O papel do YouTube na preparação para o vestibular

Gratuito e de livre acesso, a plataforma democratiza e complementa os estudos, segundo especialistas ouvidos pelo ‘Nexo’

Um dos sites mais acessados do mundo, o YouTube é responsável até mesmo por uma geração de novos milionários. No Brasil, o impacto da plataforma é imenso: o primeiro debate presidencial das eleições de 2018 se tornou o maior livestream da história do canal no Brasil, com o pico de 381 mil espectadores simultâneos, segundo dado da plataforma.

A pesquisa Video Viewers, feita em julho de 2018 e divulgada pelo Think Google, mostrou que o consumo de vídeo na internet entre os brasileiros no intervalo entre 2014 e 2018 cresceu 135%. Outro dado da pesquisa coloca o YouTube como o número 1 em preferência para ver vídeos online (ficando ainda à frente da Netflix, com 44%, versus 22% da rede de streaming).

Em conversa com o Nexo, Cauã Taborda, gerente de comunicação do YouTube para América Latina, destaca ainda a informação de que 9 entre 10 pessoas acessam a plataforma em busca de conhecimento - “Seja esse conhecimento como do ‘YouTube Edu’, ou algo que elas queiram aprender para melhorar, como os modelos ‘do it yourself’ (“faça você mesmo”, em tradução livre)”.

YouTube Educação

Pensando nessa grande procura por conhecimento no portal, a plataforma no Brasil lançou em 2013 um canal em parceria com a Fundação Lemann, organização sem fins lucrativos que atua no setor educacional, chamado YouTube Educação com conteúdos disponíveis  voltados para os níveis de ensino fundamental e ensino médio.

A ideia da parceria com a fundação Lemann é de fazer uma curadoria da produção. “Se você é um professor e tem um canal na plataforma, você pode colocar seu canal para avaliação”, explica Taborda. “A fundação vai fazer uma avaliação do conteúdo, se o programa está sendo seguido de acordo com a grade do ensino.”

No dia 27 de outubro de 2018 será realizado um “aulão” online do Enem, promovido pelo Youtube, com professores ligados à plataforma explicando matemática, física, biologia e inglês, com duração de cerca de 5 horas. O objetivo é realizar uma revisão geral dos conteúdos essenciais para a principal prova de acesso ao ensino superior. Em 2017, a primeira edição do “aulão”  teve mais de 694 mil visualizações.

Para Taborda, a criação dessas iniciativas foi uma reposta da plataforma à alta procura de vídeos em educação. “[O papel do YouTube] é ser uma plataforma aberta, com conteúdo de qualidade (...) e dar para as pessoas a possibilidade de ir atrás do que elas precisam de graça”.

A fórmula até agora está fazendo sucesso. Desde 2013 até maio de 2018, o número de visualizações de vídeos do YouTube Edu passaram dos 3 bilhões,  segundo Taborda.

Educação complementar e o papel da escola

O Nexo conversou com duas professoras para entender como as aulas em vídeo podem auxiliar o estudante que está prestando vestibular ou a prova do Enem.

  • Manolita Correia Lima, professora e coordenadora do Núcleo de Inovação Pedagógica da ESPM 
  • Cláudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV-SP

Com a tecnologia cada vez mais parte do cotidiano, a forma como se estuda hoje não poderia estar mais afastada dessa realidade Para Manolita Correia Lima, “as mídias têm contribuído ao oferecer matérias complementares interessantes, dinâmicas, com uma linguagem bastante simples e direta.Com os smartphones, “a aprendizagem está disponível o tempo todo, em qualquer lugar. E o que move esse processo é o interesse do estudante”.

Costin acredita que os vídeos trazem uma nova percepção sobre qual é até mesmo o papel do professor, que se encaminha para ser “cada vez  menos o de um mero fornecedor de ensino e muito mais de um assegurador de aprendizagem”. A professora defende o uso dos vídeos como uma forma de contato inicial ou complementar de conceitos, abrindo o espaço em sala de aula para explorar e fazer exercícios.

“O grande desafio do professor, e por isso ele é necessário, é garantir que o aluno aprenda. O fato de um aluno ficar sentado copiando conceitos do quadro [negro] não é garantia ao aprendizado. O processo é saber usar na realidade aquilo que ele ouviu, assistiu em um vídeo, ou leu em um livro”, diz Cláudia Costin.

Lima concorda que a escola e plataforma funcionam melhor juntas: “Um papel importante para a escola desempenhar é o de curadoria de vídeos, para que o estudante, quando investir nesse material, tenha garantia de ter de fato uma qualidade, uma pertinência. As escolas precisam participar desse jogo, precisam fazer esse diálogo.”

Como forma complementar de estudo para além dos vídeos, Lima acrescenta também a importância da leitura, principalmente em provas como o Enem. “É preciso ter disciplina para iniciar e desenvolver a leitura de um texto, que é uma competência muito exigida.”

Acessibilidade de ensino

Para as duas professoras entrevistadas pelo Nexo, um dos pontos mais fortes do YouTube como ferramenta preparatória para o vestibular é de ser livre e gratuito. “Ele é democrático. Hoje é muito difícil encontrar alguém que não tenha um celular e que não possa ter acesso a esses materiais. É muito importante sua presença [do YouTube] onde a educação é frágil”, diz Lima.

Um ponto levantado por Costin é, porém, justamente em relação ao acesso à internet. “Um dos mecanismos de democratização de informação mais importantes é a conectividade, é garantir que todo mundo tenha acesso”. Costin acredita que uma maior democratização de informação poderá até mesmo ajudar a pluralizar o perfil do estudante que passa em exames vestibulares. “Nós estamos falando de aprendizagem escolar de quem está no Ensino Médio, mas podemos também falar das pessoas que não têm acesso ao Ensino Médio de qualidade.” 

De acordo com Lima,  “o acesso é o grande divisor de águas entre um projeto educacional bom e um projeto regular. A gente está em uma sociedade que tem esse acesso, mas ainda de maneira desigual”.

Para Costin existe ainda um movimento interessante, que é o da transformação do professor do YouTube em alguém famoso, considerando que existem professores com mais de 1 milhão de “alunos”, como nos canais de biologia de Jubilut e de matemática de Rafael Procopio. “Precisamos dos dois tipos de professor [o presencial e virtual]. É muito bonito ver um professor virar celebridade fornecendo novos saberes para os alunos”, diz.

 

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