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Qual a lógica de quem vai votar nulo no segundo turno

A cinco dias da votação, 13% do eleitorado não tem candidato. Índice é o maior nas últimas cinco eleições

     

    A eleição presidencial no Brasil será decidida, no 28 de outubro, entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Na pesquisa Ibope mais recente, divulgada na terça-feira (23), 40% dos entrevistados disseram que não votariam de jeito nenhum no candidato do PSL. E 41% disseram o mesmo sobre o candidato do PT.

    As rejeições são equivalentes, mas têm origens diferentes. Bolsonaro é o principal símbolo de um movimento de extrema direita que vem ganhando adeptos no Brasil com um discurso contra a esquerda, de apologia da ditadura militar, de exaltação de torturadores do período, de uso de armas de fogo pela população e também de negação de direitos de minorias. Isso causa rejeição de quem vê nele uma ameaça à democracia.

    Já a rejeição de Haddad é mais focada no Partido dos Trabalhadores, que governou o Brasil entre 2003 e 2016. O PT enfrenta críticas pela condução da política econômica e pelos esquemas de corrupção de seu governo, como aqueles revelados pela Operação Lava Jato.

    Com dois candidatos altamente rejeitados, há uma parcela dos eleitores que se recusa a escolher entre eles. Segundo o Ibope, faltando menos de uma semana para o segundo turno, o percentual de eleitores indecisos ou que vão votar em branco ou anular é o maior das últimas cinco eleições.

    Mais que nas eleições anteriores

     

    Manifestações públicas

    Na terça-feira (23), o candidato a vice na chapa de Marina Silva, Eduardo Jorge, anunciou em sua conta no Facebook a decisão de anular o voto no segundo turno das eleições. Sua manifestação aconteceu um dia depois de Marina Silva ter declarado “voto crítico” em Fernando Haddad. O vice disse que “não é obrigado a escolher entre eles” e vai ficar com a sua “consciência”. Eduardo Jorge é um dos fundadores do PT e deixou o partido em 2005.

    “As propostas de centro-direita, centro e centro-esquerda foram esmagadas pelas ondas de polarização extremadas de direita e de esquerda. Tanto o PSL quanto o PT são comandados por núcleos políticos radicais e com tendências autoritárias”

    Eduardo Jorge

    ex-candidato a vice-presidente

    Outro integrante do Partido Verde que declarou voto nulo na eleição é o vereador paulistano Gilberto Natalini. Por um lado, ele tem sido um crítico ferrenho do PT nos últimos anos. Por outro, Natalini foi torturado durante a ditadura militar, inclusive pelo coronel Brilhante Ustra, ídolo de Bolsonaro.

    “Nunca anulei meu voto. Mesmo durante a ditadura militar fizemos campanha e elegemos pessoas do chamado 'MDB autêntico'. Sempre fui a favor de votar. Chegamos a uma situação hoje na qual eu não tenho alternativa. A minha consciência moral me impede de dar meu voto para qualquer um dos dois depois de 54 anos de ativismo político”

    Gilberto Natalini

    vereador de São Paulo

    Na quarta-feira (24), o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, escreveu no jornal Folha de S.Paulo um artigo em que explica os motivos para a anulação de seu voto. Ele fez críticas aos planos de governo dos dois candidatos para a economia, elogiou pessoalmente Haddad, mas disse que nenhum dos dois candidatos se encaixa no que ele considera um modelo ideal de democracia liberal, com respeito às liberdades individuais e possibilidade real de alternância de poder.

    “Só me sobra, portanto, anular o voto e torcer para que na próxima eleição apareçam candidatos com posicionamentos mais próximos aos meus, de preferência com reais chances de serem eleitos”

    Alexandre Schwartsman

    economista

    Por outro lado, há políticos migrando do nulo para o que consideram menos pior. O ex-governador de São Paulo e ex-presidente nacional do PSDB Alberto Goldman anunciou que desistiu de anular seu voto e decidiu por Haddad no segundo turno.

    O papel do voto branco e nulo

    Quem vota em branco, anula ou não vai votar está abrindo mão do direito de escolher o vencedor. Isso porque uma eleição é decidida apenas entre os considerados votos válidos. Sobre as pessoas que decidiram anular o voto, o Nexo conversou com dois cientistas políticos.

    • Bruno Bolognesi, cientista político da Universidade Federal do Paraná
    • Humberto Dantas, cientista político e pesquisador da FGV-SP

    Como interpretar a decisão de votar nulo na eleição?

    Bruno Bolognesi  É uma pergunta difícil. A decisão é individual. O que nós não temos condições é de cobrar que essas pessoas façam uma escolha. Por outro lado, as pessoas que votam nulo, branco ou não vão votar, deveriam saber que essa decisão tem consequência.

    Essas pessoas teriam que saber que se trata de uma não opção que contribui para que outras pessoas decidam por ela. Nessa situação que nós estamos, em que há um candidato com diferença grande de votos, não se manifestar é deixar que os convictos tenham mais peso. Isso baixa a competitividade eleitoral.

    A ideia do segundo turno é constranger a formação de uma maioria, é aumentar a legitimidade de quem for eleito. É fazer o eleitorado ter que tomar posição para formar preferência, fazer as pessoas trabalharem a formação de preferência até chegarem a um voto. Mas nem sempre dá certo, principalmente quando não há candidatos mais moderados.

    E aqui eu não estou colocando o candidato de extrema direita com o candidato de esquerda, não é esse o ponto. Não é uma eleição entre extrema esquerda e extrema direita, mas as pessoas não estão enxergando desse modo. Elas não estão enxergando nenhum dos dois como de centro. É difícil convencer as pessoas que estão insatisfeitas com os dois.

    Humberto Dantas É legítimo. As pessoas têm o direito de promoverem seus cálculos e de, por diferentes razões, não se sentirem representadas nem pelos candidatos que estão colocados, tampouco pelos medos associados a eles. Eu, particularmente, não gosto da ideia porque entendo que, entre algo ruim e algo menos pior, sob uma lógica otimista, o menos pior é o melhor.

    De um lado um candidato chamado pelos opositores de fascista e associado ao que há de pior em termos de valores progressistas e democráticos. Do outro lado, um candidato que muitos têm associado a uma ideia de corrupção. Quando há extremos significativos, é comum que uma parcela de eleitores mais centralizados fique órfã. Em 2016, no segundo turno no Rio de Janeiro entre Marcelo Crivella e Marcelo Freixo, o eleitor não se via representado por nenhum dos dois.

    A função do segundo turno é dar legitimidade, é fazer com que o vencedor saia das urnas com mais da metade dos eleitores que fizeram uma escolha útil, uma escolha válida. Como branco e nulo não são válidos, quem age assim escolhe ficar de fora, e entendendo não ter escolha preferem se afastar, não legitimar. Mas a não escolha também é uma escolha.

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