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O petista que não queria Haddad. E agora chefia sua campanha

Ex-ministro de Lula e Dilma, ex-governador da Bahia e senador eleito, Jaques Wagner tem atuado como ‘bombeiro’ do PT

     

    A tarefa mais importante de Jaques Wagner no momento é tentar alavancar a campanha presidencial do PT, que vive a situação mais desfavorável desde que o partido iniciou seu ciclo de vitórias nacionais em 2002, com a primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

    Como coordenador político da campanha de Fernando Haddad, o ex-governador da Bahia viu o ex-prefeito paulistano avançar ao segundo turno, tendo como oponente Jair Bolsonaro (PSL), que acumula ampla vantagem sobre o petista, segundo as pesquisas Ibope e Datafolha.

    Enquanto o capitão da reserva tem entre seus principais ativos eleitorais o discurso de combate à violência e de ataques ao PT, Wagner tenta saídas por meio da articulação política, habilidade que o tornou apreciado dentro do partido e nos governos petistas.

    Quadro histórico do PT, Wagner chegou a ser cotado como candidato ao Planalto, uma opção para substituir Lula na campanha presidencial de 2018 em razão da situação penal do ex-presidente e as restrições da Lei da Ficha Limpa. Mas recusou para se candidatar ao Senado, para o qual foi eleito na Bahia com 4.253.331 votos (35,71% do total).

    O ministro de confiança e das horas difíceis

     

    O senador recém-eleito nasceu em 1951 e no fim da década de 1960, período da ditadura militar, entrou para a militância estudantil. Em Salvador, em meados da década de 1970, ajudou a criar os diretórios do PT e da CUT (Central Única dos Trabalhadores) no estado. Seu primeiro cargo eletivo foi na Câmara dos Deputados, em 1990, sendo reeleito depois em 1994 e 1998.

    O primeiro convite para a Esplanada dos Ministérios foi para a pasta do Trabalho, no primeiro mandato de Lula, em 2003. Em julho de 2005, tornou-se ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais. Eram tempos de repercussão do mensalão, recém-revelado pelo então deputado Roberto Jefferson (PTB). Coube a Wagner atuar na frente organizada pelo Planalto para conter os efeitos do escândalo à imagem de Lula e do governo petista.

    Evidenciou-se então o perfil “pacificador” e articulador atribuído ao político baiano, algo que contribuiu para a reeleição de Lula em 2006. Wagner ficou no posto até março daquele ano, quando deixou o cargo para concorrer ao governo da Bahia.

    A escolha foi acertada para ele, eleito já no primeiro turno com 52,8% dos votos. Sua vitória deu início a uma era petista num estado até então dominado pelo grupo político associado ao PFL (atual DEM) de Antônio Carlos Magalhães (1927-2007).

     

    Sob o embalo do governo Lula, Wagner foi reeleito em 2010, novamente no primeiro turno, com 63,83% dos votos. Em 2014, ajudou a eleger seu sucessor, Rui Costa, reeleito no primeiro turno, em 7 de outubro de 2018, com 75,5% dos votos.

    Assim que deixou o governo baiano, em 2014, Wagner foi acionado por Dilma, reeleita naquele ano, para seu segundo mandato presidencial. O ex-governador assumiu o Ministério da Defesa, a despeito de sua preferência pela Casa Civil, onde atuaria mais na articulação política. Mas Dilma optou por manter Aloizio Mercadante na função.

    Logo a relação entre Dilma e o Congresso deu sinais de forte desgaste e em outubro de 2015 Wagner foi transferido para o ministério desejado para tentar reverter o quadro de crise. Os planos eram reconquistar as bases de apoio de Dilma, mas as relações já estavam arruinadas, diante da piora da situação econômica, do avanço da Lava Jato e dos protestos de rua contra o PT. Na tentativa de recuperar pontes, Wagner apontou falhas do governo na economia e na gestão fiscal.

    “Sabemos que, se erramos, precisamos consertar os erros e, se acertamos, precisamos avançar nos acertos e seguir em frente. (...) Vivemos um momento politizado, com erros que cometemos, e se comete quando se governa”

    Jaques Wagner

    então ministro da Casa Civil, em entrevista à Rádio Metrópole, de Salvador, em dezembro de 2015

    Nem bem chegou à Casa Civil, Dilma tentou trocá-lo pelo próprio Lula. A escolha pelo ex-presidente tentava reforçar a articulação política do governo, cada vez mais ameaçado pelo impeachment, ao mesmo tempo em que asseguraria foro privilegiado a Lula — à época com ações na Lava Jato sob os cuidados do juiz federal Sergio Moro.

    O desfecho dessa história é conhecido. Moro divulgou uma conversa telefônica entre Lula e Dilma em que tratam de um “termo de posse”, o que foi interpretado como uma manobra dos petistas: Lula estaria indo para o ministério só para ganhar o foro privilegiado e sair da mira do juiz do Paraná.

    Houve reações populares e uma decisão liminar do ministro do Supremo Gilmar Mendes barrou a posse do ex-presidente como chefe da Casa Civil. Dois meses depois, em maio de 2016, Dilma foi afastada por manobras fiscais pelo Congresso, colocando fim a 13 anos seguidos de governo petista. O vice Michel Temer, que ajudou a articular o impeachment, assumiu o comando do país.

    Um crítico dentro do petismo

    Quando estava prestes a deixar a Casa Civil no governo Dilma, Wagner continuou a apontar os erros do PT, algo que com frequência a legenda é cobrada a fazer.

    Naquele momento, a Lava Jato já havia atingido os nomes mais relevantes do partido, incluindo Lula. A operação iniciada em 2014 revelou esquema de desvios e superfaturamentos. Grande empresários foram acusados e condenados por pagar propinas e fazer doações irregulares de campanha aos principais partidos políticos em troca de contratos públicos, entre eles da Petrobras e de obras da Copa do Mundo de 2014.

    “[O PT] Errou ao não ter feito a reforma política no primeiro ano do governo Lula. E aí não mudou os métodos do exercício da política. (...) Porque ficou usando ferramentas que já eram usadas. Do financiamento privado [para campanhas eleitorais] e aí acabou reproduzindo metodologias. Talvez, porque nunca foi treinado para isto, deve ter feito como naquela velha história: ‘Quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza’”

    Jaques Wagner

    então ministro da Casa Civil, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em janeiro de 2016

    Wagner também foi citado em depoimentos de empreiteiros investigados por pagar propina e doações eleitorais irregulares em troca de contratos públicos.

    Em fevereiro de 2018, a Polícia Federal indiciou o ex-governador por suspeitas de receber R$ 82 milhões da OAS e Odebrecht em troca dos contratos do estádio da Fonte Nova, em sua gestão. A defesa dele nega, diz que os valores são irreais e as acusações são “factoides”.

    O estrategista de campanha

     

    O andamento das investigações contra Wagner ocorreu quando o ex-governador estava entre os nomes avaliados para assumir a candidatura petista à Presidência quando Lula fosse barrado pela Ficha Limpa em razão da condenação na Lava Jato.

    Wagner deixava claro que não queria o posto, mas nunca se afastou dos bastidores da campanha. Nos pleitos anteriores, ele também participou das vitórias de Lula (2002) e da reeleição de Dilma (2014).

    Com a confirmação da aplicação da Lei da Ficha Limpa contra Lula, em setembro de 2018, Wagner tornou-se coordenador político da campanha de Haddad, oficializado como candidato oficial no dia 11 daquele mês.

    Wagner sempre discordou da estratégia do PT. Ele defendia que o partido cedesse a liderança da chapa presidencial a outro nome. O candidato de preferência de Wagner era o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT).

    “[PT pode ser vice de Ciro?] Pode. Sempre defendi que, após 16 anos, estava na hora de ceder a precedência. Sempre achei isso. Não conheço na democracia ninguém que fica 30 anos. Em geral fica 12, 16, 20 anos. Defendi isso quando o Eduardo Campos ainda era vivo. Estou à vontade neste território”

    Jaques Wagner

    ex-governador, em ato em 1º de maio de 2018

    A intenção de Wagner não se concretizou, e PT e PDT saíram em campos opostos. Ciro terminou o primeiro turno em terceiro lugar. Nas palavras recentes de Wagner, mesmo após o resultado do primeiro turno, o pedetista ainda era a melhor estratégia para vencer uma eleição em que parte do sucesso de Jair Bolsonaro, candidato do PSL, é atribuída ao discurso antipetista.

    No segundo turno, Wagner vem dando sequência a outras de suas estratégias, que visam a reduzir a rejeição ao petista e tirar a campanha do isolamento partidário. Haddad tem feito autocríticas, apontado erros do PT na Presidência e no combate a mal-feitos na gestão de estatais.

    Tem também buscado aliados para formar o que petistas chamam de “frente democrática” contra Bolsonaro. A busca incluiu o próprio Ciro, o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso e até mesmo o ex-ministro do Supremo Joaquim Barbosa, relator do mensalão — com quem Wagner já havia sugerido diálogo.

    Os esforços de Wagner, porém, ainda não surtiram efeitos. Por ora, os adversários derrotados dizem que não votam em Bolsonaro, mas hesitam em declarar apoio ao petista enquanto não houver mais autocrítica e alterações mais profundas no plano de governo. Wagner diz, por sua vez, que ainda não jogou “a toalha”.

     

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