Por que cresce o número de crianças alérgicas no mundo

Cerca de 30% da população mundial sofre algum tipo de alergia. Especialistas dizem que esse número deve aumentar ainda mais

A cada 3 minutos, uma pessoa no mundo vai parar na emergência de um hospital devido a uma crise alérgica. O dado é da ONG norte-americana Food Allergy Research & Education. Segundo o relatório da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), cerca de 30% da população mundial sofre algum tipo de alergia. Crianças representam 20% desse número - que só aumenta.

Atualmente, mais de 150 milhões de cidadãos da União Europeia sofrem de doenças crônicas alérgicas e, até 2025, prevê-se que metade da população europeia seja afetada. No Reino Unido, 44% dos adultos sofrem de pelo menos uma alergia. O dado é da European Academy of Allergy and Clinical Immunology, que lançou um relatório em 2010, alertando sobre a previsão.

O Center for Disease Control & Prevention (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos apontou ainda em documento que, no intervalo entre 1997-1999 e 2009-2011, alergia alimentar em crianças cresceu 50%. Nos EUA, a prevalência de alergia a nozes e amendoim entre crianças mais do que triplicou entre 1997 e 2008.

Dados brasileiros sobre o tema são difíceis de encontrar, mas a prevalência parece se assemelhar à apontada pela literatura internacional. No caso de alergia alimentar, especula-se que afete cerca de 8% das crianças com até dois anos de idade e 2% dos adultos, segundo o coordenador do Departamento Científico de Alergia na Infância e na Adolescência da Asbai, Antonio Carlos Pastorino, em entrevista ao Nexo

“Nos anos 1980 e 1990, predominaram doenças respiratórias, como asma e sinusite. Agora estamos vendo uma epidemia de alergia alimentar”, afirma Pastorino. Os principais alimentos que causam reações alérgicas no Brasil são o leite e o ovo.

Entendendo o cenário

Estudos em diversos países buscam entender o que está por trás desses índices. O Nexo conversou com Luisa Karla de Paula Arruda, pesquisadora do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias da Faculdade de Medicina da USP-Ribeirão Preto. Ela afirma que alergias são processos multifatoriais - não há apenas uma única causa a levar ao aumento da alergia alimentar e de outros processos alérgicos, como  asma, rinite e dermatite

Uma hipótese bastante discutida relaciona o aumento da higiene no cotidiano ao crescimento no número de alérgicos. “Hoje há uma menor exposição a micróbios. A gente tem vacinas e antibióticos. Isso redireciona a resposta imune, e algo que antes não causaria reação, passa então a causar.” Para Arruda, crianças que cresceram em ambientes rurais têm menor predisposição a alergias, por morarem em ambiente “rico em bactérias e com leite não pasteurizado”.

O que mudou

Menor exposição ao sol, dieta baseada em alimentos processados e até mesmo o aumento no número de cesáreas são algumas das explicações para o crescimento no número de alérgicos. “Quando a criança nasce de parto normal, ela adquire bactérias da mãe que vão produzir uma resposta imune saudável. É o primeiro contato. Na cesárea, ela vai adquirir bactérias do próprio hospital, que são bem diferentes, que formam um microbioma favorável a desenvolver alergias”, explica Arruda.

O aumento da asma, que mata 3 pessoas por dia no Brasil, é também associado a mudanças do cotidiano, como passar mais tempo dentro de casa e fazer menos exercícios. Arruda explica que “ficar muito dentro de casa aumenta a exposição aos alérgicos do interior do domicílio, principalmente ácaros. Além do papel da vitamina D, com a menor exposição ao sol, ela também cai”. Esse tipo de vitamina é importante para o desenvolvimento do sistema imune.

Poluição e hábitos nocivos, como o fumo, também têm seu papel. As reações alérgicas podem ser leves, como uma simples coceira nos lábios, ou se complicarem em reações graves, como o choque anafilático.

Reação anafilática é uma resposta súbita do corpo que impõe socorro imediato por ser potencialmente fatal. “Antes a maior preocupação era com medicamentos, mas o alimento também pode causar esse tipo de reação violenta”, explica.

As principais vítimas

Crianças são quem mais sofrem com esse aumento de alergia porque o sistema imune ainda está em desenvolvimento. Arruda diz que “os primeiros meses, primeiro ano de vida, a gente chama de janela de oportunidade, porque ali acontecem as primeiras exposições aos micro-organismos. Por isso é um problema o uso muito precoce de antibióticos, porque modifica o desenvolvimento do sistema imune”.

Como a ação dos antibióticos alteram a flora bacteriana e o microbioma intestinal, diminuindo a diversidade do microbioma, essa mudança, principalmente em crianças, está associada a maior suscetibilidade a alergias e doenças inflamatórias. Estudos mostram que o microbioma de indivíduos saudáveis apresenta diferença em termos da composição dos micro-organismos, quando comparado a microbioma de indivíduos com doenças alérgicas.

Uma ação ainda avaliada diz respeito ao melhor momento para introduzir alimentos novos na dieta de uma criança. “Antes se dizia para retardar essa introdução, mas isso provocou a reação contrária, que foi o aumento das alergias.” O procedimento que Arruda incentiva é o de encorajar o aleitamento materno entre 4 a 6 meses, e quando os pais decidirem mudar a alimentação, fazê-lo de forma diversificada. “Não ter nenhuma restrição de introduzir os alimentos de acordo com a capacidade da criança de ingeri-los, não deixar de introduzir para tentar prevenir a alergia.”

Pastorino endossa o procedimento, indicando a introdução junto com a amamentação. “O leite materno dá uma proteção a mais, a criança teria mais tolerância a um alimento nos primeiros meses de vida do que deixar para introduzi-lo com 1 ano de idade.”

No caso da alergia respiratória, alguns estudos indicam a exposição da criança a animais de estimação, mas o ambiente poluído faz muita diferença, até em adultos. “A indicação é de tentar promover um ambiente mais seguro, com menos poluentes e menos fumaça de cigarro”, diz Pastorino.

As alergias alimentar e respiratória

O crescimento da asma, da rinite e de outros problemas respiratórios vem sendo observado há algum tempo. “O aumento da alergia respiratória já foi identificado antes, a partir da década de 1960. Já o aumento da alergia alimentar é mais recente, a partir dos anos 1990”, diz Arruda. 

A reação adversa a determinados alimentos envolve um mecanismo imunológico variável, com sintomas que podem surgir na pele, no sistema gastrointestinal e até respiratório, com reações que podem ser leves, como uma coceira, até reações graves que podem comprometer vários órgãos.

Entre os exemplos mais comuns de alergia respiratória estão a rinite e a asma. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) do Ministério da Saúde e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 6,4 milhões de brasileiros com mais de 18 anos têm asma. É a doença crônica mais comum no país e é responsável por mais de 100 mil internações no SUS. As informações são do Ministério da Saúde atualizadas em 2017.  Os sintomas das doenças respiratórias vão desde tosse, congestionamento nasal e dor de cabeça, a falta de ar e vômito.

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