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Uma eleição de manifestos. E os efeitos da ação pública

Grupos sociais diversos divulgaram textos em que declararam defesa ou contrariedade a candidatos à Presidência

     

    Pessoas atuantes nas mais diversas áreas, assim como integrantes de inúmeras categorias profissionais, vêm deixando suas assinaturas em manifestos e notas públicas com posicionamentos a respeito da campanha eleitoral de 2018.

    Os textos se tornaram comuns na reta final do primeiro turno e ganharam um novo impulso com a disputa final pela Presidência da República entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). São posições públicas de apoio ou rechaço aos candidatos.

    Em sua maioria, os manifestos são contra Bolsonaro e têm como principal argumento a defesa de democracia. Já os textos divulgados em favor do capitão da reserva resgatam os escândalos de corrupção envolvendo o PT e a crise econômica iniciada nos governos do partido.

    Em períodos eleitorais, é bastante comum setores organizados formalizarem em documentos, como cartas-compromissos, as propostas de seu interesse que esperam ver postas em prática pelo futuro presidente, sem necessariamente apoiar um candidato.

    Em 2018, esse tipo de manifestaç��o perdeu espaço para os textos cujos autores e signatários pedem pela eleição de um dos concorrentes ou pela união contra um deles.

    Exemplos de manifestos

    Contra Bolsonaro

    “Pela Democracia, pelo Brasil”, de 23 de setembro, assinado por escritores, acadêmicos e artistas; “Mulheres contra Bolsonaro”, em 29 setembro; “Democracia brasileira em risco”, assinado por deputados do Parlamento Europeu, em 16 de outubro.

    A favor de Bolsonaro

    Nota em apoio assinado pela Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil, em 20 de setembro; “Manifesto pela Democracia: Brasil em Debate”, assinado por advogados e professores de direito, em 16 de outubro; texto assinado por prefeitos de 160 cidades paulistas, em 16 de outubro.

    A favor de Haddad

    Manifesto “inter-religioso contra a barbárie”, assinado por entidades de judeus, muçulmanos e cristãos em 11 de outubro;  “Pela democracia, todas e todos com Haddad”, de 1.500 professores e profissionais de Direito, em 18 de outubro; Manifesto dos Economistas pela Democracia Brasileira, de economistas brasileiros e estrangeiros, em 19 de outubro.

    Os políticos em cima do muro

    Na quarta-feira (17), 21 historiadores escreveram uma “carta aberta” a Fernando Henrique Cardoso. No texto, eles pedem ao ex-presidente para apoiar abertamente Haddad.

    O tucano já disse que não apoia Bolsonaro, mas resiste em declarar uma aliança formal com o petista. Marina Silva, candidata derrotada da Rede, também optou pela neutralidade.

    Haddad tentou reunir o que chamou de uma “frente ampla democrática”, mas não obteve sucesso. Nem mesmo Ciro Gomes, candidato do PDT que ficou em terceiro lugar na corrida presidencial, vem se engajando em sua campanha.

    Duas análises sobre a assertividade

    O Nexo entrevistou dois professores a respeito da relevância desse tipo de documento e do impacto deles para o debate eleitoral. São eles:

    • Maria do Socorro Braga, cientista política e professora da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
    • Rogério Baptistini, sociólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo

    Houve ação semelhante, de tantos manifestos, em outras eleições?

    Maria do Socorro Braga O que muda muito para mim é o teor da pauta destacada por esses grupos, que é a defesa pela democracia. Antes, as pautas apresentadas por certos grupos em períodos eleitorais diziam respeito a seus próprios setores. Dessa vez a candidatura do Bolsonaro une elementos que, na visão desses grupos que estão se posicionando, vão tão contra a princípios do Estado democrático de direito, que acabam os unindo [os setores].

    Vejo uma certa proximidade com o que ocorreu em 1989. [Fernando Collor] era um candidato similar do ponto de vista da rejeição que havia na sociedade, especialmente para setores mais organizados. Naquele momento ainda havia o clima criado em torno da Assembleia Constituinte [responsável pela elaboração da Constituição de 1988], que unia pessoas diversas dentro de uma questão mais geral. Apesar das diferentes demandas (umas apoiavam o presidencialismo, outras o parlamentarismo), havia esse amálgama ao redor da democracia.

    E hoje parece que há um resgate por parte desses setores de tentar se voltar contra a candidatura que, para eles, pode ser um retrocesso muito grande. Mas o quanto o antipetismo pode contaminar as lideranças políticas? Por que elas não se unem, já que há essa ameaça, segundo essa narrativa, ao regime democrático? O antipetismo é forte numa parte da sociedade e dentro da classe política também. Aí está a diferença entre ela e setores da sociedade que preferem ficar com Haddad a deixar o Bolsonaro vencer.

    Rogério Baptistini Me lembro que no segundo turno em 1989 houve uma aliança mais natural em torno do Lula, que representava mais o que seria um campo democrático e de partidos mais ligados à transição do sistema político formal. Hoje na verdade não temos um arco de alianças em torno do PT. O partido não conseguiu atrair todo o campo democrático. O que se tem é uma grande rejeição ao candidato Bolsonaro em grupos mais esclarecidos e que atuam em defesa dos direitos humanos.

    Em 1989, Collor não era um “ele não” [referência à expressão usada em protestos contra Bolsonaro]. Não havia um temor de regresso ao período anterior [da ditadura militar] nem um discurso de cassação aos costumes ou de preconceito contra minorias. Hoje o que temos é um discurso fortemente voltado para os costumes, que se sobrepõe aos temas estruturais, como economia.

    Qual o efeito desses manifestos?

    Maria do Socorro Braga Acredito que possam ter um impacto internacional e interno. A depender de uma possível vitória de Bolsonaro, pensando num cenário em que toda essa narrativa se confirme [de quem vê ameaças à democracia], os pesos e as responsabilidades dessas lideranças recairiam sobre elas caso elas não tivessem se posicionado. Seriam cobradas pela história porque elas têm, sim, um peso importante para formação de opinião.

    Esses manifestos não conseguiram reverter o quadro eleitoral e também não conseguiram mobilizar as lideranças de outros partidos, porque o antipetismo acabou se sobrepondo. Ainda assim, os considero válidos porque essa mobilizaç��o trouxe elementos importantes para o debate público e mostrou que havia algo unindo atores diversos que transcendia a disputa eleitoral.

    Rogério Baptistini São manifestações desesperadas e que, sobretudo, repercutem pouco onde elas deveriam efetivamente repercutir, que é na massa do eleitorado. Essas ações ficam nos seus nichos e não transbordam para o eleitorado, porque ele já formou uma convicção. E esta eleição é muito singular, porque ela está acontecendo nas redes sociais e no WhatsApp. É um fenômeno novo que vai nos levar a refletir sobre como esta democracia vai se organizar daqui para frente.

    Acho que esses manifestos são elaborados porque têm de ser elaborados. Os grupos com consciência pública têm de se posicionar. Esses manifestos podem cumprir uma função posterior à eleição. A eleição não termina com o jogo democrático. Pelo contrário, o jogo começa após a eleição. Esses manifestos podem situar a formação de uma oposição legítima, podem propor pautas e podem sinalizar agregação de forças que formem um centro político para o país. Porque é disto que o país vai precisar: de um centro que se recomponha.

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