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O método que auxilia a leitura de crianças com dislexia

Equipe de pesquisadores brasileiros e franceses comprovou que filtro de cor pode fazer com que disléxicos leiam mais rapidamente

     

    Crianças com dislexia apresentam dificuldade em relacionar letras e seus respectivos sons. Um novo trabalho de pesquisadores brasileiros e franceses, feito com 36 crianças de 9 e 10 anos, metade delas disléxica, provou que o uso de filtros verdes pode melhorar a velocidade de sua leitura.

    Nos testes, realizados em um hospital em Paris com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), foi constatado que as crianças disléxicas fixaram o olhar na imagem por 500 milésimos de segundo, em comparação a 600 milésimos, quando o filtro era amarelo ou não havia filtro. Crianças sem dislexia registraram 400 milésimos de segundo para a mesma ação.

    O uso de filtros coloridos para esse fim foi patenteado pela primeira vez em 1983. Entretanto, os estudos referentes à eficiência do método eram considerados incompletos. Ainda assim, ele era utilizado em países como a França. Em outros, como o Brasil, o método não foi adotado, pois havia poucas evidências de sua eficácia.

    A equipe franco-brasileira conseguiu analisar pela primeira vez o movimento dos olhos das crianças leitoras e comprovar a leitura mais veloz. “As crianças conseguiram identificar as letras e processar toda a questão semântica em um tempo menor”, afirmou José Barela, professor e pesquisador na área de desenvolvimento motor da Universidade Cruzeiro do Sul que integra a equipe do projeto, ao Nexo. A análise foi feita com câmeras acopladas em óculos, um equipamento de rastreamento de olhar com raios infravermelhos de uso médico.

    As pessoas com dislexia têm dificuldade em realizar ações como leitura, escrita e soletração

    Como se dá o mecanismo? De acordo com Barela, supõe-se que quando se altera a cor de uma situação, o sistema nervoso de uma criança leitora com dislexia passa a ficar mais “ativo” para a realização da tarefa, alcançando a velocidade maior.

    Barela oferece uma analogia para facilitar a compreensão. “Quando você é acostumado a dirigir um carro, acostumado com o freio e a embreagem, não presta muita atenção na hora de dirigir. Mas quando pega um carro diferente e o acelerador ou a embreagem estão mais moles ou duros, você passa a realizar a ação de modo mais consciente, com mais atenção”, explicou. “É uma possível explicação para a mudança da cor do filtro. Alteramos o estímulo que chega aos olhos das crianças e, com isso, algumas regiões do sistema nervoso ficam mais ativas, permitindo uma leitura mais rápida.”

    O pesquisador afirmou que o estudo é só uma etapa de um processo maior de compreensão dos mecanismos da dislexia. Segundo ele, é preciso entender, por exemplo, porque certas cores funcionam de modo distinto em crianças diferentes ou se, depois de algum tempo de uso do filtro, o olho da criança tende a se acostumar, reduzindo a eficácia do método.

    Uma condição neurológica

    A dislexia é uma condição neurológica que afeta a linguagem. Ela permanece por toda a vida e é frequentemente hereditária. As pessoas com dislexia têm dificuldade em realizar ações como leitura, escrita e soletração, pois áreas do cérebro que analisam novas palavras e que criam modelos neurais para palavras conhecidas não são ativadas.

    Existem dois tipos de dislexia: a do desenvolvimento, que vem desde o nascimento; e a adquirida, ou alexia, quando um indivíduo perde a capacidade de ler e escrever depois de uma lesão no cérebro ou doença.

    A dislexia aparece com maior frequência nas chamadas ortografias opacas, de línguas em que há muita variação na relação entre fonema (som) e grafema (escrita). É o caso dos idiomas francês e inglês. Nas ortografias transparentes, como espanhol e italiano, a relação entre representação gráfica e sonoridade é mais regular, o que contribui para uma incidência menor de dislexia.

    De acordo com o site Dislexia Brasil, a condição não é causada por baixas capacidades intelectuais, escolaridade ruim, problemas familiares ou dificuldade de aprender.

    “Dislexia não é uma categoria única, mas um transtorno que se encontra em um espectro de déficits”, descreveu a psicóloga britânica Maggie Snowling, em citação no site da Dislexia Brasil.

    No Brasil, segundo Barela, 5 a 15% da população tem dislexia, índice similar à média mundial.

     

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