Como avós estão ajudando pessoas com depressão

Para tentar preencher a disparidade entre o número de doentes e a quantidade de médicos no Zimbábue, idosas passam por treinamento em terapia cognitiva

     

    Mais de 300 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde). Não há, entretanto, médicos suficientes para oferecer acompanhamentos psicológico e psiquiátrico a esse número de pessoas. Ainda segundo a OMS, em 2014, 45% da população mundial vivia em países onde havia menos de 1 psiquiatra para atender 100 mil pessoas. Globalmente, são 7,7 enfermeiros que trabalham em saúde mental para cada 100 mil habitantes.

    O dado se torna ainda mais grave com o fato de o suicídio ser a segunda principal causa de morte entre pessoas de 15 e 29 anos no mundo. Um estudo feito em 2014 pela coalizão “We Need to Talk” revelou que, na Inglaterra, milhares de pessoas tentaram suicídio enquanto estavam na fila de espera para receber tratamento psiquiátrico pelo National Health Service (NHS), serviço público de saúde do país.

    No Reino Unido, a relação entre médico e paciente é de cerca de 19 psiquiatras para cada 100 mil habitantes. Em países em desenvolvimento, a disparidade entre médicos e pessoas precisando de tratamento é ainda maior. Na África subsaariana, a relação é de 1 para cada 1,5 milhões de pessoas. 

    Dixon Chibanda é um dos 12 psiquiatras do Zimbábue, país africano com uma população de mais de 16 milhões de habitantes. Quando um médico plantonista de uma cidade a 200 quilômetros da sua lhe telefonou, informando que uma paciente estava internada por tentativa de suicídio, Chibanda fez um acordo: ela passaria a semana internada, e de lá iria com a mãe dela encontrá-lo para determinar o tratamento. O encontro nunca aconteceu: três semanas depois a paciente, Erica, cometeu suicídio. Ao questionar a mãe por que não tinham ido procurá-lo, ouviu que não tinham dinheiro para a viagem de ônibus.

    Chibanda conta sobre esse acontecimento em sua palestra na plataforma TED Talk, na série TED Women, feita em novembro de 2017. Foi essa revelação, da falta de dinheiro e da distância para procurar tratamento, a precursora de um programa que o psiquiatra lançou em 2006, chamada Friendship Bench (banco da amizade, em tradução livre).

    Avós em ação

    Para tentar suprir a gigantesca disparidade entre pessoas que precisam de tratamento e terapeutas disponíveis, Chibanda montou um grupo com 14 avós, consideradas peças fundamentais nas comunidades africanas.

    Depois de um mês de treinamento em terapia cognitivo-comportamental, com acesso a psiquiatras e psicólogos de apoio por meio de plataformas digitais, como Skype e WhatsApp, elas iniciaram o processo de aconselhamento. As avós sentam em bancos de parques em suas comunidades, e passam a dar assistência a pacientes encaminhados por clínicas locais e outras fontes.

    Os especialistas perceberam que essas mulheres têm taxas surpreendentemente baixas de transtornos relacionados a estresse pós-traumático e outros problemas de saúde mental. São resilientes.

    Desde 2006, Chibanda e sua equipe treinaram mais de 400 avós, que passaram a agir em mais de 70 comunidades do país, conversando com dependentes químicos, idosos, pessoas que atravessam problemas financeiros, mulheres grávidas e solteiras. Só em 2017, o Friendship Bench atendeu no país mais de 30 mil pessoas. Apesar do apelido de “avós” ter sido mantido, não são exclusivamente avós que fazem parte do grupo. Em geral, as pessoas que prestam atendimento são mulheres com mais de 65 anos. No Zimbábue, o perfil das avós se mantém, mas em outras regiões, como no Maláui, a iniciativa já inclui homens. O programa já chegou a Nova York. Por lá, não existe restrição de gênero ou idade.

    Em artigo publicado no jornal britânico The Guardian, o psiquiatra explicou que acredita haver 40 anos de severo impacto psicológico na população do país devido aos eventos sócio-políticos das últimas quatro décadas. “Quatro gerações tiveram suas vidas marcadas por medo crônico. Eles suportaram a guerra de independência (1972-1979), os massacres de Matabeleland (ínicio dos anos 1980), a redistribuição forçada de terras (anos 2000), a destruição de casas e uma atmosfera geral de repressão violenta e luta econômica.” O médico acredita que cerca de 30% da população seja afetada por problemas de saúde mental.

    Sekesai Hwiza, uma avó zimbabuense de 82 anos, passa a maior parte das manhãs sentada em um banco de parque conversando com pessoas que estejam sofrendo de depressão. Desde que se juntou ao projeto, em 2015, até 2017, ela se reuniu com mais de 2.000 pessoas em sua comunidade. “Cada pessoa que se junta a Hwiza no banco encontra uma ouvinte paciente que dá conselhos sem julgamento com base nas melhores práticas da psicologia”, conta Chibanda, em reportagem publicada pelo jornal americano Los Angeles Times.

    Para confirmar clinicamente se o programa estava de fato produzindo efeito, Chibanda publicou os resultados do acompanhamento no Journal of American Medical Association. O estudo, divulgado em 2016, foi realizado em parceria com médicos do Zimbábue e do Reino Unido. Ao todo, foram analisadas 600 pessoas, em um intervalo de 6 meses, e o resultado foi impressionante.

    Apenas 2% daqueles que inicialmente relataram ter pensamentos suicidas ainda estavam pensando em tirar a própria vida, 6 meses depois de receber a terapia de uma avó. Em sua fala no TED, o psiquiatra chegou a afirmar que o tratamento com as avós foi mais efetivo do que o acompanhamento médico tradicional, em boa parte dos casos.

    A linha pouco ortodoxa de tratamento tem sido recebida com críticas e preocupação por parte da comunidade médica. Contudo, após a publicação dos resultados, e da garantia que casos severos são recomendados para atendimento profissional, o projeto se espalhou.

    Bancos ao redor do mundo

    Para além da relação com avós, Chibanda e sua equipe perceberam a potência do diálogo entre pessoas empáticas, que já tenham passado por situações difíceis. Foi assim que Nova York passou a receber voluntários.

    “Cobrimos todas as bases”, disse Takeesha White, diretora executiva do Escritório de Planejamento Estratégico e Comunicações do Centro de Equidade em Saúde do Departamento de Saúde de Nova York, em entrevista à BBC. “A população da cidade de Nova York é muito ampla.”

    Os bancos em NY começaram a ser planejados em 2016 e foram lançados oficialmente em meados de 2017, atraindo mais de 30 mil pessoas só no primeiro ano. “Quando visitei Nova York, fiquei agradavelmente surpreso ao descobrir que as questões com as quais os nova-iorquinos lidam são muito semelhantes às questões que temos aqui no Zimbábue”, diz Chibanda. “São questões relacionadas à solidão, ao acesso aos cuidados e à capacidade de saber que o que você está enfrentando é tratável.”

    O grupo de médicos da equipe de Chibanda no Reino Unido já planeja uma ampliação do programa também para Londres. Victoria Simms, epidemiologista da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e co-autora do estudo, afirmou: “Isso não é apenas uma solução para países de baixa renda. Essa pode muito bem ser uma solução da qual todos os países do mundo poderiam se beneficiar”.

    Um banco no Brasil

    Em entrevista ao Nexo, Rodrigo Leite, psiquiatra e mestre em políticas públicas e serviços de saúde mental, acredita que essa seria uma estratégia importante para o país, principalmente em relação ao alcance que poderia ter em zonas afastadas de centros urbanos.

    “Pensando na precariedade do nosso sistema público e como o profissional de nível superior muitas vezes está distante dessa realidade do Brasil, mais vulnerável, alguém próximo da sua realidade pode ser um facilitador. E a questão da aproximação e do vínculo na saúde mental é essencial. É através dele que a gente consegue intervir”, diz Leite.

    A principal questão, entretanto, diz respeito ao treinamento adequado dos terapeutas leigos. “É importante saber o limite dessa intervenção.”Leite acredita no êxito dessa forma de atuação, principalmente em sintomas leves de ansiedade e depressão, e em populações vulneráveis, ressaltando a necessidade de quem faz a vez de terapeuta de estar atento para um quadro mais complexo. “Tem que saber o momento de referenciar e encaminhar para alguém que possa lidar com [casos] com um nível de complexidade maior”.

    Outro ponto que Leite destaca é o custo financeiro, tendo em vista que o investimento para a formação médica é muito alto. “Há um campo enorme para essas iniciativas; fala-se muito da falta de médicos, mas a gente não pensa nessa outra possibilidade, a um custo ainda menor”, afirmou.   

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