”, disse.

    O Novo pendeu para Bolsonaro

    Dos candidatos que foram derrotados no primeiro turno, João Amoêdo, do Partido Novo (2,5% dos votos), foi o único que pendeu para o lado de Bolsonaro – ainda assim, sem declarar voto explicitamente.

    Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo no dia 21 de outubro, ele disse: “domingo [dia 28 de outubro] voto mais uma vez contra o PT, mas, como das vezes anteriores, não é em um projeto em que acredito e que, portanto, defenda ou apoie”.

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