Um final sem debate: Bolsonaro e Haddad não ficam cara a cara

Com vantagem no segundo turno, candidato do PSL cancela participação em eventos. Na primeira etapa, indefinição da candidatura petista e atentado ao capitão reformado impossibilitaram encontro entre os dois

     

    A campanha presidencial que termina oficialmente nesta sexta-feira (26) foi marcada por troca de ataques, reclamações de deslealdade e disseminação de boatos. Jair Bolsonaro e Fernando Haddad se enfrentarão nas urnas no domingo (28), porém, sem terem discutido, sequer uma vez, os problemas do Brasil pessoalmente.

    Pela primeira vez desde que o Brasil voltou a ter eleições diretas, após duas décadas de ditadura militar, uma eleição com segundo turno terminará sem os tradicionais debates cara a cara na televisão. O candidato do PSL, que lidera as pesquisas, recusou os convites de seis emissoras na segunda etapa da corrida presidencial.

    Bolsonaro participou dos dois primeiros debates na televisão no primeiro turno, nos dias 9 e 17 de agosto, quando ele era o segundo colocado nas pesquisas e o candidato do PT ainda era Luiz Inácio Lula da Silva, então líder da corrida ao Palácio do Planalto. Preso em Curitiba, Lula não foi autorizado pela Justiça a deixar a cadeia para debater.

    Quando Haddad foi oficializado candidato, em 11 de setembro, após Lula ser barrado pela Lei da Ficha Limpa, Bolsonaro já estava hospitalizado por causa de uma facada sofrida em um atentado no dia 6 de setembro. Os projetos do PSL e do PT, portanto, nunca foram confrontados ao vivo pelos seus candidatos à Presidência.

    A última oportunidade de encontro entre os dois seria nesta sexta-feira (26), no debate da TV Globo. Na segunda-feira (22), Bolsonaro enviou carta à emissora alegando que, por motivos médicos, não poderia comparecer.

    “Apesar de o Dr. Antonio Macedo ter reduzido o nível de restrição de suas atividades rotineiras, o candidato continua com limitações em virtude da bolsa de colostomia. (...) Além disso, por orientação médica, ele ainda deve evitar esforço físico, estresse excessivo ou ficar muito tempo em pé”

    Trecho da carta enviada à Globo pela campanha de Bolsonaro

    Haddad chegou a pedir ao TSE para ser entrevistado pela Globo no horário reservado para o debate, mas o tribunal negou. Na quarta-feira (24), a emissora cancelou oficialmente o programa.

    “Na reunião de elaboração das regras do evento foi acertado com as assessorias dos candidatos que, se Jair Bolsonaro não pudesse comparecer por razões de saúde, o debate não seria substituído por entrevistas”

    Nota da Rede Globo

    Os motivos de Fernando Haddad

    Fernando Haddad não compareceu a três debates, na Band, na RedeTV e na Gazeta. O candidato, nesse momento da campanha, ainda era Lula. Preso em Curitiba, o ex-presidente foi impedido pela Justiça de participar de atividades de campanha.

    O PT queria enviar representante aos debates, incluindo o próprio Haddad, então candidato a vice, mas não conseguiu autorização. As outras candidaturas também atuaram para esvaziar a participação do PT nos debates. No encontro promovido pela RedeTV, o partido de Haddad queria que um púlpito vazio fosse deixado no cenário com o nome de Lula, mas, com exceção do PSOL de Guilherme Boulos, todos os outros partidos foram contra o pedido.

    Assim, Haddad estreou em debates apenas no dia 17 de setembro, seis dias depois de ser oficializado candidato, em um programa da TV Aparecida. Com Bolsonaro já internado, o petista, que crescia nas pesquisas, foi o principal alvo dos adversários. Depois disso, sempre atrás de Bolsonaro nas pesquisas, Haddad participou de todos os encontros programados, sem a presença do capitão reformado.

    Os motivos de Jair Bolsonaro

    Jair Bolsonaro foi aos dois primeiros debates na televisão, na Band e na RedeTV, ainda em agosto. Àquela altura, ele era o vice-líder nas pesquisas no cenário com Lula e o líder no cenário com Haddad. Mas, antes mesmo do atentado, Bolsonaro já admitia a intenção de faltar a alguns dos futuros debates.

    A agenda

    Após duas participações de Bolsonaro em confrontos diretos com adversários, sendo que na segunda delas ele foi confrontado pela candidata da Rede, Marina Silva, o capitão reformado anunciou que recusaria alguns convites e estaria presente em pelo menos três encontros: TV Gazeta/ Estadão (9 de setembro), SBT/Folha (26 de setembro) e Rede Globo (4 de outubro).

    “Tem três debates na televisão que eu posso ir. Se eu for a todos que me convidam, eu não faço campanha, e faltam só 40 dias”

    Jair Bolsonaro

    em 23 de agosto

    Pouco depois, diante da repercussão negativa, ele disse que iria a cinco debates com transmissão na TV até o fim da campanha de primeiro turno, cuja votação ocorreria em 7 de outubro. Àquela altura, eram seis debates marcados antes de o eleitor ir às urnas.

    A internação

    Três dias antes da data marcada para o terceiro debate, que aconteceria na TV Gazeta em 9 de setembro, o capitão reformado foi atacado durante um evento de campanha em Juiz de Fora e foi internado. Ao todo, ele ficou 24 dias no hospital e teve de ser submetido a duas cirurgias.

    Bolsonaro deu entrevistas gravadas em vídeo, internado, à revista Veja e à TV Bandeirantes. Ele deixou o hospital Albert Einstein, em São Paulo, no dia 29 de setembro e foi para sua casa, na zona oeste do Rio de Janeiro.

    A negativa médica

    Em casa, Bolsonaro seguiu concedendo entrevistas, inclusive uma à Rede Record no mesmo momento em que acontecia o debate entre os candidatos na TV Globo às vésperas do primeiro turno. Mas havia uma recomendação médica para que ele não fosse aos debates.

    “Ele está muito bem, mas não está em condições de ficar mais do que dez minutos conversando. (...) Nós contraindicamos a ida dele ao debate”

    Antônio Macedo

    médico, em 3 de outubro

    Macedo disse ainda que seu paciente não iria contrariar as recomendações porque era “extremamente obediente”. Uma nova avaliação foi marca para 18 de outubro, já no segundo turno.

    Clinicamente liberado

    A nova avaliação feita pelo doutor Antônio Macedo liberou Bolsonaro para participar de debates no dia 18 de outubro. Dali em diante, havia debates marcados na Record (21) e na Globo (26). Mesmo liberado pelos médicos, o candidato do PSL se recusou a participar, e as duas emissoras cancelaram os eventos.

    A campanha do candidato culpa os efeitos colaterais das cirurgias feitas no abdômen para a não participação. Por causa da facada, Bolsonaro foi submetido a uma colostomia e segue com uma bolsa intestinal. O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), coordenador da campanha, disse que, indo a debate, Bolsonaro seria submetido a constrangimentos.

    “Ele continua com a colostomia do lado direito do seu abdômen. Quando é feita do seu lado esquerdo, o paciente tem um controle do seu fluxo digestivo, ao passo que do lado direito, não. Como não há esse controle aquela bolsinha pode se encher rapidamente, pode haver um acidente”

    Gustavo Bebianno

    presidente do PSL

    ‘Atentado terrorista’

    Na quinta-feira (25), véspera da data do debate da TV Globo no segundo turno, surgiu um novo argumento na campanha de Bolsonaro para a ausência. O general reformado Augusto Heleno, um aliado do candidato do PSL, disse que Bolsonaro não iria ao debate porque há risco de ele ser alvo de um "atentado terrorista" articulado por uma “organização criminosa”.

    “O comparecimento ao debate, que muita gente está vinculando ao medo de ele sair ou de debater com o Haddad, não se trata disso. Ele está realmente ameaçado, não é um mero tiro de snipper, é um atentado terrorista onde tem uma organização criminosa, que não vou citar o nome por motivos óbvios, envolvida. Comprovada por mensagens, por escutas telefônicas, então isso é absolutamente verídico”

    General Augusto Heleno

    general reformado

    As críticas de Haddad

    As recusas de Bolsonaro têm servido de munição para a campanha de Haddad. O petista e sua equipe têm repetido que o adversário não vai a debates porque “não tem coragem” e “não tem condições de defender uma ideia”. Atrás nas pesquisas e precisando tirar uma diferença que sempre esteve acima dos dez pontos percentuais, na contagem dos votos válidos, Haddad chegou a dizer que iria até a enfermaria se fosse preciso para debater com o adversário.

    No Twitter, os dois candidatos à Presidência chegaram a discutir o assunto com ataques de ambos os lados. Depois de ser atacado por Bolsonaro, Haddad desafiou o adversário para um debate.

    “Tuitar e fazer live é fácil, deputado. Vamos debater frente a frente, com educação, em uma enfermaria se precisar. O povo quer ver você aparecer na entrevista de emprego.”

    Fernando Haddad

    candidato do PT à Presidência, em resposta a Bolsonaro

    Também no Twitter, o candidato do PSL respondeu ironizando as visitas que Haddad faz a Lula na prisão, em Curitiba, e chamou-o pelo apelido recebido pelo fato de não ser conhecido pelo público, “Andrade”.

    “Senhor Andrade, quem conversa com poste é bêbado. Existe um que está preso por corrupção e você vai toda semana na cadeia visitá-lo intimamente além de receber ordens! Cuidado que pelo desenrolar das notícias reveladas você pode ser o próximo!”

    Jair Bolsonaro

    candidato do PSL à Presidência

    A estratégia dos candidatos

    Não participar de debates é uma estratégia comum entre candidatos com larga vantagem nas pesquisas eleitorais. O cálculo é, basicamente, que o líder pode perder uma parcela do eleitorado por se recusar a debater, mas evita o risco de um fiasco que acarrete em um prejuízo maior.

    “Bolsonaro tem usado uma estratégia de campanha focada nas redes sociais, no contato mais direto com o eleitorado. Isso garante a ele um controle grande sobre seu discurso e propostas, que não são confrontadas nem questionadas. É uma posição muito confortável. Por não ter experiência com os debates, Bolsonaro estaria em desvantagem se participasse de algum. Por isso os evita”

    Nara Pavão

    professora de ciência política da UFPE, no dia 17 de outubro, em entrevista ao Nexo

    A estratégia de faltar a debates foi usada por outros líderes nas pesquisas no passado. Em 1989, Fernando Collor não foi a debates no primeiro turno. Duas vezes eleito ainda na primeira etapa, em 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso foi a apenas um debate, em 1994.

    Lula foi a todos os debates em 2002. Em 2006, já presidente, compareceu aos encontros apenas no segundo turno. Dilma Rousseff, que também venceu duas eleições, faltou a dois debates (Gazeta e TV Aparecida) em 2010.

    A diferença, no caso de 2018, é que é a primeira vez que, em uma eleição decidida em segundo turno, os dois postulantes à Presidência não debatem no segundo turno. E, mais que isso, não se encontram em nenhum evento de campanha.

    “O Brasil está na pior crise pós-88, com problemas graves para serem resolvidos, com o sistema político no chão. Seria fundamental para os eleitores que esses dois projetos fossem confrontados, que pudéssemos ver o desempenho dos dois diante de questões difíceis, que ambas as candidaturas têm. Sem debate, caminhamos para uma eleição cujo principal fator tem sido ignorar. Eleitores de Bolsonaro ignoram argumentos contrários ao seu candidato; eleitores de Haddad ignoram argumentos contrários ao candidato”

    Fabio Vasconcellos

    professor de ciência política da Uerj, no dia 17 de outubro, em entrevista ao Nexo

     

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