O discurso de Bolsonaro: o que ele diz, desdiz e reafirma

Candidato do PSL alterna pregação de tortura e de execução sumária com explicações, desmentidos ou simples ambiguidade

 

O candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) acumulou ao longo de quase 30 anos de vida pública uma longa coleção de frases chocantes. Algumas, mais antigas, falam explicitamente em “fuzilar” adversários políticos (1999). Outras, mais recentes, em “varrer do mapa” seus oponentes (2018).

Sobre algumas dessas declarações, ele diz que foi mal entendido. Sobre outras, afirma que foi “força de expressão”. E, sobre parte delas, Bolsonaro nunca deu qualquer esclarecimento.

Quando os planos de governo são genéricos — o de Bolsonaro tem 81 páginas, com fotos e slogans como “vamos nos libertar, precisamos nos libertar” ou “queremos um Brasil com todas as cores: verde, amarelo, azul e branco” —, os discursos acabam ganhando destaque.

É por eles que eleitores e imprensa tentam prever o que um candidato fará, caso seja eleito. Como Bolsonaro lidera a disputa presidencial contra seu adversário de segundo turno, Fernando Haddad (PT), a atenção sobre seu discurso também é maior.

A violência no discurso

Algumas das frases mais violentas de Bolsonaro foram ditas numa entrevista de 35 minutos que ele concedeu em 1999 para o programa Câmera Aberta, da TV Bandeirantes.

 

Nessa entrevista, ele diz que sonega impostos, que daria um golpe, que o Congresso Nacional deveria ser fechado, que é necessária uma guerra civil com milhares de mortos para mudar o Brasil, mesmo que isso provoque a morte de inocentes, e que a tortura é um método legítimo e “que funciona”, embora seja um crime previsto nas leis brasileiras e internacionais, seja em tempos de guerra ou de paz.

A entrevista de 1999 para a Bandeirantes é, em resumo, uma coletânea de defesa de ilegalidades que vem sendo reproduzida por seus adversários, como prova do víes autoritário e antidemocrático do capitão reformado do Exército.

“Através do voto, você não vai mudar nada neste país. Nada, absolutamente nada. Você só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando 30 mil, e começando por FHC [Fernando Henrique Cardoso]”

Jair Bolsonaro

candidato à Presidência da República, em entrevista ao programa Câmera Aberta, em 1999, quando deputado federal em seu terceiro mandato

“Dá porrada no Chico Lopes [ex-presidente do Banco Central]. Eu até sou favorável a CPI, no caso do Chico Lopes, tivesse pau de arara lá. Ele merecia isto: pau de arara. Funciona. Eu sou favorável à tortura”

Jair Bolsonaro

candidato à Presidência da República, em entrevista ao programa Câmera Aberta, em 1999, quando deputado federal em seu terceiro mandato

Bolsonaro voltaria a defender a tortura outras vezes. Em 2017, comparou os crimes de tortura à prática de “tratar com energia” suspeitos, e discorreu sobre como vê o assunto:

“Qual o limite entre bater e tratar com energia? Não tem limite, pô. O cara senta ali, faz a pergunta, ele responde. Se não responde, bota na solitária. Fica uma semana, duas semanas, três meses, quatro meses… Problema dele… Dá comidinha para ele, dá. Dá um negocinho para ele tomar lá, um pãozinho, uma água gelada, um brochante [calmante, um ‘boa-noite, Cinderela’] na Coca-Cola, tá tranquilo”

Jair Bolsonaro

candidato à Presidência, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em 2017

O mesmo Bolsonaro que disse ser “favorável à tortura”, em 1999, também disse, em 2017, que “ninguém é favorável à tortura”.

Em 1999, quando perguntado se fecharia o Congresso caso fosse presidente da República, Bolsonaro respondeu: “Não há a menor dúvida. No mesmo dia”. Mas, em 2017, disse: “eu não vou pregar fechar o Congresso nunca”.

As contradições foram explicadas assim, em junho de 2018: “Já falei de fechar o Congresso? Já, sim, há 20 anos. Já dei canelada sim. Cheguei aqui [a Brasília] como capitão do Exército, novo”.

Bolsonaro já tinha em 1999 44 anos e estava em seu terceiro mandato como deputado federal, pelo PPB (Partido Progressista Brasileiro), atual PP (Partido Progressista).

Desde então, o candidato, hoje no PSL, não voltou a falar em fechar o Congresso. Entretanto, seguiu fazendo apologia à ditadura militar e a torturadores, sem voltar atrás nesses temas.

Em entrevista ao Jornal Nacional, no dia 22 de agosto, quando confrontado pela informação de que a historiografia registra que houve um golpe de Estado no Brasil em 1964, Bolsonaro respondeu: “deixa os historiadores para lá”.

Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 30 de julho, Bolsonaro disse que seu livro preferido era a biografia do coronel Brilhante Ustra, torturador do regime militar. O hoje vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, considera Ustra “um herói”.

O ataque a minorias no discurso

Por diversas vezes ao longo da carreira parlamentar e mesmo durante a campanha eleitoral, Bolsonaro disse frases semelhantes em relação a negros, homossexuais e mulheres.

Agências de checagem, como a Lupa, entre outras, publicaram mais de uma vez textos nos quais analisam os diversos discursos de Bolsonaro.

Em 2011, quando perguntado pelo programa CQC, da TV Bandeirantes, o que faria caso tivesse um filho gay, Bolsonaro respondeu:

“Isso nem passa pela minha cabeça, porque eles tiveram uma boa educação. Eu sou um pai presente, então não corro esse risco”

Jair Bolsonaro

candidato à Presidência da República, em entrevista ao programa CQC, em 2011

Em março de 2014, ao ser entrevistado sobre o mesmo assunto pela TV Câmara, Bolsonaro respondeu:

“O filho começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um couro, ele muda o comportamento. Olha, eu vejo muita gente por aí dizendo: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem”

Jair Bolsonaro

candidato à Presidência da República, em entrevista à TV Câmara, em 2014

Também em 2011, em entrevista para a revista Playboy, Bolsonaro já havia dito:

“Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo”

Jair Bolsonaro

candidato à Presidência da República, em entrevista à revista Playboy, em 2014

Em 2013, em entrevista à TV Record, ele se assumiu homofóbico: “eu tenho imunidade para falar que sou homofóbico, sim, com muito orgulho”. Porém, em agosto de 2018, disse o contrário: “eu nunca fui homofóbico”.

Ainda no tema da homofobia, Bolsonaro repetiu diversas vezes o discurso contrário a um suposto “kit gay” que, segundo ele, havia sido distribuído nas escolas pelo Ministério da Educação durante governos petistas.

Ele nunca recuou desse discurso, nem mesmo depois que o Tribunal Superior Eleitoral determinou, no dia 15 de outubro de 2018, a remoção de vídeos nos quais o candidato fala do assunto. A informação sobre a existência do kit é “equivocada”, disse o ministro Carlos Horbach.

Em 2014, Bolsonaro afirmou que não estupraria a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) porque ela é “muito feia”. No ano seguinte, ele foi condenado a pagar uma indenização de R$ 10 mil a Rosário por danos morais. Bolsonaro está recorrendo dessa decisão no Supremo.

Em 2017, Bolsonaro afirmou, em palestra no Rio de Janeiro, que “quilombolas não servem nem para procriar”. Em 2017, ele foi condenado a pagar uma indenização de R$ 50 mil por danos morais, mas recorreu. Em 2018, teve a denúncia por racismo arquivada pelo Supremo.

“Eu não entraria em um avião pilotado por um cotista nem aceitaria ser operado por um médico cotista”, disse Bolsonaro em 2011, na mesma entrevista ao programa CQC na qual falou que bateria num filho se ele fosse gay.

“Eu não empregaria [homens e mulheres] com o mesmo salário. Mas tem muita mulher que é competente”, disse Bolsonaro em 2016, numa entrevista à Rede TV!. Mais tarde, disse que era um mal-entendido.

“Pode ter certeza que se eu chegar lá [na Presidência] não vai ter dinheiro para ONG [Organizações Não Governamentais]. Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”, disse Bolsonaro em palestra no Rio, em abril de 2017.

Em 9 de outubro de 2018, o candidato disse, em entrevista à TV Bandeirantes, que “o ativismo não é benéfico. E nisso nós devemos pôr um ponto final”. Não é possível saber o que seja “um ponto final”.

Um mês antes, o candidato havia prometido “fuzilar a petralhada”, em comício no Acre. Logo em seguida, sua assessoria disse que “foi uma brincadeira, como sempre”.

Mas Bolsonaro também constrói frases nas quais afirmações violentas são imediatamente seguidas de um alerta de que se tratam, na verdade, de uma força de expressão: “Quando eu digo, força de expressão, ‘temos que entrar no Ministério da Educação com lança-chamas para tirar simpatizantes de Paulo Freire de lá’, tem que ser assim”.

A radicalização reforçada

No dia 30 de julho, Bolsonaro disse o seguinte, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura: “as eleições, de qualquer forma, estão sob suspeição”. O candidato se referia ao uso de urnas eletrônicas.

Num dos muitos vídeos que gravou, disse: “a grande preocupação realmente não é perder no voto, é perder na fraude”, sugerindo, mais uma vez, que as urnas brasileiras são manipuladas.

Em 25 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral determinou a retirada de 55 links com um dos vídeos nos quais Bolsonaro põe em dúvida as urnas eletrônicas, diante da ausência de evidências de que elas têm algum problema. Dentre os 55 links, dois estavam em páginas de Bolsonaro e outros 53 em contas de seus seguidores.

Mesmo a liderança que Bolsonaro na última semana do segundo turno não aplacou o discurso radical do início da carreira parlamentar.

No dia 21 de outubro, num grande ato do PSL, Bolsonaro falou ao vivo, via celular, com o público da avenida Paulista, em São Paulo. O candidato radicalizou ainda mais o ataque a seus adversários.

“Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil”, disse Bolsonaro, se referindo aos adversários petistas. “Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou [então] vão para fora ou vão para a cadeia.” O discurso de Bolsonaro não traz detalhes sobre o que seja “varrer do mapa”.

Bolsonaro deu entrevistas na campanha. E, depois de sofrer um atentado a faca em 6 de setembro, foi obrigado a cancelar compromissos públicos. Mesmo depois de liberado pelos médicos, evitou debates na TV.

Restam os discursos, cheios de idas e vindas, para entender o que pode vir a ser um futuro governo Bolsonaro. “Não vou arredar em nada, não me arrependo de nada que falei. Não é a imprensa nem o Supremo que vão falar o que é limite pra mim”, afirmou o candidato em 2017.

Em julho de 2018, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) disse durante uma palestra em Cascavel, no Paraná: “O pessoal até brinca lá: se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Precisa mandar nem um jipe, manda um soldado e um cabo. Não é querer desmerecer o soldado e o cabo. O que é que é o STF? Tira o poder da caneta de um ministro do STF, o que ele é na rua? Se você prender um ministro do STF, acha que vai ter uma manifestação popular a favor dos ministros do STF?”

Bolsonaro desautorizou o filho, deputado mais votado da história. Em carta enviada na segunda-feira (22) ao Supremo, falou de “manifestações mais emocionais, ocorridas nestes últimos tempos” como “fruto da angústia e das ameaças sofridas neste processo eleitoral”. O presidenciável do PSL disse ainda que o “Supremo Tribunal Federal é o guardião da Constituição e todos temos de prestigiar a Corte”.

O que as instituições podem fazer

O coordenador da 6ª Câmara Temática de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, responsável por assuntos ligados às populações indígenas, Antonio Carlos Alpino Bigonha, disse que vai ajuizar ações contra um eventual governo Bolsonaro caso ele cumpra a ameaça de interromper a demarcação de terras indígenas.

“Quando o poder público não cumpre o papel dele [de demarcar], cabe ao MPF [Ministério Público Federal] provocar a Justiça para obrigar a fazê-lo, cumprir o dever de constitucionalidade”, disse Bigonha ao jornal Folha de S.Paulo.

A posição de Bigonha é apenas um exemplo do tipo de reação que Bolsonaro pode encontrar, seja por parte do Judiciário, seja no Legislativo ou na sociedade civil, caso seja eleito.

Processo semelhante ocorreu recentemente nos EUA, onde o presidente Donald Trump — a quem Bolsonaro diz admirar — enfrentou resistência de órgãos públicos, tribunais e imprensa quando tentou tocar adiante promessas de campanha que violavam de alguma maneira dispositivos legais.

Além disso, por mais expressivas que sejam as votações obtidas por candidatos a presidente, eles dependem em larga medida do Congresso para governar. Mesmo uma maioria governista não é garantia de alinhamento automático em todas as pautas.

Essa condição foi sintetizada na frase que o ministro do Supremo Celso de Mello publicou em resposta ao ataque que Eduardo Bolsonaro fez ao tribunal, no vídeo de julho: “votações expressivas do eleitorado não legitimam investidas contra a ordem político-jurídica”.

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