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Qual a adesão brasileira à rede que se diz ‘livre de censura’

Infrações condenadas no Twitter, no Facebook e no WhatsApp correm soltas no Gab, reduto afastado dos olhos da imprensa e da Justiça onde cresce o extremismo

     

    Uma pequena rede social criada na cidade americana de Austin, no estado do Texas, converteu-se, num intervalo de apenas dois anos, num dos maiores redutos da extrema direita na internet.

    Em linhas gerais, o Gab — cuja sede está baseada hoje na Filadélfia, no estado da Pensilvânia — funciona como o Twitter ou o Facebook: é uma rede social na qual usuários se registram e postam conteúdos, interagindo publicamente entre si.

    A diferença está nas regras de uso. Os limites, no Gab, são menos rigorosos, o que favorece a circulação de discursos de ódio, ataques racistas, notícias falsas e outros comportamentos que redes maiores e mais consolidadas tentam conter.

    Para os responsáveis pelo serviço, o Gab é “a rede social campeã da liberdade de expressão, da liberdade individual e da livre circulação de informação online”, na qual “todos são bem-vindos”.

    A lista de proibições é genérica. Por exemplo, quando diz que o usuário se compromete a “não usar o serviço para fins ilegais”. Também é proibido “conclamar atos de violência contra outros”, além de “usar linguagem ameaçadora ou comportamento que de forma clara, direta e sem controvérsia, infrinja a segurança dos outros usuários”.

    “Promover terrorismo” é proibido no Gab. “Pornografia legal é permitida”, mas o serviço tem “tolerância zero com pornografia ilegal”.

    Menor, menos conhecida, menos monitorada e menos comentada fora dos círculos restritos, no entanto, ela figura como o reduto no qual as fake news e as ofensas circulam com maior liberdade.

    O alcance, restrito, sugere que o Gab não tem o potencial de angariar votos e mudar tendências na atual eleição. O papel é mais de reforço de visões extremas entre grupos de iguais.

    “Promovemos a ideia de um discurso online bruto, racional, aberto e autêntico. Queremos que todo mundo se sinta seguro no Gab, mas não vamos ditar o que é discurso de ódio e o que não é”

    Andrew Torba

    CEO do Gab, em entrevista à revista Wired

    O início da rede nos EUA

    No ano de sua criação, em 2016, a rede serviu de fórum para muitos eleitores do agora presidente americano, Donald Trump. Interações entre supremacistas, racistas e outros grupos radicais que não eram tolerados nas grandes redes migraram para o Gab, formando um subsistema radical.

    Um dos primeiros e maiores nomes da extrema direita americana a migrar para o Gab foi o líder racista Richard Spencer. Ele teve sua conta suspensa no Twitter por difundir mensagens que os administradores do serviço classificaram como mensagens de ódio.

    Em seguida, acusou o Twitter de praticar “stalinismo empresarial” — comparando o que considerou uma censura a suas próprias opiniões com a política de expurgos que marcou a ditadura do líder Josef Stálin na URSS de 1922 a 1953.

    “Obviamente existe o Gab. Acho que será para lá que iremos em seguida”

    Richard Spencer

    líder racista americano, em transmissão no Youtube, após ter sido suspenso do Twitter por publicar mensagens de ódio, em 2016

    O fortalecimento da rede no Brasil

    Na campanha presidencial de 2018, eleitores de Jair Bolsonaro (PSL) encontraram na rede americana Gab um espaço para difundir conteúdos e práticas que são proibidas em outros serviços maiores, como o Twitter e o Facebook.

    Muitos dos novos usuários do Gab tinham sido expulsos ou suspensos do Twitter e do Facebook por difundir conteúdos falsos ou que violavam as regras de uso dessas grandes redes.

    Em julho de 2018, por exemplo, 196 páginas e 87 contas ligadas a apoiadores de Bolsonaro haviam sido desativadas pelo Facebook. Grupos como o MBL (Movimento Brasil Livre) acusaram a empresa de “censura”.

    O site acolheu muitos expulsos das outras redes. Além dos expulsos, não apenas Bolsonaro estava com um perfil aberto no Gab, mas também o escritor OIavo de Carvalho, o jornalista Felipe Moura Brasil e a ex-jogadora da seleção brasileira de vôlei Ana Paula Henkel, todos influentes nesse setor.

    “O viés, os dois pesos e o eco ideológico das plataformas do Vale do Silício me motivaram a fundar o Gab [...] Os brasileiros estão sendo censurados pelas plataformas do Vale do Silício”

    Andrew Torba

    fundador do Gab, em outubro de 2018

    Embora o Gab seja uma rede frequentemente tolerante com mensagens de ódio, proibidas em outras redes, não significa que só esse tipo de usuário participe do serviço. E embora circulem milhares de notícias falsas e boatos, há também troca de ideias com base em fatos e opiniões, como em qualquer outra rede.

    As fake news de apoiadores de Bolsonaro, no entanto, correm com pouco ou nenhum controle. Numa conta chamada “presidente Bolsonaro”, por exemplo — que não é identificada como uma conta administrada pelo próprio candidato —, são visíveis mensagens como a que diz “vídeo urgente: EUA detecta [sic] ações do Hezbollah, Irã e Venezuela nas eleições brasileiras”.

    Pouco adiante, passam pela tela mensagens como esta: “Uma câmara de gás faz falta realmente hoje em dia”, diz um usuário da rede. “96% dos crimes não são solucionados ou seja 4% dos bandidos estão presos, como pode estar lotado? Câmara de gás é uma opção barata faz falta, botar o Lula lá pra estrear”.

    O Gab tinha, até abril de 2018, segundo dados do CEO da rede, Andrew Torba, 465 mil usuários, sendo 25% deles no Brasil.

    O sapo do Gab

    Se o símbolo do Twitter é um pássaro branco em fundo azul, o do Gab foi, até setembro de 2018, um sapo verde. A origem do sapo tem duas histórias possíveis. Uma delas, referida pelos próprios fundadores, é a de que o sapo — na verdade, uma rã — é uma referência à passagem bíblica contida em Exôdo 8, na qual Deus disse a Moisés que transmitisse ao faraó rei do Egito a mensagem de que, caso não libertasse seu povo do cativeiro, Deus lançaria uma praga de rãs.

    A segunda versão é aquela na qual o sapo é comparado a um personagem chamado “Pepe The Frog”, ou Pepe o Sapo. Pepe foi criado em 2005 pelo artista Matt Furie, como um dos personagens de um gibi chamado “Boys Club”. Pepe era, em sua origem, uma espécie de adolescente tardio e letárgico, que passava o dia à toa. Ficou conhecido pela frase “feels good, man” — um equivalente à gíria “de boas”, no Brasil.

    Pepe passou por uma mutação. Foi tomado como símbolo da nova direita americana e passou a ilustrar publicações supremacistas e a acompanhar como emoticon os perfis dos usuários das redes sociais.

    Em 2015, Trump publicou em sua conta no Twitter uma ilustração que mostrava ele mesmo caracterizado como o Sapo Pepe, já um ícone da extrema direita americana.

    Em 2018, o advogado de Furie conseguiu que a Justiça americana proibisse o uso de Pepe em publicações extremistas como o Daily Stormer, cujo nome é uma corruptela do tabloide alemão nazista Der Stürmer (o atacante, ou o agressor, em uma tradução livre), publicado de 1923 até o fim da Segunda Guerra Mundial.

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