2º turno sem debate: os efeitos para Bolsonaro, Haddad e eleitores

Candidato do PSL não garantiu presença nos eventos. Caso falte, será a primeira eleição sem embate de propostas no segundo turno desde a redemocratização

     

    O candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, tem afirmado que deverá faltar a todos os debates previstos neste segundo turno das eleições de 2018. Caso deixe realmente de ir aos encontros, será a primeira eleição presidencial brasileira sem debates no segundo turno desde a redemocratização.

    Do domingo (14), em transmissão ao vivo pelo Facebook, Bolsonaro disse que sua presença nesses encontros dependeria de uma nova avaliação médica. O presidenciável foi vítima de um atentado a faca em 6 de setembro e, desde então, está em recuperação. Na quinta-feira (11), o candidato aventou se ausentar de todos os seis debates programados pelas TVs, mesmo que fosse liberado pelos médicos para os dois últimos, na Record e na Globo.

    A programação

    11 de outubro, na Rede Bandeirantes, às 22h

    14 de outubro, na Gazeta, às 19h30

    15 de outubro, na RedeTV, às 22h

    17 de outubro, no SBT, às 18h20

    21 de outubro, na Record, às 22h

    26 de outubro, na Rede Globo, às 21h30

    Adversário de Bolsonaro no segundo turno, o candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, tem provocado o rival a participar dos eventos. Disse que, fosse necessário, iria até a enfermaria para debater em caso de Bolsonaro faltar por recomendação médica.

    Esse tema surgiu em uma discussão travada entre Bolsonaro e Haddad no Twitter nesta terça-feira (16). Depois de Bolsonaro ter feito uma crítica sem citar o nome de Haddad em um post, o candidato do PT respondeu diretamente ao adversário pela rede social. No fim da discussão, Haddad publicou uma foto dos púlpitos utilizado nos debates, com a mensagem: “Te espero aqui, deputado”.

    Ausências em debates

    Bolsonaro não será o primeiro candidato à Presidência a faltar a debates. Outros postulantes ao Palácio do Planalto em eleições anteriores se ausentaram. A diferença é que, até agora, isso só havia acontecido durante o primeiro turno.

    Collor não foi aos debates

    Fernando Collor de Mello, candidato do PRN em 1989, não foi a debates no primeiro turno. Já no segundo, ficou frente a frente com o então candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. Collor venceu o adversário no segundo turno, com 53% dos votos válidos.

    FHC foi apenas a um debate

    Em 1994, o tucano Fernando Henrique Cardoso venceu as eleições no primeiro turno, ocorrido em 3 de outubro daquele ano. O principal adversário de FHC era Lula, que liderou a disputa até julho. Três debates aconteceram durante o primeiro turno. O tucano só foi ao primeiro.

    Na reeleição, nada de debate

    Em 1998 foi a primeira vez que um presidente pôde disputar uma reeleição. E, mais uma vez, FHC venceu o pleito daquele ano no primeiro turno. Seu principal adversário foi, de novo, Lula. O tucano não foi a nenhum debate.

    Lula foi a todos

    Lula foi eleito presidente do Brasil nas eleições de 2002, ao derrotar o tucano José Serra no segundo turno. Naquele ano, o petista compareceu a todos os embates transmitidos pelas emissoras de televisão.

    Na reeleição, só no 2º turno

    Ao concorrer a reeleição, em 2006, Lula se ausentou de todos os quatro debates do primeiro turno. Ele só compareceu aos eventos do segundo turno, em um embate direto com Geraldo Alckmin (PSDB). Lula venceu Alckmin com mais de 60% dos votos válidos.

    Dilma não foi a dois

    Dilma Rousseff foi eleita presidente nas eleições de 2010, ano em que derrotou José Serra (PSDB) no segundo turno. Naquele ano, a petista faltou a dois debates no primeiro turno. Na segunda fase, ela foi a todos os embates.

    Na reeleição, Dilma foi a todos

    Dilma concorreu à reeleição em 2014 e venceu. Ela derrotou o tucano Aécio Neves em dois turnos, em uma das disputas mais acirradas da história. A petista compareceu a todos os debates.

    O que a falta de debate pode provocar

    Diante da chance de não haver um embate de propostas entre Bolsonaro e Haddad no segundo turno, o Nexo entrevistou dois professores de ciência política para entender quais são os efeitos dessa hipótese. São eles:

    • Fabio Vasconcellos, professor de ciência política da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
    • Nara Pavão, professora de ciência política da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco)

    Qual o efeito da ausência de debate para Bolsonaro?

    Fabio Vasconcellos Em eleições com diferenças mínimas de intenções de votos entre dois competidores e um percentual considerável de indecisos, o prejuízo seria enorme. No entanto, não é esse o quadro.

    Até porque, para boa parte dos eleitores de Bolsonaro, não ir ao debate não tem importância alguma. Em certos grupos, percebe-se, inclusive, elogios à não participação. Do tipo, vencedor não se expõe. Há uma grau de convicção na decisão por Bolsonaro que o imuniza de eventuais perdas. Se houver, é tangencial.

    Nara Pavão Bolsonaro tem usado uma estratégia de campanha focada nas redes sociais, no contato mais direto com o eleitorado. Isso garante a ele um controle grande sobre seu discurso e propostas, que não são confrontadas nem questionadas. É uma posição muito confortável. Por não ter experiência com os debates, Bolsonaro estaria em desvantagem se participasse de algum. Por isso os evita.

    Como grande parte da população e da classe política parece não se importar muito com o que a falta de debate de propostas pode significar no contexto atual, essa estratégia de Bolsonaro não me parece ter um custo eleitoral alto para ele. É como se a estratégia de evitar debates se alinhasse a outros comportamentos anti-política do candidato. Ela não causa estranheza entre seus potenciais eleitores e acaba sendo positiva para o desempenho de Bolsonaro nas urnas.

    Qual o efeito da ausência de debate para Haddad?

    Fabio Vasconcellos O efeito é alto porque o candidato do PT queria que os eleitores comparassem os dois projetos, as duas personalidades, em um evento que permite esse tipo de avaliação.

    Embora a propaganda tente fazer isso, só os debates ao vivo permitem uma comparação direta. Isso tem um alto valor para quem considera que é capaz de ter uma melhor oratória e desempenho em frente às câmaras.

    Não havendo debate, portanto, Haddad se prejudica mais porque ele desejava sensibilizar eleitores menos convictos de Bolsonaro, hoje de fato em menor número, como sensibilizar eleitores de outros candidatos no primeiro turno.

    O debate seria uma boa oportunidade para isso não apenas pelo debate em si, mas pelas imagens que esse evento gera, que servem para engajar apoiadores e subsidiar a propaganda no rádio e na TV. Vamos lembrar que o fato de ser ao vivo impõe sempre mais riscos para quem está em primeiro lugar nas pesquisas, não para o segundo colocado.

    Nara Pavão O efeito para Haddad parece ser negativo. A estratégia de campanha dele é mais tradicional do que a de Bolsonaro, então ele precisa de mais espaço na TV.

    A campanha de Haddad é mais focada em propostas, que tendem a ter mais espaço nos debates presidenciais. A campanha de Bolsonaro possui algumas propostas, mas é também fortemente motivada pela rejeição ao PT e à política tradicional. E, dentro dessa lógica, a comparação de propostas concretas importa muito pouco. 

    Qual o efeito da ausência de debate para o eleitor?

    Fabio Vasconcellos Muito ruim. O Brasil está na pior crise pós-88, com problemas graves para serem resolvidos, com o sistema político no chão.

    Seria fundamental para os eleitores que esses dois projetos fossem confrontados, que pudéssemos ver o desempenho dos dois diante de questões difíceis, que ambas as candidaturas têm.

    Sem debate, caminhamos para uma eleição cujo principal fator tem sido ignorar. Eleitores de Bolsonaro ignoram argumentos contrários ao seu candidato; eleitores de Haddad ignoram argumentos contrários ao candidato.

    O debate poderia promover o encontro desses dois grupos e de um terceiro, hoje em menor número, o de indecisos ou os que pretendem anular. É a possibilidade de não mais ignorar as informações via rede social, mas de encarar as contradições e dificuldades de ambos e, assim, tomarmos uma decisão mais bem informada.

    Nara Pavão Vários estudos mostram que os efeitos dos debates sobre o eleitor tendem a ser bem limitados. Primeiro porque uma parcela relativamente pequena da população assiste aos debates. Em 2014, esse percentual variou de 14% a 30%, dependendo do debate. Além disso, essa pequena parcela da população que assiste aos debates não é representativa da população Brasileira.

    Um estudo conduzido por Ryan Lloyd (USP) e Lucio Rennó (UnB) sobre o efeito dos debates nas eleições de 2014 mostra que eleitores que possuem partidarismo e maior interesse por política são os que mais assistem aos debates. Ou seja, quem mais assiste aos debates são precisamente aqueles eleitores que dificilmente serão persuadidos, que dificilmente mudarão de opinião.

    Apesar de sabermos muito pouco sobre os efeitos dos debates presidenciais no Brasil, existe um consenso na literatura internacional de que os debates possuem efeitos mínimos sobre a escolha do voto. Os debates muitas vezes reforçam crenças prévias e não mudam drasticamente opiniões sobre os candidatos e suas propostas. Alguns estudos conduzidos nos EUA indicam que os debates podem alterar a percepção que as pessoas possuem sobre a personalidade dos candidatos, mas não sobre suas propostas substantivas nem sobre a escolha do voto em si. Nesse sentido mais estrito, a ausência de debates pode não ter um efeito assim tão grande para o eleitor.

    Mesmo que os debates não tenham um efeito direto muito forte sobre os eleitores, eles continuam sendo, ao meu ver, importantes para a democracia. Eles produzem um conteúdo que serve para orientar o debate público, para realinhar propostas, e para pautar o posicionamento das elites e da mídia. É preciso conhecer e debater o que será feito para que se possa cobrar depois. É uma forma positiva de controle dos candidatos e de suas propostas.

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