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Por que a ‘ameaça comunista’ ainda é usada na eleição

Termos da Guerra Fria ressuscitam fora de contexto em campanhas de candidatos como Doria e Bolsonaro

 

O comunismo ruiu na Alemanha Oriental em 1989 e na União Soviética em 1991, mas a “ameaça comunista” ainda é usada como arma eleitoral por parte dos candidatos que disputam cargos no Brasil.

Em 2018, o discurso foi usado por vários políticos, com destaque para Jair Bolsonaro (PSL), que lidera a disputa pela Presidência da República, e João Doria (PSDB), que lidera a disputa pelo governo do estado de São Paulo.

Não que a suposta “ameaça comunista” não tenha aparecido em outras eleições e mesmo em manifestações fora do período eleitoral. Em 2016, por exemplo, nos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), havia cartazes contra o comunismo. Em 2018, ano de sucessão presidencial e sentimento de forte antipetismo na sociedade, o tema voltou à tona. E com força.

“Estamos à beira do comunismo”, repete, por exemplo, o narrador das peças da campanha de Bolsonaro na TV, ao se referir ao adversário, o petista Fernando Haddad.

“Esquerdista”, “comunista”, “socialista” foram palavras repetidas diversas vezes por Doria para se referir a seu adversário, Márcio França (PSB), no debate da TV Bandeirantes, no dia 18 de outubro.

De onde vem a ideia de comunismo

Platão, filósofo da Grécia Antiga, traça em sua obra “A República” a primeira formulação sobre ideias comunistas, ao teorizar sobre uma cidade ideal.

O “Dicionário de Política”, que tem entre seus autores o filósofo italiano Norberto Bobbio, afirma que Platão já previa “a supressão da propriedade privada, a fim de que desapareça qualquer conflito entre o interesse privado e o Estado, e a supressão da família, a fim de que os afetos não diminuam a devoção para o bem público”.

O dicionário de Bobbio, um social-democrata liberal do século 20, afirma que foi, porém, na “civilização cristã que floresceram as primeiras ideias comunistas”, em que a riqueza é considerada má e os pobres são proclamados como os únicos aptos a entrar no reino dos céus.

Já na Idade Moderna, obras como “Utopia”, do inglês Thomas More, do século 15, falam de uma sociedade onde a propriedade privada e o dinheiro são abolidos e todos os bens são do Estado. Os cidadãos não trabalham mais que seis horas diárias e isso é suficiente para satisfazer às necessidades de todos. São ideias que aparecem em algumas grandes revoluções, como a Revolução Inglesa, do século 17, e a Revolução Francesa, do século 18.

Da teoria à prática comunista

É a partir das ideias de Karl Marx que o comunismo começa a ganhar concretude. Junto com Friedrich Engels, o filósofo alemão escreveu o “Manifesto Comunista”, de 1848, no qual conclama os trabalhadores do mundo a se unirem para uma revolução global.

Ele surge num contexto de crescimento da classe operária, após a Revolução Industrial. Para o alemão, o comunismo era, na verdade, inevitável. E, antes que fosse concretizado, haveria algumas fases: a passagem por um período socialista — uma ditadura do proletariado para destruir a máquina estatal burguesa, inclusive com “medidas violentas e coercitivas”, segundo Bobbio — para só depois se chegar a uma sociedade totalmente igualitária, sem classes e Estado.

As ideias de Marx inspiraram a Revolução Bolchevique de 1917 na Rússia. Vladimir Lênin, principal líder do movimento, adaptou a obra do alemão à realidade russa, pulou algumas etapas teorizadas por Marx e levou adiante um regime que iria marcar o século 20, numa polarização com os Estados Unidos, líder do bloco capitalista, naquela que veio a ser chamada de Guerra Fria.

O regime comunista russo, que criou a União Soviética, foi também marcado por um totalitarismo sanguinário, com perseguição e morte de adversários e genocídios de populações. A China também viveu sua revolução, em 1949, liderada por Mao Tsé-Tung. Na América, Cuba realizou sua revolução em 1959, liderada por Fidel Castro.

Outras experiências comunistas foram adotadas no mundo, a partir de diferentes linhas teóricas, como na Coreia do Norte e no Camboja, onde o regime de Pol Pot tentou estabelecer uma utopia agrária que deixou, entre 1975 e 1979, algo em torno de 2 milhões de pessoas mortas, 25% da população do país asiático.

Ainda hoje, em 2018, regimes como o chinês, mais aberto à economia global, o cubano, que passa por um processo de abertura, e o norte-coreano, ainda o país mais fechado do mundo, são governados sob o comunismo, um modelo que, para alguns estudiosos, na verdade nunca conseguiu ser tirado do papel da forma como previa Marx.

A ameaça usada para golpes

A retórica contra os “vermelhos” ecoa o clima de Guerra Fria que embalou o golpe do Estado Novo, em 1937, quando o governo de Getúlio Vargas inventou uma iminente invasão comunista, no chamado Plano Cohen. A ditadura militar no Brasil (1964-1985) também usou a retórica da “ameaça comunista”.

A tese era de que o presidente João Goulart, no começo dos anos 1960, instauraria um regime comunista no Brasil. Isso serviu como um dos argumentos para que parte da sociedade civil saísse às ruas para defender o golpe que seria dado pelas Forças Armadas em 1964.

A Guerra Fria, entre os blocos capitalista, liderado pelos EUA, e comunista, liderado pela hoje extinta União Soviética, teve início logo após a Segunda Guerra Mundial (1945) e durou até o fim da URSS (1991).

Ao longo de quase meio século, americanos e soviéticos se esforçaram para aumentar ao máximo suas respectivas esferas de influência econômica, cultural, ideológica e militar.

Além do golpe dos militares no Brasil, esse clima embalou golpes em outros países latino-americanos, como o do Chile, em 1973, com apoio dos EUA.

A adaptação nas democracias

A queda do Muro de Berlim em 1989 levou o filósofo americano Francis Fukuyama a escrever o artigo “Fim da História”, posteriormente transformado em livro, no qual afirma que a queda do comunismo e a prevalência da democracia liberal ocidental seria a forma final do governo humano, com o fim de outras ideologias.

Os partidos comunistas na sociedade ocidental, na Europa e nas Américas, no fim, adaptaram-se ao capitalismo e, apesar de defenderem políticas que buscam maior igualdade entre população, aceitam a propriedade privada, a economia de mercado e as eleições livres, das quais participam regularmente.

No Brasil, os partidos comunistas (PCB e PCdoB, por exemplo) foram perseguidos por regimes como o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945) e a ditadura militar dos generais (1964-1985), mas, após a redemocratização, passaram a participar do jogo democrático.

O PT surgiu justamente nesse momento, nos últimos anos da ditadura no Brasil. Seu discurso era de crítica à esquerda tradicional representada pelo PCB. O partido, assim como o PSB e o PCdoB, não defende o comunismo em seus planos de governo: não fala em fim da propriedade privada nem em planificação da economia, por exemplo.

Petistas e pessebistas tampouco se classificam oficialmente como comunistas: se dizem, no papel, “socialistas democráticos”, com foco em promoção da igualdade social por meio da intervenção estatal. Na prática, estão alguns passos mais ao centro quando se trata da localização político-ideológica.

A gestão de Flávio Dino (PCdoB), que se reelegeu governador do Maranhão em 2018, no primeiro turno, por exemplo, não tem nada de comunista, assim como os 13 anos de PT no governo federal.

A vice na chapa de Haddad, Manuela D'ávila, é do PCdoB, mas nem ela mesma defende o comunismo como plataforma de governo.

No primeiro turno, o candidato Paulo Skaf (MDB) chegou a defender Márcio França, do Partido Socialista Brasileiro. “Aqui não tem comunista nenhum, não”, disse Skaf sobre França, que passou ao segundo turno contra Doria na disputa em São Paulo.

Para além das acusações de que partidos como PT e PSB são uma “ameaça comunista”, há uma crítica direta e recorrente a seus integrantes: a ausência de crítica e condenação de regimes onde há deterioração da democracia, como é o caso da Venezuela, que se autointitula um país que estabeleceu o “socialismo do século 21”.

A direção do PT, por exemplo, defende o governo Nicolás Maduro, apesar de seu candidato à Presidência, Fernando Haddad, já ter afirmado que não é possível classificar a Venezuela como uma democracia. Já a direção do PCdoB, por exemplo, evita uma condenação direta e aberta do totalitarismo da União Soviética e dos crimes de Josef Stálin, que comandou o bloco comunista dos anos 1930 até o início dos anos 1950.

A alardeada ameaça comunista hoje, no entanto, aparece desvinculada do contexto original. Tanto Bolsonaro como Doria dizem que o comunismo hoje está associado a governos como o da Venezuela e ao chamado Foro de São Paulo.

O Foro de São Paulo é uma articulação de partidos de esquerda que, no início, tinha até grupos armados de extrema esquerda da América Latina. As Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), por exemplo, já participaram de reuniões no passado. O grupo armado, hoje, está extinto. Do Brasil, fazem parte do foro o PT, o PDT, o PCdoB e o PPS, por exemplo. Eles participam de discussões sobre os rumos da esquerda no continente.

Uso do termo desperta medo irreal

O Nexo fez três perguntas sobre o uso reiterado do termos “comunismo” nestas eleições a Guilherme Russo, pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Pública (CEPESP/FGV) e doutor em ciência política pela Vanderbilt University, dos EUA.

Por que o ‘comunismo’ se faz tão presente na eleição?

Guilherme Russo A palavra “comunismo” é usada como forma de ativar uma emoção no eleitorado. Se o eleitor tem receio do comunismo, e um candidato faz com que seu oponente passe a ser associado a essa palavra, essa prática é uma tentativa de prejudicar as chances de que o oponente tenha sucesso na eleição.

Assim, não importa exatamente o que o comunismo realmente é ou quais são as chances de um regime comunista ser implementado. O importante é associar o meu oponente a esse termo que, na cabeça do eleitor, implica coisas ruins. É uma prática de propaganda negativa que tende a funcionar se o eleitor tem crenças negativas em relação ao termo “comunismo”.

Qual a possibilidade, hoje, de o Brasil virar ‘comunista’?

Guilherme Russo Não vejo a menor chance. Nenhum ator político relevante trabalha nesse sentido.

Como os eleitores reagem a esse tipo de mensagem?

Guilherme Russo Tudo depende de qual eleitor. Os eleitores que têm maior afeto negativo ou até medo do que a palavra comunismo significa são justamente aqueles que tendem a reagir de forma bem negativa. Um eleitor religioso que acredita que o “comunismo” vai contra crenças religiosas tem maior chance de desenvolver rejeição a um candidato “comunista” do que um eleitor religioso que não entende a palavra comunismo como ameaça a sua religião. Quanto maior o medo, maior será a reação ao candidato associado ao termo.

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