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O que Haddad fez para atenuar o antipetismo. E qual o resultado

Candidato do PT passou a fazer gestos na busca por mais apoio no segundo turno. Mas ideia de reunir uma frente ampla contra Bolsonaro não se concretizou até aqui

     

    O antipetismo é central no discurso de Jair Bolsonaro, candidato do PSL à Presidência, desde o início da campanha eleitoral de 2018. A questão passou a ser central, também, para o próprio PT no segundo turno da disputa pelo Palácio do Planalto.

    Fernando Haddad, candidato do partido e adversário direto de Bolsonaro, vem fazendo autocríticas pontuais, ao mesmo tempo em que dá sinais ao centro a fim de reduzir a rejeição e obter mais apoio, do eleitor e de outros políticos, na votação final de 28 de outubro.

    O petista já reduziu o uso da imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu padrinho político que está preso pela Operação Lava Jato, e ainda diminuiu a utilização do vermelho, cor da bandeira do partido, nos materiais de campanha.

    Também deu início a uma série de declarações públicas. São movimentos que já haviam ocorrido de forma tímida no primeiro turno, mas se intensificaram no segundo a partir de cobranças externas. Até esta terça-feira (16), a 12 dias da votação, não há resultados.

    Nas pesquisas, Bolsonaro abriu uma ampla margem contra o candidato petista, conforme mostram os institutos Datafolha e Ibope. E a ideia de reunir uma frente ampla contra o capitão da reserva se mostra cada vez mais distante. Veja abaixo seis sinalizações de Haddad e confira quem aderiu de fato à sua campanha.

    A questão da economia

    Uma das principais críticas ao PT se dá na área econômica. Depois de um período de crescimento e avanço social nos dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva  (2003-2010), a economia começou a patinar com Dilma Rousseff (2011-2016), chegando à recessão registrada de 2014 a 2016, numa das mais profundas crises econômicas da história recente brasileira. 

    Em entrevistas ainda no primeiro turno, Haddad já admitia que o governo Dilma havia errado na economia, em especial na concessão de desonerações fiscais. Mas a autocrítica sempre vem acompanhada de um adendo: o candidato afirma que houve boicote no Congresso ao ajuste fiscal de Dilma a partir de 2015.

    “As pautas-bomba [aprovadas pelo Congresso] e a sabotagem que ela [Dilma] sofreu tiveram mais influência na crise do que os eventuais erros cometidos antes de 2014”

    Fernando Haddad

    candidato do PT à Presidência, durante entrevista ao Jornal Nacional

    A questão da corrupção

    Os escândalos de desvios de dinheiro público envolvem os principais partidos do país desde a deflagração da Operação Lava Jato, entre eles o PP, ex-partido de Bolsonaro.

    O capitão da reserva, que não tem o próprio nome envolvido em denúncias da Lava Jato, mudou-se para o PSL em março de 2018. E foca seu discurso eleitoral no PT, partido que estava no poder quando os escândalos vieram à tona e que teve parte de seus líderes presos, incluindo o principal deles, Lula.

    No sábado (13), durante um ato de campanha na periferia de São Paulo, Haddad disse ser a favor da prisão de dirigentes de seu partido, desde que haja provas suficientes contra eles. No caso de Lula, o candidato do PT diz não haver provas. Também admitiu descontrole em estatais como a Petrobras, epicentro da Lava Jato.

    “Faltou controle interno nas estatais [nos governos petistas], isso é claro. Os diretores ficaram soltos para promover a corrupção e se enriquecer pessoalmente”

    Fernando Haddad

    candidato do PT à Presidência, em entrevista coletiva em São Paulo

    Em entrevista ao SBT na quarta-feira (17), Haddad chegou a elogiar Sergio Moro, juiz responsável pela Lava Jato em Curitiba, mas com uma ressalva sobre a sentença que condenou Lula por corrupção e lavagem de dinheiro no caso tríplex. “Em geral ele [Moro] ajudou [o país]. Em relação à sentença do Lula, acho que foi um erro que vai ser corrigido pelos tribunais superiores porque ele não apresentou provas contra o presidente. Em geral Sergio Moro fez um bom trabalho”.

    A questão da Assembleia Constituinte

    No plano de governo apresentado à Justiça Eleitoral, Haddad propôs a reformulação da Constituição Federal. No texto, o candidato sugeria a convocação de uma Assembleia Constituinte “democrática, livre, soberana e unicameral”, sob argumento de ser um passo necessário para o “restabelecimento do equilíbrio entre os Poderes”,  para “assegurar a retomada do desenvolvimento” e “a garantia de direitos”.

    Haddad, porém, recuou da proposta na virada do primeiro para o segundo turno, depois que potenciais aliados na nova etapa da disputa presidencial começaram a criticar a promessa petista. Ciro Gomes, que disputou a Presidência pelo PDT no primeiro turno e ficou em terceiro lugar, chamou a proposta de Haddad de “violação institucional”.

    “Nós revisamos nosso posicionamento, faremos as reformas devidas por emendas constitucionais”

    Fernando Haddad

    candidato do PT à Presidência da República, em entrevista ao Jornal Nacional no dia 8 de outubro, dia seguinte à votação do primeiro turno

    A questão da Venezuela e da Nicarágua

    Bolsonaro tenta associar a candidatura do PT a uma ameaça de instituição do comunismo no Brasil, algo sem base em fatos concretos, mas que ganha bastante adesão entre o eleitorado do capitão da reserva. Em vários momentos, o candidato do PSL questiona a relação que os governos petistas mantiveram com presidentes da Venezuela e da Nicarágua, considerados por Bolsonaro “ditaduras comunistas”

    A direção do PT apoia os dois governos e evita caracterizá-los como ditaduras. Os dois países passam por crises políticas graves. Em ambos, a oposição pede a saída dos presidentes do poder. Estes, por sua vez, respondem com prisões de opositores e repressão nas ruas. Organizações internacionais apontam violações de direitos humanos.

    Haddad demonstrou publicamente uma posição diferente da direção do partido. Ainda em 18 de agosto, quando não era o candidato oficial do PT, afirmou que a Nicarágua e a Venezuela não podiam ser considerados governos democráticos. Haddad não fez críticas diretas a Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, e Nicolás Maduro, presidente da Venezuela.

    “Quando você está em conflito aberto, como está lá [na Venezuela e na Nicarágua], não pode caracterizar como uma democracia. A sociedade não está conseguindo, por meios institucionais, chegar a um denominador comum”

    Fernando Haddad

    então candidato a vice na chapa do PT à Presidência

    A questão de José Dirceu

    O ex-ministro José Dirceu, político do PT que já foi condenado em processos do mensalão e da Operação Lava Jato, deu uma entrevista ao jornal El Pais, ainda no primeiro turno, na qual disse que era “uma questão de tempo para o PT tomar o poder”. Questionado sobre a possibilidade de o PT “ganhar, mas não levar” as eleições, o ex-ministro respondeu: “Aí nós vamos tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição”. Depois, Dirceu afirmou ter sido “infeliz” ao fazer a afirmação.

    O candidato do PT rebateu as declarações de Dirceu em dois momentos. A primeira vez foi em 3 de outubro, durante uma entrevista a uma rádio de Pernambuco, quando disse que o ex-ministro não teria “nenhum papel” caso o PT vencesse as eleições em 2018. A segunda foi em entrevista concedida ao Jornal Nacional, em 8 de outubro. A resposta de Haddad seguiu a mesma linha do que já tinha dito quando foi questionado sobre o assunto na outra vez.

    “O ex-ministro não participa da minha campanha, não participará do meu governo e eu discordo da formulação dessa frase. Para mim, a democracia está sempre em primeiro lugar”

    Fernando Haddad

    candidato do PT à Presidência, em entrevista ao Jornal Nacional

    A questão da ‘social democracia’

    Também em entrevista ao Jornal Nacional em 8 de outubro, Haddad se apresentou como um candidato “social democrata”. Em seu estatuto, o PT se classifica como uma sigla que pretende construir o “socialismo democrático”, mesmo que, na prática, seus governos tenham sido mais próximos da social democracia.

    “É uma honra poder participar de um segundo turno, situação em que nós vamos confrontar dois projetos. Nós, do lado da social democracia, do estado de bem-estar social, que garante o direito do cidadão”

    Fernando Haddad

    candidato do PT à Presidência, em entrevista ao Jornal Nacional

     

    A questão dos evangélicos

    Nesta quarta-feira (17), Haddad se reuniu com líderes de igrejas evangélicas em São Paulo, na busca de apoio para disputar o segundo turno contra Bolsonaro. No evento, o candidato do PT recebeu representantes das igrejas Batista, Presbiteriana, Assembleia de Deus e Anglicana.

    No primeiro turno, líderes evangélicos apoiaram Bolsonaro. Pesquisas apontam que o apoio ao candidato do PSL entre esse eleitorado chega a quase 50%.

    Haddad foi a público reclamar do adversário sobre boatos espalhados via WhatsApp que buscavam desgastá-lo junto aos evangélicos, como as notícias falsas de que o petista teria criado o chamado kit gay para escolas públicas, algo que nunca ocorreu, mas costuma ser usado como arma política do próprio Bolsonaro.

    No encontro desta quarta (17), Haddad entregou uma carta. Nela, defendeu a liberdade religiosa e tentou se descolar de pautas sensíveis a esse eleitorado. Disse, por exemplo, que delegará ao Congresso temas como a descriminalização do aborto, do casamento gay e do comércio de drogas.

    “A legalização do aborto, o kit gay, a taxação de templos, a proibição de culto público, a escolha de sexo pelas crianças não constam de meu programa de governo”

    Fernando Haddad

    candidato do PT à Presidência, em carta dirigida a líderes evangélicos

    O que o PT conseguiu até aqui

    Além de ter feito retratações públicas para atenuar o antipetismo e diminuir a vantagem para Bolsonaro, Haddad tem dado ainda sinais de aproximação a adversários do PT.

    A campanha de Haddad escalou líderes do partido para negociar o apoio de políticos importantes do PSDB, seu rival histórico. Formalmente, o PSDB, que contava com a candidatura de Geraldo Alckmin, manifestou que vai manter a neutralidade no segundo turno.

    O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não descartou a possibilidade de apoiar Haddad. Em entrevista ao colunista do jornal O Globo Bernardo Mello Franco, o ex-presidente disse não aceitar em hipótese alguma o apoio a Bolsonaro. Quando foi questionado sobre apoiar o petista, FHC disse que ainda não tinha decidido, embora tenha feito várias críticas ao PT.

    Em 10 de outubro, o tucano voltou a tocar no assunto ao ser questionado se ele mantinha uma porta aberta para discutir um eventual apoio a Haddad. Afirmou na ocasião: “Eu não diria aberta, mas há uma porta. O outro não tem porta. Um tem um muro, o outro uma porta. Figura por figura, eu me dou com Haddad. Nunca vi o Bolsonaro”.

    Haddad fez um aceno a FHC e disse que a porta “precisa ser aberta”. Respondeu o seguinte: “Se existe uma porta que precisa ser aberta em nome da democracia, todo mundo tem a obrigação de abrir essa porta”.

    Numa outra frente, Haddad procurou o ex-ministro do Supremo Joaquim Barbosa, que chegou a cogitar disputar as eleições de 2018 pelo PSB, mas acabou desistindo. Barbosa tornou-se símbolo do combate à corrupção ao relatar o processo do mensalão, que levou para a cadeia parte da cúpula petista.

    Em entrevista à rádio CBN, Haddad disse ter se encontrado com o ex-ministro em 10 de outubro, em Brasília. Nesta segunda-feira (15), o presidenciável do PT disse em entrevista à rádio Bandeirantes que conversou com Barbosa sobre “medidas que o governo tem que tomar para melhorar o combate à corrupção”.

    Nesta terça-feira (16), o colunista do jornal O Globo Lauro Jardim informou que Barbosa já tomou a decisão de não declarar apoio a Haddad. O ex-ministro já teria comunicado seus familiares. Ele ainda não se manifestou sobre o assunto nem em público, nem pelas redes sociais.

    Dos adversários derrotados no primeiro turno, o único que manifestou apoio publicamente a Haddad até o momento foi Guilherme Boulos, do PSOL. Já no domingo (7), após sair o resultado do primeiro turno da votação, Boulos disse: “Agora estaremos nas ruas para derrotar o fascismo e eleger quem representa a democracia no segundo turno: Fernando Haddad”.

    Derrotado no primeiro turno, o então candidato do PDT Ciro Gomes deu alguns sinais de que poderia apoiar Haddad na próxima etapa da disputa presidencial. Ao telefonar para cumprimentar o petista, Ciro o teria chamado de “presidente”, segundo o jornal Folha de S.Paulo. Publicamente, o político do PDT não foi afirmativo. Disse o seguinte: “Abaixo o fascismo, pela democracia! Abaixo a ditadura! Nunca mais de volta”. Em nota, o PDT anunciou um “apoio crítico” à candidatura petista.

    Em um evento de apoio à candidatura de Haddad realizado nesta segunda-feira (15), um dos irmãos de Ciro, o ex-governador do Ceará e senador eleito Cid Gomes, fez duras críticas ao PT. Rodeado por militantes petistas, Cid disse que o partido precisa ter humildade sob o risco de perder as eleições. Afirmou: “Tem de fazer um mea culpa, pedir desculpa, ter humildade e reconhecer que fizeram muita besteira”, disse. “Não admitir os erros que cometeram é para perder a eleição. E é bem feito.” Os militantes começaram então a gritar o nome de Lula. E, em resposta, Cid chamou a militância de “babaca”.

    “Não tenho raiva do PT. Acho que o [Fernando] Haddad é o melhor. E, para eles terem a mínima possibilidade de ganhar, a companheirada teria de fazer uma autocritica, um pedido de desculpa”

    Cid Gomes

    senador eleito e irmão de Ciro Gomes, em declaração ao jornal Folha de S.Paulo nesta terça-feira (16)

    A principal crítica de quem não aderiu à campanha de Haddad é que a autocrítica precisa ser mais explícita. Um dos coordenadores da campanha petista, o ex-governador da Bahia e senador Jaques Wagner, questionou as cobranças. “O que quer dizer mea culpa? O PT já falou várias vezes dos erros. Eu já falei várias vezes dos erros”, disse ele, que já declarou publicamente que era favorável ao apoio do PT a Ciro Gomes ainda no primeiro turno, em vez de lançar candidato próprio.

    Também derrotada no primeiro turno, a então candidata da Rede Sustentabilidade, Marina Silva, não manifestou publicamente quem vai apoiar. Quando foi questionada sobre esse tema, Marina disse que “ainda não está declarando seu voto”. Em nota, a Rede informou que vai orientar os filiados a “não votar em Bolsonaro”.

    Várias entidades da sociedade civil escreveram manifestos em defesa da democracia. O Instituto Vladimir Herzog, ligado à família do jornalista torturado e assassinado por agentes do regime militar, divulgou uma nota na qual afirma que Bolsonaro é “uma ameaça à democracia”.

    Entidades de judeus, muçulmanos e cristãos também divulgaram um texto classificado como “inter-religioso e contra a barbárie”, em referência ao candidato do PSL. A nota é assinada pela Frente Evangélica pelo Estado de Direito, Judeus Contra Bolsonaro e representantes da mesquita Sumayyah Bint Khayyat. “Não podemos colaborar para que estes tempos sombrios voltem a surgir entre nós. A barbárie que bate à nossa porta não pode entrar”, diz o manifesto.

    Uma série de advogados e magistrados também lançou um manifesto em defesa da candidatura de Haddad no segundo turno. O texto sustenta que o candidato do PT "é o único capaz de garantir a continuidade do regime democrático". Entre os signatários, estão o ex-ministro do STF Sepúlveda Pertence e advogados como Pedro Dallari e Belissário dos Santos Jr.

    Ainda no primeiro turno, diversas personalidades aderiram a um manifesto chamado “Democracia Sim”. Artistas como Caetano Veloso, Patrícia Pillar, Alessandra Negrini e Leandra Leal assinaram o documento. Eles declararam voto em Ciro Gomes no primeiro turno. No texto, os signatários afirmam ter “compromisso com a democracia, com a liberdade e a convivência plural” e manifestam repúdio à candidatura de Bolsonaro.

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