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Como o turismo étnico dá protagonismo ao patrimônio negro

Turismo étnico-afro ou afroturismo tem sua base em comunidades como quilombos e valoriza tradição, visão de mundo e cotidiano de grupos historicamente marginalizados

 

Incentivado por políticas públicas do governo federal a partir do início dos anos 2000, o turismo étnico é hoje um instrumento importante para a autossuficiência de algumas comunidades quilombolas no país e de valorização do patrimônio histórico, cultural e natural de populações negras e indígenas.

O tema está no radar de ativistas políticos e parlamentares. Eleita deputada estadual de São Paulo em 2018, Érica Malunguinho tem como uma de suas propostas o incentivo ao “turismo social em quilombos e territórios indígenas como estratégia de combate ao racismo, proteção, visibilidade e economia sustentável”.

A candidata criou o Aparelha Luzia, associação e espaço cultural que ela chama de “quilombo urbano”.

O turismo étnico é uma vertente do turismo cultural em que comunidades tradicionais afrodescendentes, caiçaras, quilombolas, ciganas ou indígenas tornam seu próprio patrimônio histórico e cultural e seu modo de vida atrativos para o desenvolvimento do turismo sustentável, disse ao Nexo Cláudia dos Santos, professora universitária e pesquisadora do turismo étnico-afro.

Segundo a professora, a origem das primeiras iniciativas de turismo étnico no Brasil está ligada à organização de visitas em terreiros de candomblé, principalmente para turistas americanos e europeus que visitavam o Nordeste brasileiro e se interessavam pela religiosidade afro.

Embora surgido dessa procura, um traço importante do turismo étnico é ser um “turismo de base comunitária”.

“Isso quer dizer que toda a comunidade é protagonista, é como uma mola propulsora para o desenvolvimento do turismo local”, disse a pesquisadora ao Nexo. “Diferente de comunidades em que pessoas de fora interferem na atratividade, no cotidiano, são elas que comercializam o destino, no turismo de base comunitária. Tudo é feito pela própria comunidade. Ela é a protagonista.”

O turismo étnico foi reconhecido pelo Ministério do Turismo em um manual oficial publicado em 2010.

Antes disso, ações de diferentes ordens e políticas públicas que favoreceram o desenvolvimento desse segmento de turismo já vinham sendo promovidas desde o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006), segundo Santos.

Nas comunidades quilombolas

Organizadas em um cooperativismo que procura integrar toda a comunidade, de modo que todos dividam responsabilidades e ganhem com isso, muitos quilombos contam hoje com transporte, hospedagem, restaurantes, agências e operadoras de turismo próprias.

“Nos percursos [turísticos], essas comunidades nos apresentam a mata, o mangue, o sambaqui, os rios e cachoeiras e as plantas medicinais como partes fundamentais de sua visão de mundo”, disse ao Nexo David Ribeiro, doutorando em História Social na FFLCH-USP.

Em sua pesquisa, Ribeiro trabalha com duas comunidades quilombolas do estado de São Paulo: Ivaporunduva, em Eldorado, e Mandira, em Cananeia.

“A partir [da visão de mundo dos quilombolas], a ideia que temos de patrimônio se amplifica, uma vez que as categorias que criamos de cultural, natural, material e imaterial estão profundamente imbricadas, numa relação de total interdependência. É por meio da atividade turística que, de certo modo, imergidos em seu cotidiano, nos damos conta de que o principal patrimônio são as próprias comunidades, que têm o direito de reivindicar que o seu modo de ser e estar no mundo receba a atenção da sociedade e do Estado”, disse Ribeiro.

No estado do Rio de Janeiro, o Quilombo do Campinho, tema da dissertação de mestrado de Cláudia dos Santos, abriga um restaurante totalmente abastecido pelas roças da comunidade, cultivadas em agroflorestas.

“O impacto é muito positivo, no sentido de trazer a economia e torná-los protagonistas de um lugar onde eles poderiam estar trabalhando como funcionários em qualquer outra atividade econômica”, disse Santos.

“E o discurso no Quilombo do Campinho é justamente esse: ‘construímos tudo isso para que minha filha não precise ser empregada doméstica no Condomínio de Laranjeiras, para o meu filho não precisar ser servente de uma pousada em Trindade [em Paraty]’. Eles fizeram de uma maneira que a economia gira lá dentro.”

Se nessas comunidades a maior parte da renda que circula é gerada dentro delas, outras regiões ainda começam a dar atenção ao tema.

É o caso do Tocantins, onde, segundo Santos, o governo tem se mobilizado para implantar o turismo étnico nos redutos quilombolas locais.

A questão da terra

Tanto David Ribeiro quanto Cláudia Santos reforçam a importância do reconhecimento das comunidades e da titulação de suas terras como requisitos para o desenvolvimento do turismo.

“Ao mesmo tempo em que demandavam o reconhecimento legal de suas terras – Ivaporunduva foi a primeira comunidade quilombola paulista a ter o título da terra registrado em cartório; Mandira já passou por todo o processo e aguarda a titulação –, essas comunidades passaram a se articular e a tomar para si o poder de decidir como e com que objetivos receberiam visitantes”, disse Ribeiro ao Nexo.

Para Santos, a garantia da posse da terra faz diferença, porque com isso os quilombolas “têm tempo e tranquilidade para pensar em outras pautas, como sua organização social para o desenvolvimento do turismo”.

Enquanto outros quilombos ainda precisam discutir a pauta agrária para serem reconhecidos, impedindo a perda de seu território e a descaracterização da comunidade, os quilombos titulados conseguem mobilizar forças para viabilizar o turismo como alternativa de subsistência.

Religiosidade como atrativo

No Nordeste, de acordo com Cláudia Santos, os atrativos do turismo étnico-afro não estão só em redutos quilombolas, e são ligados, principalmente, à religiosidade. 

Nos quilombos de São Paulo e Rio, terreiros não costumam estar ativos ou ser parte das atrações, devido ao passado de perseguição às religiões de matriz africana.

Independência e domínio sobre a narrativa

“Algumas das poucas práticas sustentáveis de fato, como todo mundo anseia, acontecem nesses redutos de comunidades tradicionais. Quando uma comunidade vive 100% do que produz, transforma essa cultura tradicional, histórica, natural em atrativo, não depende em nada no meio externo. Está autossustentável dentro do seu território. Discutir o turismo étnico é falar um pouco de sustentabilidade, no sentido de maneiras de se sustentar a partir do território. Dentro desses redutos isso é possível”

Cláudia dos Santos

Pesquisadora do turismo étnico-afro

Ao narrarem suas lutas históricas através do turismo, do passado escravista às dificuldades que encontram para vender o que produzem, os quilombolas conquistam, à medida em que os visitantes têm contato com essa trajetória, aliados para as suas demandas.

“O que se destaca nas narrativas históricas dessas comunidades é a permanência dos estigmas de uma sociedade fundada sobre a escravidão de africanos. Mas é uma narrativa da escravidão e do pós-abolição, cujo centro é a resistência dos escravizados e de seus descendentes ao sistema que os excluiu do acesso à cidadania plena. Nesse sentido, são frequentes as referências à Lei Áurea como um processo ainda não concluído, e também à legislação ambiental que não os enxerga como agentes que historicamente contribuíram com a conservação ambiental, devido aos seus modos de vida e à forma como se relacionam com a natureza”

David Ribeiro

Doutorando em História Social da USP

Roteiros urbanos

Cidades como Cachoeira e Salvador, na Bahia, e São Paulo (capital) também contam com roteiros turísticos focados na valorização da cultura e memória negras no espaço urbano.

Desde junho de 2018, em São Paulo, a Caminhada São Paulo Negra busca “contar histórias de lugares importantes para os negros que foram invisibilizadas com tempo, e de personagens que não entraram para os livros de história com a importância que deveriam”, disse ao Nexo Guilherme Soares Dias.

Dias é cocriador do Black Bird Viagem, uma plataforma de turismo e representatividade. “A ideia é trazer um movimento que já é forte nos EUA, o ‘black travel movement’, para o Brasil”, disse Dias, que busca incentivar mais viajantes negros a viajar e possibilitar alternativas de turismo étnico nas cidades que visitam.

Na caminhada paulistana, um dos temas é o bairro da Liberdade, povoado por negros antes da chegada dos japoneses, pela qual é conhecido, e do Bixiga, bairro negro e de migrantes nordestinos.

Falam também de personagens como o advogado e jornalista abolicionista Luiz Gama e o arquiteto Joaquim Oliveira Tebas, que fez fachadas da Igreja São Francisco e da primeira igreja da Sé.

“A história negra de São Paulo é a história de São Paulo. Ela ganha esse aposto por que não é o foco, não é contada quando se conta a história da cidade”, disse Dias.

Além de contar histórias invisibilizadas, falar sobre personagens menos conhecidos, para ele, o papel do turismo étnico é levar turistas para conhecer e consumir produtos de comunidades quilombolas, valorizar a cultura negra e popular e consolidar um turismo “de experiência e de vivência da realidade brasileira”.

Com “turismo de experiência e de vivência da realidade brasileira”, Dias se refere a um despertar de consciência que leve viajantes a  escolherem fazer um turismo que diz respeito a elas, em que “se enxergam” e por meio do qual “pessoas negras valorizem os seus e sua história e pessoas brancas busquem essa história menos contada”, disse.

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