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Como Bolsonaro rompeu os ‘tetos’ de votos da disputa presidencial

Candidato do PSL chegou a 46% de rejeição no primeiro turno e foi considerado 'adversário ideal'. Cientistas políticos analisam mudanças no cenário eleitoral

     

    A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (18) mostra que o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, tem 50% de intenção de votos no segundo turno e estaria eleito se a votação fosse hoje. Fernando Haddad, candidato do PT, aparece com 35%.

    Votos totais

     

    A pesquisa, feita nos dias 17 e 18 de outubro, mostra que, faltando dez dias para a eleição, a distância entre os dois candidatos é grande (se levada em conta somente a intenção de votos válidos, sem brancos e nulos, o placar fica 59% a 41%, uma diferença de 18 pontos).

    Os dados mostram um cenário diferente de uma série de avaliações feitas no início da campanha eleitoral, quando Bolsonaro, apesar da liderança, aparecia estagnado.

    Com alta rejeição, o candidato tinha dificuldades de conquistar novos eleitores. Para alguns analistas, ele tinha chegado a um teto. Nesse cenário, a um mês da votação em primeiro turno, Bolsonaro era visto como o adversário ideal em um segundo turno. A alta rejeição, calculavam, inviabilizaria uma vitória na etapa final.

    Geraldo Alckmin (PSDB), que disputava com Bolsonaro o voto do eleitorado mais conservador, propagava a tese de que votar em Bolsonaro no primeiro turno equivalia a levar o PT ao poder.

    Em algumas pesquisas, Bolsonaro aparecia perdendo todas as simulações de segundo turno, mesmo liderando na preferência do eleitorado no primeiro. Era uma situação bastante diferente da que o candidato vive agora.

    O teto e a rejeição

    Bolsonaro lidera a corrida presidencial desde antes do início do período eleitoral. Isso nos cenários sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi impedido pela Justiça Eleitoral de concorrer com base na Lei da Ficha Limpa.

    O candidato do PSL, apesar de líder, não tinha uma intenção de voto tão expressiva. Seus cerca de 20% de apoio se davam em um cenário de pulverização do eleitorado.

    No primeiro Datafolha realizado depois do início da campanha, Bolsonaro tinha 22%, mas era seguido por Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB), que, na época, apareciam com boas votações e chances reais de segundo turno. Juntos, os três tinham 35% do eleitorado.

    Um complicador para a situação do candidato do PSL era a rejeição, a maior entre os candidatos no primeiro turno. A parcela do eleitorado que dizia que não votaria em Bolsonaro de jeito nenhum cresceu ao longo da campanha e chegou a ser de 46%, um limitador para o crescimento do candidato.

     

    Durante a maior parte do período de campanha em primeiro turno, a intenção de voto em Bolsonaro ficou praticamente estável. Após sofrer um atentado a faca em Juiz de Fora (MG) no dia 6 de setembro, o candidato começou a crescer nas pesquisas, mas não com uma curva intensa.

    Nos dias que antecederam a eleição, porém, a situação mudou drasticamente. Se em cinco semanas Bolsonaro tinha crescido seis pontos, em oito dias ele cresceu oito pontos. Entre a última medição do Datafolha antes do primeiro turno, feita em 5 de outubro, e a eleição, dois dias depois, o candidato cresceu ainda mais.

     

    Os “tetos” que haviam sido estabelecidos ao capitão da reserva foram todos rompidos. Nas urnas, Bolsonaro obteve 46% dos votos válidos, contra 29% de Haddad.

    No último Datafolha, a rejeição do candidato do PSL estava em 41%, contra 54% do petista.

    Diante disso, o Nexo conversou com dois cientistas políticos sobre os motivos de o potencial eleitoral de Bolsonaro ter sido subestimado no início da campanha e sobre como ele conseguiu diminuir a rejeição e romper os tetos de votos estipulados para ele.

    • Carlos Pereira, professor da FGV-Ebape (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas)
    • Vitor Marchetti, professor da Universidade Federal do ABC

    Como Bolsonaro conseguiu romper os tetos de voto estabelecidos para ele?

    Carlos Pereira Ele tinha um teto porque o nicho do eleitorado dele no início era muito restrito a um eleitorado conservador, retrógrado, com uma agenda pré-moderna, do século 19, nos costumes, em questões identitárias. A campanha ficava restrita a esse universo.

    Com o decorrer da campanha, com o discurso antissistema, ele encarnou muito bem o antipetismo. O petismo, em última instância, foi o responsável pela ampliação do nicho inicial dos eleitores de Bolsonaro. No início ele tinha 15%, 17%, um eleitor conservador, família, que defende uma sociedade tradicional.

    Com o antipetismo, a campanha foi conseguindo penetrar em outros estratos da população que tinham se decepcionado com o PT, com o discurso e a falta de autocrítica do PT ao longo dos anos. Bolsonaro foi preenchendo isso de uma forma habilidosa, foi rompendo as barreiras.

    Quando Haddad é anunciado [a substituir Lula como candidato em 11 de setembro] e começa a receber a transferência de votos, eleitores de centro e que não necessariamente eram bolsonaristas começaram a considerar a possibilidade de votar já no primeiro turno como uma forma de evitar o PT.

    Ao contrário do que muitos imaginaram, inclusive eu, que imaginava que esses eleitores iriam escolher um candidato de centro, o que ocorreu foi um voto estratégico já no primeiro turno em favor de Bolsonaro.

    O antipetismo e o comportamento estratégico já no primeiro turno ajudaram muito Bolsonaro a romper essa barreira inicial que existia no início da campanha.

    Vitor Marchetti  A ideia do teto vinha de uma rejeição consolidada e alta, naquele momento, principalmente em duas frentes.

    O eleitorado feminino, que representa a maior parte do eleitor brasileiro, sempre foi um fator de desafio para o crescimento da candidatura. Havia a resistência também dos mais pobres, que tinham menos disposição em votar no Bolsonaro do que mostram os números mais recentes.

    As explicações para o rompimento do teto ainda estão muito no terreno da especulação, mas a gente começa a entender a partir das notícias sobre o papel da comunicação em massa nas redes sociais. Isso parece ter sido decisivo.

    Ele conseguiu ingressar no eleitorado mais pobre fundamentalmente com a adesão das igrejas evangélicas, que entraram de cabeça na campanha na reta final do primeiro turno, e foram grandes disseminadores de notícias. Assim, a campanha conseguiu transferir a rejeição que era colada ao Bolsonaro aos adversários.

    A que atribui a diminuição da rejeição a Bolsonaro ao longo da campanha?

    Carlos Pereira O segundo turno força os polos a moderarem o discurso em busca do eleitor mediano. Quando ele começou a sinalizar movimentos para o centro, ele se tornou mais palatável para o centro. Por outro lado, Haddad demorou a sinalizar para esse eleitor de centro e mesmo quando sinalizou não passou sinceridade, não conseguiu convencer esse eleitor de centro de que o PT estava de fato convencido a não interferir em instituições de controle, a não libertar o ex-presidente Lula. As promessas soaram não críveis, as de Bolsonaro soaram mais críveis.

    Existiam muitos receios sobre as declarações do general Hamilton Mourão [candidato a vice], mas Bolsonaro sinalizou que ele próprio é que está no comando. Isso acalmou o eleitor receoso. As promessas de Haddad soaram menos críveis, uma vez que ele sofreria pressões de setores do PT que se sentem prejudicados pela Justiça, do Ministério Público.

    Assim, a rejeição de Bolsonaro despenca, e do Haddad aumenta. E segundo turno é um jogo de soma zero: quando um cresce, o outro perde.

    Vitor Marchetti Houve uma inversão de rejeição. A rejeição do Haddad também cresce muito forte. Esse papel da comunicação me pareceu decisivo principalmente nas camadas mais pobres, com a adesão dos pastores evangélicos. A diferença entre os dois candidatos no eleitorado evangélico é muito grande [35 pontos].

    O segredo para entender como ele rompe o teto está na capacidade de comunicação de massa focada no eleitorado feminino e nos mais pobres.

    Hoje o antipetismo histórico está muito contaminado por um sentimento antissistêmico. Tem uma ideia que relaciona o PT ao sistema. Saiu recentemente uma pesquisa mostrando as imagens mais compartilhadas pelo WhatsApp, e entre as imagens de políticos mais compartilhadas está uma do Lula e do Fernando Henrique em uma campanha nos anos 1980 com uma mensagem que dizia que eles são todos iguais e representam o sistema. Pra mim isso é muito simbólico.

    Olhando para as últimas décadas, com as disputas entre PT e PSDB, penso que o que existe de rejeição hoje é em relação a essa estrutura. O que hoje se chama antipetismo, eu entendo como antissistêmico.

     

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