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Por que a diferença entre Bolsonaro e Haddad caiu

Distância entre o líder do PSL e o petista era de 18 pontos percentuais. Agora, é de 12. O ‘Nexo’ entrevistou dois cientistas políticos para entender esse movimento

     

    A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (25) revelou uma redução de seis pontos percentuais na vantagem do candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro (PSL), sobre seu adversário, Fernando Haddad (PT).

    A três dias do segundo turno, marcado para domingo (28), a distância entre os dois agora é de 12 pontos percentuais, levando em conta apenas a intenção de votos válidos, sem contar brancos, nulos e indecisos.

    Na pesquisa anterior do mesmo instituto, divulgada exatamente uma semana antes, a vantagem de Bolsonaro sobre Haddad era de 18 pontos percentuais.

    O Datafolha entrevistou 9.173 eleitores em 341 cidades entre quarta-feira (24) e quinta-feira (25). A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos. A pesquisa foi registrada no TSE sob nº  BR-05743/2018.

    Votos válidos

    Na reta final da campanha eleitoral de segundo turno da corrida presidencial de 2018, três episódios se destacam.

    Um segundo turno sem debates

    Bolsonaro decidiu não participar de nenhum debate contra Haddad no segundo turno. Vítima de um atentado a faca em 6 de setembro, o candidato do PSL  tinha, inicialmente, recomendação médica para não ir aos encontros. A partir de 18 de outubro, ele foi liberado, mas mesmo assim decidiu não participar de nenhum evento cara a cara na TV.

    Nesta quinta-feira (25), o general reformado do Exército Augusto Heleno, um dos coordenadores da campanha de Bolsonaro, afirmou que o candidato do PSL não comparecerá ao debate final da TV Globo, que ocorreria nesta sexta-feira (26), porque ele pode ser “alvo de um atentado terrorista”

    A suspeita de caixa dois do Whatsapp

    A campanha de Bolsonaro passou a ser investigada pela Justiça Federal sob suspeita de praticar caixa dois. A apuração foi aberta pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a pedido de Haddad, com base em uma reportagem em 18 de outubro feita pela Folha de S.Paulo.

    Segundo o jornal, empresas aliadas ao candidato do PSL financiaram um sistema de disparos de mensagens em massa pelo Whatsapp contra o PT e Haddad. A suspeita é de prática de caixa dois porque, de acordo com a reportagem, as empresas não declararam essa ação à Justiça Eleitoral.

    As declarações contra o Supremo e a oposição

    No domingo (21) veio à tona um vídeo de julho em que o deputado federal Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidenciável, afirma que para fechar o Supremo, basta “um cabo e um soldado”. Ele falava num cursinho do Paraná, respondendo a uma situação hipotética apresentada por um aluno.

    O deputado federal foi advertido pelo pai na segunda-feira (22). Os integrantes do Supremo, porém, reagiram de forma dura. O presidente do tribunal, Dias Toffoli, afirmou que “atacar o Judiciário é atacar a democracia”. Jair Bolsonaro enviou uma carta pedindo desculpas aos ministros da corte.

    Também no domingo (21), Bolsonaro falou numa transmissão por telefone com apoiadores que se concentravam na avenida Paulista, em São Paulo. Nas declarações, o candidato do PSL falou em “varrer do mapa os bandidos vermelhos do país”. Afirmou ainda que seus adversários teriam de seguir a lei ou deixar o país.

    Haddad, por sua vez, chamou Hamilton Mourão, general da reserva e vice de Bolsonaro, de torturador, reproduzindo uma acusação do músico Geraldo Azevedo, que viria, depois, a ser desmentida. O petista reconheceu o erro.

    O resultado do Datafolha em duas análises

    O Nexo entrevistou dois cientistas políticos sobre a movimentação nas pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (25). São eles:

    • Eduardo Viveiros, pesquisador de ciência política da PUC-SP
    • Alberto Aggio, professor de ciência política da Unesp

    O que explica a queda da vantagem de Bolsonaro sobre Haddad?

    Eduardo Viveiros Um conjunto de fatores determinou a diminuição da diferença entre os dois candidatos. Do lado da candidatura Bolsonaro, a falta de coordenação e controle das ações de campanha, com o filho e o candidato dando declarações estapafúrdias e ameaçadoras para o ambiente democrático.

    O “escândalo do Whatssap” também foi sentido como forte golpe na estratégia de campanha, assumida ou não pelo candidato. A resposta do Judiciário também se fez sentir.

    Do lado da candidatura Haddad, houve exploração das declarações do adversário, de seu perfil autoritário e do escândalo do uso do WhatsApp. A agressividade de Bolsonaro [no discurso de domingo] também pode explicar o resultado, com uma tendência na mudança brusca do rumo até agora apontado pelas pesquisas.

    Alberto Aggio Em primeiro lugar, creio que a proximidade do dia da votação vai gerando mais definições no eleitorado. Havia a sensação de que Bolsonaro iria levar facilmente a eleição e que Haddad iria se resignar a executar o papel de perdedor. Não aconteceu nem uma coisa nem outra.

    Mas, nesta semana, a campanha de Bolsonaro cometeu muitos erros. A começar pelo ar de prepotência, de achar que a eleição já estava ganha. Passar a impressão de que já está escolhendo o ministério como se estivesse eleito constituiu um erro clamoroso.Desconheço eleitorado que simpatize com essa posição.

    Depois houve o bate-cabeça do entorno de Bolsonaro e dele mesmo, voltando a fazer discursos que, ao contrário de algumas inclinações anteriores, mais palatáveis, geraram um mal-estar visível no Poder Judiciário.

    O que houve foi mais uma queda de Bolsonaro do que propriamente uma subida de Haddad. O petista também cometeu alguns erros esta semana, mas de pequena monta, ainda que tenham sido graves.

    O que esse movimento representa para as campanhas a três dias da votação?

    Eduardo Viveiros  Pode se configurar uma tendência. Do lado da campanha Haddad, essa possibilidade de virada será explorada até o limite da propaganda eleitoral e das redes sociais, da campanha na rua, no corpo a corpo.

    Do lado da campanha Bolsonaro, que se limita às redes sociais e à propaganda de TV, uma vez que o candidato tem limitações físicas para o “corpo a corpo” e decidiu, por estratégia, não comparecer a debates, a candidatura enfrenta um dilema: se for agressiva e utilizar robôs e ativismo digital para o “combate” a Haddad, vai reforçar as acusações e suspeitas levantadas pela Folha de S.Paulo.

    Nesse caso, para criar um “fato novo”, Bolsonaro precisaria abrir um flanco e participar de, pelo menos, um debate. Mas esse risco, para seu “staff”, é imenso. Viveremos três dias interessantes até domingo.

    Alberto Aggio A questão é saber se Bolsonaro irá cair mais ou não. A queda pode abrir uma tendência no final da campanha, mas não está claro que Haddad tenha capacidade de operar a sedimentação dessa mudança.

    Creio que Haddad, até o momento, não tem conseguido construir fatos mobilizadores que impulsionem um arrancada final. Mas é possível que isso ocorra. Haddad não conseguiu formar a tal frente em defesa da democracia. Há pouco tempo para isso se efetivar.

    O problema é que o antipetismo não é uma invenção, um capricho do eleitorado. Ele é real. E, eleitoralmente falando, o problema de Haddad é precisamente o PT. A mudança de imagem [no segundo turno, atenuando o uso da imagem de Lula na campanha] pode ser vista como artificial e até cínica, dependendo do observador.

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