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Por que negligenciar a educação de meninas prejudica a economia

Material produzido por fundo internacional estima que quase um bilhão de meninas e jovens mulheres não estão sendo preparadas para o futuro do mercado de trabalho

     

    No dia 10 de outubro de 2018, o Fundo Malala divulgou o relatório da campanha “Full Force: Why the world works better when girls go to school” (“Força total: por que o mundo funciona melhor quando meninas vão à escola”, em tradução livre).

    O documento advoga pela importância de se investir na educação de meninas e mulheres, e aponta que quase um bilhão, ou 65% das meninas e mulheres de até 24 anos do mundo, não têm acesso ao ensino e desenvolvimento de habilidades consideradas fundamentais para o mercado de trabalho do futuro.

    Deixar de preparar a geração atual de meninas e jovens pode deixá-las mais vulneráveis ao desemprego e a condições precárias de trabalho.

    A campanha mira em influenciar a reunião da cúpula do G20, que acontece de 30 de novembro a 1º de dezembro de 2018, na Argentina. O grupo reúne, desde 1999, os ministros das finanças e os chefes dos Bancos Centrais das maiores economias do mundo.

    O Fundo Malala foi criado pela paquistanesa Malala Yousafzai, ativista pelo direito à educação e pessoa mais jovem a receber um Nobel da Paz.

    Em 2012, quando tinha 15 anos, Malala sobreviveu a um ataque a tiros do Talibã em Swat, região ao norte do Paquistão onde vivia. A jovem se tornou alvo por defender publicamente o direito à educação para meninas, proibidas de frequentar a escola pelo grupo terrorista islâmico.

    O que diz o documento

    O número de 955,6 milhões de meninas e mulheres de até 24 anos sem acesso a uma capacitação adequada para o mercado de trabalho do futuro foi estimado com base em uma análise de informações feita pelo Instituto de Estudos do Desenvolvimento (IDS), do Reino Unido, que cruzou dados oficiais sobre as matrículas de meninas na educação formal e informações da ITU, a agência das Nações Unidas sobre tecnologias de informação e comunicação.

    O relatório também comparou a quantidade de meninas e mulheres jovens nesta situação em quatro grupos de países: os de renda baixa, de renda média-baixa, de renda média-alta e de renda alta.

    Os resultado é que, quanto mais pobre é o país, maior a porcentagem de mulheres jovens que, atualmente, não estão recebendo a capacitação adequada para atender exigências do mercado de trabalho nos próximos anos.

    Com a maior parte das jovens mulheres do mundo sem preparo para ter sucesso em um mercado de trabalho em ritmo acelerado de mudança (transformação que inclui os processos de digitalização, automação, robótica, “big data” e inteligência artificial), o crescimento econômico ficará mais lento.

    Segundo estimativas da Unesco, 40 milhões de vagas de emprego em todo o mundo não poderão ser preenchidas por falta de trabalhadores qualificados nos próximos dois anos.

    Um dos estudos citados pelo relatório do Fundo Malala para fundamentar esse impacto econômico, feito pelo Banco Mundial e lançado em julho de 2018, mostra que, se todas as meninas tivessem acesso aos 12 anos de educação de qualidade recomendados, os ganhos das mulheres ao longo da vida poderiam dobrar de US$ 15 trilhões para US$ 30 trilhões globalmente.

    O relatório recomenda, ainda, que as políticas educacionais não devem ser “neutras” em relação à questão de gênero.

    Interpela as autoridades do G20 a lançarem uma iniciativa específica para garantir que a educação prepare todas as meninas para o futuro do trabalho, adotando medidas como o aumento do financiamento e adoção de planos de educação que levem em conta as desigualdades de gênero.

    Para ser transformador, o ensino deve, ao contrário, “ajudar tanto meninas como meninos a desafiar as normas sociais” relativas ao gênero, de acordo com o documento.

    O Nexo fez duas perguntas a Denise Carreira, doutora em educação pela Universidade de São Paulo, integrante da Rede Internacional Gulmakai, criada por Malala, e da coordenação da organização Ação Educativa.

    De que maneiras não investir na educação de meninas prejudica a economia nacional e global?

    Denise Carreira Investir na educação de meninas é uma estratégia para criar soluções econômicas que beneficiem a toda a sociedade.

    Nós sabemos que as mulheres têm um papel fundamental na economia, no Brasil e no mundo. O trabalho feminino, pago e não pago, é parte estrutural do funcionamento dela.

    A responsabilização das mulheres pelo trabalho doméstico e pelo cuidado com a vida faz com que meninas e mulheres tenham um conhecimento muito efetivo sobre as necessidades concretas da população. Por isso, vem dessas meninas e mulheres a capacidade de construir alternativas inclusivas e sustentáveis.

    A educação é uma ferramenta essencial para prepará-las para enfrentar os enormes desafios que estão colocados, empoderá-las para refletir e colocar em prática, em nível macro, essas alternativas.

    Na sua avaliação, quais são os principais entraves de gênero na educação no Brasil hoje?

    Denise Carreira Quando produzimos o Informe Brasil: Gênero e Educação [na Ação Educativa, em 2013], identificamos alguns desafios importantes.

    Um deles é o fato de que, entre as próprias mulheres, existem desigualdades no acesso e qualidade da educação. São principalmente desigualdades relacionadas à renda, raça, [estarem no meio] rural ou urbano e região.

    A média que favorece as mulheres nas trajetórias educativas [mulheres têm escolaridade média maior que a dos homens no Brasil e são maioria no ensino superior] pode esconder o fato de que as mulheres negras têm condições piores do que mulheres brancas e homens brancos quando falamos de escolarização no ensino médio e no ensino superior.

    A situação pior por parte dos meninos brasileiros, em especial os meninos negros, em relação a desempenho e permanência na escola, também é uma questão de gênero.

    Outra questão é a concentração de mulheres em carreiras consideradas “femininas”, um reflexo da persistência de estereótipos (como o que diz que mulheres têm menos habilidade para a matemática), que são reproduzidos no ambiente escolar.

    A escola também reproduz outras formas de preconceito de gênero, precisando fortalecer esse debate para enfrentar casos de assédio e outras formas de violência contra meninas. A Lei Maria da Penha prevê, em seu artigo 8º, que os currículos escolares incluam conteúdos sobre direitos humanos e igualdade de gênero e raça.

    A ação de grupos ultraconservadores que se colocam contra o debate sobre gênero nas escolas vem sendo um entrave para a implementação dessa medida, tanto nas políticas públicas quanto na perseguição a professores e estudantes.

     

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