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As ameaças à Justiça e à imprensa após a suspeita de caixa dois

Publicação de reportagem motivou parte de apoiadores de Bolsonaro a intimidar jornalistas. Coronel da reserva gravou vídeo xingando a ministra Rosa Weber

     

    Os registros de ameaças a jornalistas se tornaram comuns nesta campanha eleitoral de 2018. Mas as intimidações se intensificaram e se estenderam a autoridades públicas desde que a campanha do candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, passou a ser investigada sob suspeita de caixa dois.

    A apuração foi aberta no Tribunal Superior Eleitoral a pedido do candidato adversário, Fernando Haddad, com base em uma reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo em 18 de outubro. A reportagem afirma que empresas aliadas de Bolsonaro financiaram um sistema de disparos de mensagens em massa por WhatsApp contra o PT e Haddad.

    A suspeita de prática de caixa dois ocorre, segundo o jornal, porque as empresas não declararam essa ação eleitoral. O PT relaciona o sistema de disparo de mensagens à disseminação de mentiras e ao abuso de poder econômico e pede a inelegibilidade do capitão reformado, que lidera a corrida presidencial, segundo as pesquisas.

    Os ministros sob ataque

    Após a abertura da investigação contra Bolsonaro, a presidente do TSE, ministra Rosa Weber, foi xingada por um coronel da reserva do Exército em um vídeo veiculado no YouTube.

    Na gravação, o militar Carlos Alves chamou a ministra de “salafrária”, “corrupta” e “incompetente”. Alves atacou Weber por ela ter recebido representantes da campanha de Haddad quando os petistas pediram a investigação sobre as suspeitas de caixa dois.

    “Se você [Rosa Weber] aceitar essa denúncia ridícula e tentar tirar Bolsonaro, nós vamos derrubar vocês aí, sim, porque aí acabou”

    Carlos Alves

    coronel da reserva do Exército, em vídeo divulgado no YouTube

    A gravação com quase 30 minutos de duração contém ainda ofensas a ministros do Supremo Tribunal Federal, do qual Weber também faz parte. Na terça-feira (23), a segunda turma da corte reagiu aos ataques do coronel da reserva. Os ministros pediram à Procuradoria-Geral da República que investigasse o vídeo que ele gravou.

    Membro do colegiado e decano do STF, o ministro Celso de Mello considerou “repugnante” o discurso do militar e afirmou que os ataques feitos por Alves são “criminosos”.

    A Procuradoria-Geral da República aceitou o pedido feito pelo Supremo e acionou a Polícia Federal, que abriu uma investigação ainda na terça-feira (23). De acordo com a Procuradoria, o coronel pode ter incorrido nos crimes de calúnia, difamação, injúria e ameaça.

    O Exército também reagiu ao vídeo e pediu que o Ministério Público Militar apurasse o caso. Em nota, o Exército informou: “O referido militar afronta diversas autoridades e deve assumir as responsabilidades por suas declarações, as quais não representam o pensamento do Exército Brasileiro”.

    Um decreto assinado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso em 2002 determina que todos os militares, sejam eles da ativa ou da reserva, estejam sujeitos às punições previstas no regulamento do Exército.

    Os jornalistas como alvo

    Autora da reportagem que colocou a campanha de Bolsonaro sob suspeita, a jornalista Patrícia Campos Mello começou a receber centenas de ameaças pelas redes sociais e por e-mail.

    O número de celular de Mello chegou, inclusive, a ser hackeado. Dois colegas da jornalista que colaboraram com a reportagem também foram alvo de ataques de apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais.

    Além deles, foi alvo de ataques de apoiadores de Bolsonaro o diretor-executivo do instituto de pesquisas Datafolha, Mauro Paulino. Ele foi vítima de ameaças nas redes sociais e até mesmo em sua própria casa, onde recebeu uma carta com ofensas encartada dentro do jornal.

    O grupo Folha, dono do jornal e do instituto, entrou na terça-feira (23) com uma representação no TSE pedindo que a Polícia Federal instaure um inquérito para investigar as ameaças contra os jornalistas.

    Um levantamento feito pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) contabilizou três ataques a jornalistas relacionados à repercussão provocada pela reportagem da Folha.

    A entidade começou a realizar esse levantamento no início da campanha eleitoral, em agosto. Até agora, a Abraji contabilizou seis casos de agressão física a jornalistas e 24 ataques digitais a membros da imprensa.

    Quando foi questionado sobre a reportagem de Patrícia Campos Mello, Bolsonaro afirmou que não tinha controle sobre os empresários que o apoiavam.

    A resposta seguiu a mesma linha do que o presidenciável respondeu ao ser perguntado sobre agressões provocadas por seus apoiadores na campanha. “Eu lamento, mas eu não tenho controle.”

    No domingo (21), vários protestos em favor de Bolsonaro realizados em todo o país ironizaram as acusações de prática de caixa dois feitas pelo PT. Em São Paulo, os organizadores transmitiram em telões uma videoconferência na qual o candidato do PSL prometeu “varrer do mapa os bandidos vermelhos do país”. Afirmou ainda que seus adversários teriam de seguir a lei ou deixar o país.

    Na quarta-feira (24), Bolsonaro voltou a atacar diretamente o jornal Folha de S.Paulo. Pelo Twitter, o candidato do PSL escreveu: “A mamata da folha de são paulo vai acabar, mas não é com censura não! O dinheiro público que recebem para fazer ativismo político vai secar”, diz o texto. “E mais, com sua credibilidade no ralo com suas informações tendenciosas são menos sérias que uma revista de piada.”

    Entidades ligadas à imprensa e à defesa de direitos humanos assinaram uma nota divulgada nesta quinta-feira (25) cobrando Bolsonaro e Haddad que condenem “de forma contundente” as ameaças e agressões contra jornalistas nestas eleições. As organizações pedem que os presidenciáveis se comprometam “com a preservação da democracia”.

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