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Um estudo sobre o apoio a Bolsonaro em protestos de rua

A antropóloga Isabela Oliveira Kalil entrevistou, em manifestações, simpatizantes do candidato e traçou características em comum. Nesta entrevista, ela fala ao ‘Nexo’ sobre esse trabalho

    Jair Bolsonaro tem vantagem frente a Fernando Haddad, segundo as principais pesquisas de intenção de voto no segundo turno, que acontece no domingo (28). O candidato do PSL passou o primeiro mês da campanha presidencial pontuando por volta de 20% nas pesquisas, mas conseguiu subir nas semanas seguintes e, no fim, conquistou 46% dos votos válidos no primeiro turno. As razões dessa ascensão têm sido discutidas por diferentes analistas políticos.

    Um estudo da antropóloga Isabela Oliveira Kalil, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, se debruça justamente sobre a base de apoio popular do candidato do PSL. Kalil identificou 16 perfis de apoiadores e potenciais eleitores de Bolsonaro, grupos que demonstram apoio ao candidato por motivos diferentes e às vezes até antagônicos. Todos os perfis podem ser vistos na página da pesquisa.

    O estudo foi feito a partir de entrevistas realizadas em manifestações públicas realizadas por um público alinhado à direita no espectro político-ideológico, entre março de 2016, época do impeachment de Dilma Rousseff, e outubro de 2018, mês da eleição presidencial. A pesquisadora falou com cerca de mil pessoas em atos na cidade de São Paulo.

    Esses atos incluíam manifestações a favor de Bolsonaro, pelo impeachment de Dilma, a favor da Operação Lava Jato, a favor da família, a favor do juiz Sergio Moro (responsável pela Lava Jato), a favor da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, contra a descriminalização das drogas, contra a descriminalização do aborto, contra o Supremo Tribunal Federal, entre outros. Também inclui atos de lançamento de campanha de candidatos a diversos cargos em 2018.

    Kalil falou ao Nexo sobre as conclusões do estudo e o que ela identificou nesses atos de rua, que ela percebe como um laboratório de organização e comunicação política que indica tendências depois vistas nas redes sociais e nas campanhas.

    Os principais perfis

    Segundo a pesquisadora, há dois campos principais entre quem se identifica como apoiador de Bolsonaro: um que chamou de “anticomunista” e outro de “anti-ideologia de gênero”.

    O que ela considera “anticomunista” são temas como defesa do liberalismo, incentivo à iniciativa privada, redução do Estado e até antipetismo. É portanto uma área relativa ao modelo econômico e de governo a ser adotado a partir de 2019. As palavras “comunismo” ou “comunista” foram usadas pelos próprios entrevistados nas manifestações.

    O que é chamado na pesquisa de “anti-ideologia de gênero” se refere a assuntos morais, às vezes religiosos, como sexualidade, configuração familiar ou o projeto Escola Sem Partido. “Ideologia de gênero” é um termo que apareceu nas entrevistas e é comumente usado por quem defende pautas mais conservadoras nos costumes.

    “A corrupção é o tema que une esses dois campos, porque nessa visão não se trata de uma corrupção apenas econômica, é também uma corrupção moral, de valores”, disse Kalil. Combater a corrupção seria, então, um atributo ligado à figura de Bolsonaro que lhe garantiria apoio desses dois grandes perfis identificados por ela.

    A estratégia de comunicação

    Kalil pontua que Bolsonaro inaugura no Brasil uma nova forma de comunicação política, uma comunicação segmentada, o que, segundo ela, contribuiu para a diversidade de perfis em seu eleitorado.

    Cada parte de uma fala mais longa do candidato estaria enderaçada a um público diferente. Um discurso de 20 minutos pode ser repartido em diferentes momentos ou mesmo frases. Isso facilita a comunicação com o eleitorado, pois vídeos e mensagens curtos podem chegar às pessoas sem que elas precisem ouvir a íntegra da fala. Em uma mesma resposta de uma entrevista, por exemplo, o candidato pode falar de diversos assuntos.

    “Se você escuta uma fala inteira de Bolsonaro, às vezes ela parece pouco conectada em si mesma, parece incoerente. Em uma estratégia mais ampla, isso funciona, porque atinge públicos diferentes”, disse a antropóloga.

    O crescimento do apoio

    Kalil diz que no início da pesquisa, em 2016, identificou a defesa da Polícia Federal, a militarização e a liberação do porte de arma como algumas das principais reivindicações dos protestos. Naquele ano, ela acompanhou sobretudo o acampamento em frente ao prédio da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

    A eleição presidencial ainda estava distante, e Bolsonaro era um assunto que aparecia pouco. Com o passar do tempo, segundo ela, ele se tornou um “catalisador” dessas demandas nas ruas por um processo de modificação em questões de moralidade, economia e Estado. O nome dele aparecia mais nos atos, mesmo os que não tinham relação direta com a sua candidatura presidencial. Isso ficou mais nítido na pesquisa de campo a partir de 2017.

    “Em 2016, quem aparecia como apoiadores de Bolsonaro, nas nossas pesquisas de campo? Sobretudo homens, jovens, favoráveis à militarização e ao porte de armas. Em geral, era um discurso mais intolerante. Agora na reta final, vimos alguns discursos mais moderados, sobre mulheres, pessoas LGBT, nordestinos. Não significa que não haja mais discursos intolerantes e de ódio, porque eles ocorrem”, afirmou Kalil.

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