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Como o aquecimento global arrisca locais tombados

Monumentos reconhecidos pela Unesco e localizados próximo à costa do Mediterrâneo podem sofrer com o aumento do nível do mar

 

O título de Patrimônio Mundial é concedido a um seleto grupo de locais pela Unesco (Organização para a Educação, Ciência e Cultura da ONU). Ele pode ser postulado por governos que desejam, com ele, garantir que status e importância natural ou cultural de determinadas áreas sejam reconhecidos mundialmente.

A concessão do título de Patrimônio Mundial não traz obrigatoriamente nenhuma mudança prática na forma como se lida com um local. Sua proteção continua sendo, essencialmente, responsabilidade dos países que os abrigam. Mas o peso simbólico e atenção que o título suscita podem servir de argumento para que diferentes governos adotem medidas de preservação no decorrer de décadas.

Atualmente, 1.092 formações naturais ou culturais são consideradas Patrimônio Mundial. Grande parte delas em locais próximos às áreas costeiras, onde a atividade humana historicamente foi favorecida pela oferta de alimento e facilidade para navegação e comércio.

Um estudo publicado em 16 de outubro de 2018 na revista acadêmica Nature Communications buscou identificar se o aquecimento global traz riscos para a preservação de monumentos históricos localizados às margens do mar Mediterrâneo até o ano de 2100.

Intitulado ‘Patrimônio Mundial da Unesco no Mediterrâneo sob risco de enchentes costeiras e erosão devido ao aumento do nível do mar’, o trabalho destaca que esses locais estão ameaçados pelo aumento do nível do mar. Medidas de preservação, no entanto, normalmente não consideram esse problema.

Os pesquisadores analisaram os riscos oferecidos aos locais em quatro diferentes cenários de aquecimento previstos para o período entre 2000 e 2100. O trabalho analisou os casos de 49 localidades, a maioria delas em Itália, Croácia, Grécia, Tunísia e Turquia.

Maior parte dos monumentos sob risco

Independente das medidas tomadas pela humanidade para diminuir emissões de gases estufa, 47 sítios protegidos têm risco de sofrer com erosão ou com enchentes até 2100. Os dois que não estão sob risco são: Almedina de Túnis, um quarteirão histórico ao centro da capital tunisiana, e o santuário de Leto, na Turquia.

O trabalho ressalta, no entanto, que “o risco vai continuar a aumentar em 2100, em particular na segunda metade do século”. Mesmo que esses locais não fiquem inundados de forma perene, é possível que a frequência de eventos de inundação e erosão aumente, acelerando a degradação. O grau da mudança depende das medidas tomadas ou não por governos.

Medidas podem ser custosas

O trabalho afirma que uma opção já utilizada em alguns monumentos históricos é a realocação para áreas mais distantes da costa, como ocorreu como a Torre de Clavell e o farol de Belle Tout, no Reino Unido. Algo que é, no entanto, difícil de aplicar em se tratando de construções localizadas em bairros históricos, por exemplo. Além de custosa, a realocação também coloca em risco o próprio valor histórico do patrimônio.

Outra alternativa é a aplicação de medidas que protejam a costa. O trabalho cita o exemplo do Modulo Sperimentale Elettromeccanico, um sistema de barreiras mecânicas móveis que está sendo construído na costa de Veneza, na Itália. Elas seriam erguidas quando as águas subissem.

Apesar de não interferir definitivamente com o ecossistema local ou com sua aparência, a medida é extremamente cara, ressalta o trabalho. Uma outra alternativa é empregar os próprios ecossistemas costeiros como forma de mitigar os efeitos das cheias - o trabalho traz, no entanto, menos detalhes sobre o tipo de técnica que poderia ser empregada.

“Nossos resultados podem aumentar a conscientização de formuladores de políticas públicas e gestores de patrimônio cultural, ao pontuar a necessidade urgente de adaptação, à medida que um grande número de locais de Patrimônio Mundial já correm risco de cheias costeiras e erosão. Ambos os riscos serão exacerbados no decorrer do século 21 e, possivelmente, além dele.”

Estudo ‘Patrimônio Mundial da Unesco no Mediterrâneo sob risco de enchentes costeiras e erosão devido ao aumento do nível do mar’

 

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